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A ORDEM E O CAOS NOS SISTEMAS SOCIAIS

Luciano Dutra Rabelo

Nas organizações sociais, o princípio da dialética  pode ser traduzido como o choque das tendências de organização versus as tendências de desorganização, com a diferença de que não existem as etapas de tese, antítese e síntese da dialética convencional e sim um movimento pendular de eterna alternância entre dois pólos principais:  a tendência à ordem e a tendência à desordem, com dois outros movimentos secundários, que ocorrem nas fases de alternância de um pólo para outro.
 
Nenhuma organização pode ser totalmente ordenada, nem totalmente desordenada.
Para esclarecer o tema, usaremos o raciocínio teratológico, que leva ao exame de situações extremas hipotéticas, para avaliar seu efeito sobre um sistema, e dessa forma, balizar o ponto de distanciamento em que estamos desses limites-extremos e para qual deles estamos encaminhando.

Em um raciocínio teratológico , um sistema social que tivesse um grau de ordenamento acima do limite crítico levaria os indivíduos a desenvolver uma “síndrome paranóide”, como robotização, mania de perfeição, autoritarismo, detalhismo excessivo, perseguição aos diferentes, aos dissidentes e aos ineficientes, obediência cega, narcisismo, onipotência, culto à personalidade, inflação de ego, incapacidade de aprendizado, de reflexão e de crítica.

As tensões seriam crescentes e atingindo o clímax, tenderiam a gerar comportamentos rebeldes, anarquistas e destrutivos, visando produzir uma descompressão e liberação, como os tumultos e rebeliões que ocorrem no ciclo final de todas as ditaduras e tiranias, ou em menor escala, a desorganização que acontece em empresas e instituições.

Ainda na análise teratológica dos limites extremos, uma organização que chegasse ao máximo da desorganização, atingiria o ponto de fragmentação e colapso, mas antes disso, manifestaria o aparecimento de sintomas que poderiam ser chamados de “síndrome esquizóide” (o oposto da “síndrome paranóide”), que se caracteriza como falta de disciplina e de comprometimento, quebra de autoridade, perda de identidade, falta de objetivos ou objetivos conflitantes, desperdício, depressão, perda de referência, insegurança, conflitos, apatia, confusão, resultados negativos, etc. A organização se desagregaria rapidamente, entrando em colapso.

Na história política da antiga Atenas, é notória a sequência dos períodos de tirania, anarquia, democracia, demagogia, seguidas por novo ciclo idêntico, que, na realidade, são as quatro etapas do movimento pendular, em que a anarquia e a demagogia estão em pontos extremos e a democracia está no centro do movimento pendular.

Tomemos um dos pontos extremos desse movimento pendular: a tirania.
A anarquia é o caos gerado pelas reações à tirania.
A democracia é o frágil ponto de equilíbrio, a reação ordenadora ao caos da anarquia e ao mesmo tempo, reação liberadora em relação ao autoritarismo da tirania (reação menos radical do que a anarquia).
A demagogia é o outro pólo, o extremo da desordem: o caos gerado pela degeneração e corrupção da democracia, muitas vezes produzidos intencionalmente pelos demagogos, que solapam o sistema democrático para assumir o poder autoritário.
A tirania é a reação ordenadora ao caos da demagogia. Sempre aparece o falso messias que irá colocar tudo em ordem, desde que tenha poder absoluto e ilimitado. O demagogo era apenas o tirano disfarçado e fazendo o papel de bonzinho antes de abocanhar o poder. Os extremos se tocam.

As organizações que tendem para níveis excessivos de ordenamento institucional estão, sem dúvida, mais aparelhadas para atingir objetivos de curto prazo, devido ao alinhamento forçado com os objetivos da cúpula dirigente, mas têm de conviver com sérios problemas para produzir energia humana, como motivação, dinamismo, criatividade, a menos que haja uma liderança com carisma autoritário galvanizando as pessoas, o que pode dar resultados positivos a curto prazo, mas invariavelmente leva ao fracasso, porque nenhuma liderança consegue produzir energia motivadora por tempo indeterminado.

Por serem homegenizadoras, essas organizações tendem a nivelar e “pasteurizar” as iniciativas e características individuais, e com isso não conseguem produzir energia humana necessária, porque toda energia deriva de um fluxo de um potencial mais alto para outro nível de potencial mais baixo, o que não pode ocorrer onde há homogenização, onde tudo fica nivelado.

Nas organizações menos ordenadas existe maior liberdade para as iniciativas, permitindo aos  indivíduos  maior autonomia para criar, desenvolver e empreender, havendo mais espaço para o crescimento e o empreendimento e mais possibilidade de aprender através de tentativa e erro, o que não ocorre nas organizações homogenizadas, porque nessas o erro não é tolerado, o que cria aversão ao risco.
O problema das organizações menos ordenadas é que os erros de aprendizado podem ser tantos e a dispersão de recursos ocorrer em tão grande escala que o dinheiro comece a desaparecer pelo ralo.

Se não houvesse esse movimento de alternância de polaridades, todas as organizações que chegassem ao extremo da ordenação tenderiam a implodir em uma congestão hipertrófica paralizadora, enquanto as organizações muito desordenadas tenderiam a explodir em uma distensão caótica desintegradora.

Esses conceitos, derivados da confluência Teoria de Sistemas com a Teoria do Caos, criam uma perspectiva diferente para a Ciência da Administração, que normalmente conhece e valoriza somente um dos aspectos dessas intrincada questão: o aspecto da ordem e da organização, sendo os demais aspectos ignorados, quando não tratados como patologias ou temas relegados aos estudiosos da Teoria do Caos.

A organização ideal deve manter níveis simultâneos de homogeneidade e de hetererogeneidade, de regulamentação e de desregulamentação, admitindo-se balões de ensaio e áreas de teste que aumentem a vitalidade da organização, compreendendo-se que o acúmulo de normas, controles e padrões, juntamente com a sobrecarga de autoridade podem ser tão perniciosos para a organização quanto a desordem generalizada.