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Mais Artigos e Poemas A teoria dos jogos infinitos
Luciano Dutra Rabelo
Os jogos infinitos são jogos de ranking e de posicionamento. Você aceita participar do jogo. Mas não aceita ganhar, não aceita perder, não aceita empatar. Mas aceita jogar. Qual a finalidade ou a utilidade do jogo se não se joga para ganhar? A finalidade é manter o jogo, manter-se no jogo e manter o cenário do jogo de forma cada vez mais consolidada. Em outras palavras: a finalidade é a CONTINUIDADE, ou usando uma palavra em voga atualmente, a SUSTENTABILIDADE. Em um mercado em que muitos agentes caem e são expelidos do jogo, a continuidade é uma grande conquista, especialmente se ajuda a preservar o ambiente onde o jogo transcorre. Se o ambiente for destruído não haverá mais jogo. Os jogos infinitos não têm somente os objetivos de continuidade ou de sustentabilidade. Há um outro objetivo muito importante: lutar por uma melhor posição no jogo. Não se trata de vencer ou de perder, mas de re-posicionar-se de forma proativa de forma que a criar uma melhor "gestalt" do jogo, em que simultaneamente melhore-se o jogo no mesmo movimento em que nos posicionamos de forma melhor no jogo. Se os outros jogadores fizerem o mesmo, tanto melhor. O jogo ficará melhor para todos. Se os outros jogadores estiverem em posição melhor do que a nossa, é porque estão jogando melhor. Parabéns para eles, mas nada é estático e definitivo em um jogo infinito. Podemos aprender com eles e usar este aprendizado para melhorar nossa posição continuamente, afinal o jogo é infinito. Mas como participar de um jogo infinito se quase todos os jogadores são viciados em jogos finitos? Nem sempre você está em posição de impor as regras do jogo, ou de mudar as regras do jogo. Aliás, é extremamente raro que essa possibilidade esteja ao seu alcance. Se você for um empresário, pode planejar seu negócio dentro da lógica e dos princípios de um jogo infinito. Se não for dono de seu negócio, ainda assim pode posicionar-se no jogo de modo que as regras dos jogos finitos que lhe são impostas sejam movimentos secundários do jogo infinito que você reconfigura em sua mente. Não é difícil se criar um arcabouço mental em que os jogos finitos que você tem se jogar se transformem em fractais de um jogo infinito. Os jogadores do jogo finito pensarão que você está jogando o jogo deles. E você estará de fato o jogando o jogo deles, mas só na superfície do tabuleiro. Um jogador de jogos finitos pode ganhar ou pode perder. Mas um jogador de jogo infinito não pode ser derrotado. Como ele pode perder se o jogo não acaba nunca? Os jogos finitos visam conquistar vitórias e sucessos. Os jogos infinitos visam continuar o jogo sempre, mas melhorando de posição no ranking. Os jogos finitos são jogos de resultados , em que a estratégia é apenas um meio para se chegar a esses resultados. Os jogos infinitos são jogos de posicionamento estratégico, em que os resultados são colhidos como uma conseqüência natural do posicionamento ótimo. A palavra "jogo" tem um sentido lúdico, esportivo e competitivo quando se trata de jogos finitos. Tratando-se de jogos infinitos, o sentido dessa palavra é ampliado. Passa a significar toda a dinâmica da vida na esfera pessoal, ou a dinâmica do mercado na esfera empresarial, com as mudanças contínuas e variabilidade inesgotável. Envolve modelagem de situação, estratégias de interação e respostas adaptativas é uma realidade que se modifica a cada instante. Envolve uma imensa agudeza de percepção para entender a leitura situacional de cada momento, levando o conceito de "ambiência" a um nível de refinamento extremo. Existem muitos modelos matemáticos para demonstrar e resolver problemas relacionados a jogos infinitos, podendo-se citar a Teoria de Conjuntos Infinitos de Georg Cantor (1845 - 1918) e os modelos de probabilidades; porém as técnicas mais úteis para modelar essas aplicações são metodologias como a Arte da Descoberta de George Polya e diagramas heurísticos como os propostos por Imre Lakatos. Um jogador de jogo infinito não se questiona se vai ganhar ou se vai perder. Ele não se move pela ânsia de vitórias e nem pela angústia das derrotas. Quem pensa em vitórias e derrotas são os jogadores de jogos finitos: jogos que acabam e apresentam um resultado. Os jogadores de jogos infinitos são estrategistas em que a estratégia é simultaneamente meio e fim: pensam no alinhamento das ações a longo prazo e na melhor decisão que deve ser tomada a cada momento. Normalmente a melhor posição é a posição de vanguarda ou de liderança, mas muitas vezes é interessante deixar algum concorrente mais afoito assumir os riscos e receber o impacto das inovações. Pode-se aprender com os erros alheios em vez de aprender com os próprios erros. Os jogos infinitos são feitos por movimentos inteligentes e sincronizados de avanços e de recuos. Um jogador de jogos infinitos tem uma paciência infinita, porque seu jogo não é condicionado pelo tempo. Jogos infinitos são jogos de grande amplidão, mas absorvem cada pequeno movimento do cotidiano como parte o jogo. Um jogo de xadrez seria terrivelmente monótono se não tivesse um cheque mate, que transformasse a partida em jogo finito. Mas os jogos da vida não são como jogos de xadrez, em que cada jogador faz o seu movimento e tem de esperar a vez do adversário. Nos jogos da vida, todos os participantes podem fazer diversos movimentos ao mesmo tempo e podem fazer várias jogadas seqüenciais, sem ter de esperar a vez do adversário. Por causa dessa variedade e dessa infinidade de possibilidades, os jogos infinitos nunca são monótonos. Em um jogo infinito, cada movimento traz um ganho e uma perda, visto que em cada movimento você está se expondo para os demais jogadores, está dissipando energia e está excluindo do jogo as alternativas preteridas, uma vez que cada opção adotada elimina uma série de opções alternativas. Cada movimento muda toda a "gestalt" do jogo porque altera a relação de força e de posição entre as partes. Jogos infinitos são feitos em um "tabuleiro de xadrez" holográfico em que tudo está conectado com tudo e nada é isolado. Por isso, os jogadores de jogos infinitos tem uma visão mais holística e ecológica, nunca perdendo a noção do todo e nem criando segmentações e limites, além dos que já estão definidos nas regras do jogo, e que nem sempre são definitivos, podendo ser reordenados dentro da dinâmica do jogo. Da mesma forma que o "caminhar faz a trilha", os jogos infinitos vão reordenando as regras e limites do jogo, à medida que este transcorre. É freqüente encontrarmos situações em que um comerciante procura ganhar no "negocinho" e perde o cliente. Ou o caso do vendedor espertalhão, que engana o comprador, vendendo um produto adulterado no peso e na qualidade e destrói sua reputação no mercado. Estes são exemplos de jogadores "pernas de pau" dos jogos finitos. Querem ganhar a qualquer custo, mesmo ao preço da perda de sua reputação, credibilidade e sustentabilidade de seu negócio. Existe também o jogador esperto de jogos finitos: aquele que percebendo a estupidez dessas estratégias imediatistas e desonestas cai no extremo oposto e procura adular o cliente com demagogia barata e jargões mercadológicos tipo "o cliente é o rei", " o cliente sempre tem razão" e outras manhas deste teor. Um jogador de jogos infinitos tem uma postura mais madura em relação ao mercado e ao cliente. Ele sabe que de nada adianta ter clientes satisfeitos e arcar com custos exorbitantes que podem levar a firma à falência. Ele mantém seu foco no mercado e no cliente, mas sempre pondera este foco prioritário com seus próprios métodos e processos, que são continuamente aperfeiçoados. Procura descobrir os desejos e necessidades do cliente. Procura fidelizar o cliente através de uma relação de parceria e de um fortalecimento permanente da marca, da imagem, da idoneidade, da responsabilidade social e do relacionamento. Mas não considera que o cliente tem sempre razão. Não usa demagogia e nem propaganda enganosa. Sabe que mentira tem pernas curtas. Um jogador de jogos infinitos faz um jogo de amplo espectro, em que o cliente está incluído como um parceiro. Não cria uma fronteira entre o cliente e sua empresa. O cliente faz parte do jogo e a empresa é permeável e transparente para o cliente, na medida exata em que essas informações sejam de interesse do cliente. Ela não vai se expor mais do que o necessário e conveniente, porque perderia fôlego, perderia sua margem discricionária, e com isso prejudicaria sua posição no jogo. Um jogador de jogos infinitos está consciente que todas as suas ações são decorrentes de sua visão do jogo. Sabe que sua visão é imperfeita e incompleta, assim como a visão dos outros jogadores. Por isso, esforça-se continuamente para ver mais longe (visão de telescópio) e para ver com mais detalhes (visão de lupa). Um jogador de jogos infinitos tem menor propensão à corrupção porque seu jogo não tem limite de tempo e por isso ele ganha continuamente porque suas interações com o ambiente são responsáveis, produtivas e construtivas de forma consolidada e responsável e não pela ganância (desejo de ganho a qualquer custo). Um jogador de jogos infinitos sabe que cada fracasso é uma etapa da construção de sua montagem situacional. E sabe que cada vitória é apenas um novo patamar alcançado. Sabe que obstáculos são apenas marcas indicativas no jogo infinito. O esforço para superar os obstáculos impulsiona novos avanços. Por isso ele não detesta os obstáculos. Sabe que sem os obstáculos haveria uma inevitável tendência à estagnação. Por outro lado, não subestima os obstáculos. Obstáculos subestimados ou negligenciados podem crescer e se transformar em muralhas da China. Jogadores de jogos finitos é que costumam ficar embriagados com as vitórias e negligenciar obstáculos. O jogador que fica embriagado pela vitória, fica também perplexo e paralisado pela derrota ou pela força dos obstáculos. Jogos infinitos são uma simulação dos movimentos da vida, tendo uma auto-existência por si mesmos, por estarem alinhados com a própria dinâmica da existência. Jogos finitos são apenas artifícios criados pela mente humana, sendo convenções produzidas pelos costumes, pela tradição ou pelas disputas de mercado. |
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