O VERDADEIRO TRABALHO OCULTO TEOSÓFICO
Alfredo Puig Figueroa (Membro da Sociedade Teosófica pela Loja Alvorada, de Brasília-DF)
Através dos anos, em algumas ocasiões, temos escutado de alguns novos membros, depois de seu ingresso, expressões de surpresa ao constatarem que não se fazia “trabalho oculto” na Loja Teosófica, como eles esperavam.
Frases como: “fazer um trabalho oculto”, “receber ensinamentos esotéricos”, “obter a clarividência”, “desenvolver a kundalini”, “despertar os chacras”, etc., representam o reflexo de um desejo vago e indefinido de se encontrar algo misterioso, algo completamente diferente do ritmo de nossas vidas rotineiras e aborrecidas. Muitas vezes se concebem quadros mentais com a imaginação, nos quais se espera participar de cerimoniais especiais, com personagens vestidos com largas túnicas e sentados em círculo, reunidos em alguma gruta secreta e efetuando atos de magia onde vamos ser “iniciados”.
Estes conceitos significam um enfoque errôneo de nossa parte, quando estamos buscando “coisas especiais” que satisfaçam nossas ambições egoístas. Sem dúvida, a maioria de nós algumas vezes pode não se dar conta da maravilhosa magia coletiva que é possível fazermos aqui e agora, em nossa própria Loja Teosófica, em favor de toda a Humanidade, se é que verdadeiramente queremos fazê-lo.
Este é o verdadeiro trabalho oculto teosófico!
Algo que teremos que ter sempre presente é que viemos à Sociedade Teosófica para dar e não para receber, diferentemente da atitude comum que predomina no mundo externo. Sabemos ser uma lei da vida que “é dando que verdadeiramente se recebe”.
Alguns pensam que têm pouco com que eles contribuir, sentem-se débeis e até desamparados. Se considerarmos que cada um de nós é um teósofo sincero que, apesar das limitações e debilidades pessoais, estamos tratando de superar nossas diferenças e que temos o propósito firme e sincero de nos convertermos em um servidor daqueles Santos Seres que nos trouxeram à Sua Sociedade, então nosso enfoque é diferente e mais real.
Lembremos que um grupo de teósofos, (a partir de sete membros), constitui uma Loja Teosófica, a qual tem suas reuniões geralmente uma vez por semana, e quando olhamos o fuso horário que rege o mundo sabemos que, quando num país é noite, num outro é dia, e como nós teósofos trabalhamos em grupo, nas nossas respectivas Lojas Teosóficas mantemos o fluxo de uma corrente constante de pensamentos, constituídos de vibrações elevadas de ideais espirituais e de propósitos fraternais, o que tende a melhorar a atmosfera mental do mundo e a elevar aqueles que são capazes de responder a esta influência especial.
Por acaso não se pode considerar uma oportunidade e um privilégio o que se nos oferece de contribuir com nossa pequena corrente de pensamentos de boa vontade a esta poderosa torrente que coletivamente projetamos sobre o mundo para fortalecer todo propósito nobre, todo ideal elevado, toda obra justa?
Este é o verdadeiro trabalho oculto teosófico! Tratemos novamente de utilizar nosso poder de visualização e imaginemos o lugar onde se encontra cada teósofo no mundo; vivendo uma vida de serviço, esforçando-se por não causar mal a ninguém, não infligindo crueldade, socorrendo o desvalido, confortando o atribulado; cheio de amor em pensamento, emoção, palavra e obra por convicção própria, não por simples obediência.
Nós, teósofos, devemos ser pessoas que se entregam de coração e alma, com todas as nossas energias disponíveis, a uma vida dedicada inteiramente aos Mestres de Sabedoria e Compaixão, como um sacrifício prazeroso e um serviço desinteressado e, ainda que tenhamos diferenças de pontos de vista sobre determinados assuntos, ainda que nosso nível de desenvolvimento não seja igual, contudo, aqui e agora, no trabalho da Sociedade Teosófica, estamos estreitamente unidos em um poderoso ideal comum, o da Fraternidade Universal de toda a Humanidade.
A influência que se pode irradiar de um grupo constituído deste modo, quando cada um dos corações de seus integrantes está impregnado de um ideal de amor, de unidade, de paz e de serviço, torna-se uma força tremenda de que o mundo necessita agora mais do que nunca.
Este é o verdadeiro trabalho oculto teosófico!
Estudamos no livro O Homem, como e de onde veio e para onde vai? da Dra. Annie Besant e do Sr. C. W. Leadbeater, que na Atlântida, por meio do conhecimento de magia que aquela raça possuía, criaram-se deliberadamente poderosos elementais de pensamento, bons e maus, e nos foi dito que alguns ainda estão vivos e se encontram ativos.
Com nosso egoísmo, ódio e crueldade, fortalecemos os elementais do mal, que são utilizados como forças destrutivas do Karma de homens e nações.
Com nosso amor, desinteresse e serviço fortalecemos os elementais do bem, que são utilizados como forças construtivas para auxiliar homens e nações no cumprimento de seus destinos e contribuem para “elevar um pouco do pesado Karma que oprime o mundo”.
Nós, como teósofos, em nosso trabalho coletivo em uma Loja Teosófica, criamos nos mundos internos uma Entidade de enorme poder, à qual chamamos o Deva da Loja, que irradia sua força benfazeja sobre todo o Universo. Se imaginarmos o que significaria unir todos os Devas individuais das Lojas Teosóficas do mundo, para formar o Deva internacional da Sociedade Teosófica, não seria difícil compreender que, apesar de sermos poucos quantitativamente, alguns milhares de homens e mulheres em um mundo composto aproximadamente por sete bilhões de habitantes, ainda assim, qualitativamente, somos uma força enorme para o bem, para a justiça e para a fraternidade.
Por isso se requer, no nível individual, uma compreensão plena do poder criativo de que dispomos e, no nível coletivo, um estreitamento dos laços de amizade e de unidade que nos unem no trabalho comum de cada Loja Teosófica.
É necessário lembrar constantemente o ideal comum que todos compartilhamos, viver cada dia com maior fidelidade, ajustados a este ideal, para que se reflita cada vez mais com maior força ainda nas tarefas mais humildes e simples de nossas vidas diárias não importa quão monótona possam parecer.
Este é o verdadeiro trabalho oculto teosófico!
Nós, membros da Sociedade Teosófica, temos um traço característico que nos distingue, que é dispormos de uma visão ampla sobre a importância que representa o primeiro Objetivo: “Formar um núcleo da Fraternidade Universal da Humanidade, sem distinção de raça, crença, sexo casta ou cor”. Esta visão nos chegou por meio da Teosofia.
É certo que alguns de nós já tivemos um vislumbre desta Verdade ainda antes de chegarmos à Sociedade Teosófica, é possível que inclusive já o tenhamos tido desde vidas anteriores, o que se manifesta como a impressão de se perceber uma verdade que nos é familiar e já conhecida como tal.
Esta visão, porém, de se compreender o objetivo de trabalhar pela Fraternidade, tem que se converter num incentivo em nossas vidas, assim como em uma entrega pessoal cada vez maior. Neste processo, se quisermos verificar se vamos pelo caminho correto, sem desviar da meta que traçamos, um elemento da maior importância é conhecer nossa motivação. A motivação é sempre muito importante e, no nosso caso, a motivação deve ser a de dar e não a de receber.
Este é o verdadeiro trabalho oculto teosófico! Quanto mais formos nos elevando ou adentrando, passo a passo, nas grandes verdades espirituais, devemos nos distinguir cada vez mais pelo fato de que vamos nós entregando ao serviço em proporção cada vez maior, e sentir de forma pujante a necessidade de nos entregarmos completa e desinteressadamente ao serviço dos Mestres de Sabedoria e Compaixão.
Deste modo, vemos que uma característica que se acentua dia-a-dia em nossas vidas é a de esquecermo-nos de nós mesmos e de tudo o que nos diz respeito no nível pessoal: ambições, desejos, descanso, etc. Em troca começa a se destacar, de modo proeminente, o sentimento do deleite que vem à nossa existência por nossa entrega total ao serviço, nossa decisão de colaborar com o Plano Divino.
Portanto, ainda nos níveis inferiores, qualquer motivação nossa que possa conter algum elemento de interesse pessoal, interromperá nosso desenvolvimento, enquanto que toda motivação que compreenda pureza de intenção, altruísmo total, dedicação abnegada, nos auxiliará em nosso desenvolvimento e, por isso, são de uma importância essencial.
Este é o verdadeiro trabalho oculto teosófico!
Lembremos que o Mestre Hilarion nos diz o seguinte numa nota, no livro Luz no Caminho, de Mabel Collins: “O artista puro que trabalha por amor à sua obra, está às vezes mais firmemente colocado no caminho correto do que o ocultista que imagina ter removido seu interesse de si mesmo, mas que, na realidade, só ampliou os limites de experiência e de desejo, e transferiu seu interesse para coisas relativas a uma dimensão maior da vida”.
Todos sabemos que se pode chegar ao caminho que conduz à Meta por meio de duas sendas. Uma é chamada à senda direta e a outra é a senda indireta.
Vou referir-me brevemente à segunda, à senda indireta, que é aquela que recebe o homem que, todavia, não é perfeito, que tem suas fraquezas e falhas mas que, não obstante, é utilizado em certa proporção para o trabalho dos Mestres e que chega à perfeição pelo trabalho que faz.
Esta é a senda que muitos escolheram, a Senda do Discipulado, mas não para chegar e ele, o Discipulado, através da contínua contemplação de um ideal de perfeição e de concentrar-se somente nisso, e sim melhor atentar para o fato de que somos parte da Humanidade, que ela está necessitada de todo tipo de ajuda, por modesta que seja, que nos anima uma grande compaixão para aliviar o sofrimento de todas as criaturas, e por isso, apesar de nossas fraquezas, nos entregamos com amor ao trabalho de instruir os demais com o mel da Sabedoria Divina para fazer com que as trevas no mundo sejam menos densas, que brilhe com maior fulgor “... a Luz verdadeira que ilumina todo homem que vem ao mundo”. (São João, I, 9)
Este é o caminho da Sociedade Teosófica e o caminho do ocultismo verdadeiro. Se pudermos definir o ocultismo verdadeiro com uma só palavra, esta é Serviço; porque o verdadeiro ocultista é aquele que está sempre trabalhando, que tem seu tempo todo ocupado, que busca todo tipo de enfoque, toda classe de virtudes que pode cultivar, porém sempre com o objetivo de estar cada vez mais capacitado para realizar um serviço mais amplo e melhor, que seja eficiente e satisfatório em todas as ocasiões.
Este é o verdadeiro trabalho oculto teosófico!
Este tipo de trabalho, útil e desinteressado, que estamos descrevendo, é a nota chave da Sociedade Teosófica. Enquanto usarmos esta palavra chave: Serviço: podemos afirmar que a Sociedade Teosófica é como uma escola ou como um laboratório, no qual nos capacitamos para que possamos ser mais eficientes em todo tipo de trabalho.
Se a palavra “serviço” é nossa nota chave, devemos acrescentar que o serviço não pode ser realizado de forma isolada ou pessoal, mas preferencialmente em grupo, em equipe, e sempre sob a inspiração dos Mestres, que são os grandes exemplos de oferecimento de um serviço coordenado em favor do mundo.
De modo que uma tarefa difícil que temos que aprender é a de trabalhar coletivamente e sob a inspiração do Mestre, e para isto a sua busca se converte em um elemento essencial de nosso crescimento oculto, porque verdadeiramente O encontramos através do serviço que realizamos em seu Nome.
A forma mais rápida de nos colocarmos em comunhão com o Mestre é tratando de encontrar os meios para nos fazermos mais perfeitos e mais dedicados no trabalho que devemos desenvolver, para poder cooperar com a parte do Plano Divino que corresponde a cada um d’Eles.
Quando efetuamos um trabalho nobre e desinteressado, em favor de um grande ideal de serviço, é como se acendêssemos uma luz no meio da escuridão e o Mestre a distingue nas trevas do mundo; e sempre que fizermos um trabalho como uma oferenda em Seu Nome, Ele a aceita e a aprecia; Ele pode ajudar-nos mais oferecendo-nos uma visão mais ampla do trabalho que temos que fazer e uma maior simpatia, à medida que o fazemos.
Este é o verdadeiro trabalho oculto teosófico!
Algumas vezes a resposta do Mestre ao nosso trabalho é inesperada, como, por exemplo, quando terminamos um bom trabalho, nos é oferecida como prêmio uma tarefa ainda maior para realizarmos, o que constitui uma lisonja de Sua parte. Ele pode também responder ao nosso esforço tornando-nos mais fortes para enfrentarmos nosso Karma pessoal. Ainda que muitos tenham lutado denodadamente durante anos, às vezes pode parecer que tenham conseguido muito pouco do ponto de vista oculto. Entretanto, se têm sido capazes de manter-se firmes em seus postos de trabalho nas Lojas Teosóficas, talvez chegarão a se dar conta de que essa firmeza, essa sensibilidade, esse sentimento de fidelidade, todos esses elementos em conjunto constituem a resposta do Mestre ao trabalho que se realizou.
Este é o verdadeiro trabalho oculto teosófico!
Outra das formas que o Mestre responde aos esforços que são feitos é quando nos é oferecida uma visão mais ampla das possibilidades que existem dentro do próprio trabalho. Ele facilita que se tenha uma imaginação mais ampla e uma intuição que indique o caminho correto. Assim, quando se concebem novas linhas de trabalho teosófico, quando alguém se sente empolgado com iniciativas na Loja Teosófica, é porque o Mestre ampliou nossos horizontes mentais para que Seu trabalho seja feito de maneira mais eficiente e satisfatória. É por isso que vemos facilmente estas novas oportunidades; porque realmente com essa visão chega uma oferta cada vez maior de trabalho que vem do Mestre, esta é sua resposta.
Este é o verdadeiro trabalho oculto teosófico!
Finalmente, temos que estar sempre vigilantes para não procurarmos nenhum tipo sutil de recompensa. Se nós pudéssemos afirmar que existe somente um pecado para o teósofo, diríamos que este pecado é o de buscar alguma recompensa, algum reconhecimento pelo trabalho que ele realiza. Não devemos nos sentir desanimado nem desencorajado quando ninguém reconhece nem leva em conta o trabalho desinteressado que se está realizando, porque nada passa inadvertidamente para o Mestre e o que é importante é que Ele sabe o que cada um faz.
Se estudarmos cuidadosamente o que é um Mestre de Sabedoria e Compaixão, qual é o Seu trabalho, como é, inclusive, Sua vida diária, teremos a certeza de que Ele está por trás de todo trabalho que realizamos em Seu Nome.
Este é o verdadeiro trabalho oculto teosófico!
É indispensável acostumarmo-nos a que o coração se deleite na realização de todo trabalho impessoal, sem preocupações de nenhum tipo a respeito de quais serão os resultados, com a certeza de que o Mestre tudo conhece e tudo sabe, só então se desvanecerá a ansiedade de considerarmos necessária uma recompensa, ou de estarmos à procura de um reconhecimento.
Observemos que com o serviço que prestamos, ainda que humilde, podemos aliviar um pouco do sofrimento do mundo, somos capazes de ajudar alguém aqui e ali, tornamos mais felizes um ancião ou uma criança, levamos consolo a um enfermo, damos um conselho amoroso àquele que sofre. Todo este trabalho pelo qual estamos rodeados deve servir para estarmos cheios de inspiração, porque estas são as diretrizes gerais de todos os verdadeiros ocultistas.
Este é o verdadeiro trabalho oculto teosófico!
Com freqüência se tem assinalado que a Sociedade Teosófica, em geral, e cada Loja Teosófica, em particular, constituem um canal para o uso dos Mestres, um veículo para a Grande Fraternidade Branca.
Acaso não terá chegado agora o momento de compreendermos o que é que realmente significa esta afirmação?
Porque... Este é o verdadeiro trabalho oculto teosófico!
Tradução: Edimar Silva (membro da Sociedade Teosófica pela Loja Fênix, de Brasília-DF)
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