INTRODUÇÃO

A Sabedoria Perene é um título genérico para o conhecimento universalizado que está na base de todas as religiões da humanidade, ressalvadas as diferenças de cultura, temperamento e tradição dos diversos povos.
A denominação “Sabedoria Perene” é mais adequada atualmente do que o desgastado vocábulo “esoterismo”, minado pela vulgarização, pelo mau uso e pela associação com feiras de berimbelas, onde se vendem todos os apetrechos de esoterismo para uso doméstico.
Nossa sociedade de consumo tem a incrível capacidade de transformar as coisas mais sérias em artigos fast food e consumi-los com a mesma frivolidade com que adquire aparelhos de barbear descartáveis.
Todavia, nossa sociedade consumista é apenas um momento passageiro na jornada humana pela face do planeta e, como tudo o que existe, é efêmera. E tanto mais efêmera será, quanto mais insistir em manter sua não-sustentabilidade decorrente de sua visão utilitária e predatória da natureza, sua insensibilidade exclusivista que leva à construção de uma civilização para poucos privilegiados, em detrimento de bilhões de excluídos, e sua visão periférica da condição humana, em que o homem é afastado de seu centro de vida essencial e jogado para as periferias de seu ego insaciável e competitivo, sempre ávido de mais, mais e mais, em um mundo de recursos limitados e de miséria crescente.
Porém, se a sociedade consumista é efêmera, a sabedoria perene é exatamente perene e indestrutível, atravessando as idades, com variações localizadas e adaptadas às novas épocas e às novas mentalidades humanas.
Pode-se dizer que as diferentes tradições espirituais da humanidade são “adaptações didáticas” orientadas para povos de diferentes épocas e diferentes culturas.
Obviamente, se Buda tivesse nascido na antiga Israel, falasse aramaico e não páli, fosse criado dentro da tradição profética e não da tradição hinduísta, outra seria sua mensagem, outra seria sua linguagem, e outras seriam suas metáforas.
O mesmo se pode dizer de Jesus, caso falasse sânscrito e tivesse nascido e se formado na tradição védica.
Mas tanto Buda quanto Jesus foram reformadores. O primeiro, um reformador do hinduísmo. O segundo, um reformador do judaísmo.
Essas reformas foram necessárias em seu tempo, não porque as antigas tradições estivessem fundamentalmente “erradas”, mas porque haviam se tornado obsoletas e não mais atendiam às necessidades da época, que exigia uma nova maneira de transmissão da sabedoria viva.
Há outro fato em comum nessas duas grandes mensagens: ambas encontraram solo fértil fora de sua fonte territorial de origem. O budismo floresceu na China, no Tibete, no Japão e em outros países da Ásia.
O cristianismo encontrou solo fértil na Europa e posteriormente nas Américas.
Para “reforço e afirmação da fé”, é normal e previsível que as religiões se apresentem como a única possibilidade de salvação e se esforcem para conquistar novos adeptos, (essa tendência é, sobretudo no cristianismo e no islamismo). Todavia, para o homem que pensa por si mesmo e não é produto de condicionamentos culturais e religiosos, nada pode ser mais absurdo e inverossímil do que a pretensão dos teólogos e sacerdotes de reivindicar uma espécie de “monopólio da salvação” exclusiva para seus nichos religiosos.
Se Deus tivesse a intenção de criar um caminho único, não haveria tanta diversidade no universo. A criação teria produzido uma única espécie de flor, um único tipo de pedra preciosa, uma única espécie de ave, um único tipo de inseto e um único tipo de peixe.
Para que essa diversidade da criação manifestada na Terra e no Céu se Deus desejasse que só houvesse um único caminho para conduzir os homens até Ele?
O caminho pode ser único para cada seguidor, em determinado momento de sua jornada, mas ele jamais deve supor que o caminho único para ele deva ser o caminho único para todos os outros. Essa é uma forma doentia de egolatria, em que se perde a capacidade de entender e de valorizar as opções alheias, enxergando o mundo unicamente através das lentes do próprio ego.
Uma das piores e mais dissimuladas formas de egoísmo acontece quando o egoísmo é travestido com matizes religiosos e espirituais. Os inquisidores medievais eram incapazes de ver seu egoísmo e sua insanidade, porque praticavam as ações do anticristo, usando o nome e a cruz do próprio Cristo.
A essência do universo é a unidade manifestada na diversidade. Um japonês (a título de exemplo) nunca poderá alcançar realização espiritual adotando os métodos e a cultura religiosa de um judeu.
Da mesma forma, para um judeu, todos os aspectos da cultura japonesa podem parecer estranhos e alienígenas.
Não faz sentido supor que essas culturas devam se converter uma à outra para que as pessoas alcancem a salvação. Se assim fosse, a salvação seria uma coisa mesquinha e condicionada no espaço e no tempo, e de forma alguma valeria a pena.
Cada ser humano tem de construir sua própria escada para chegar ao céu, mesmo que os degraus dessa escada sejam extraídos das tradições espirituais existentes. Isso não o dispensa da necessidade de elaboração própria e de contextualizar o ensinamento de forma individualizada, focalizando-o em sua vida particular.
É normal que as pessoas busquem seus referenciais religiosos dentro de sua própria cultura, mas é absolutamente insano supor que sua própria cultura e religião sejam, de alguma forma, superiores às demais. Isso é a hipertrofia do ego levada ao grau extremo.
Falta nas teologias eclesiásticas essa lucidez de percepção de que cada “revelação” é contextualizada e só tem sentido dentro de determinada época e de cada núcleo de civilização.
Buda pregou o caminho da auto-investigação e um método negativo de percepção da divindade, porque havia um excesso de ídolos e divindades no panteão hindu, o que criava dispersão e descoordenação.
O Islamismo proibiu os ídolos e as imagens porque a antiga religião árabe havia se tornado fetichista, com excesso de ídolos e de imagens.
Jesus baseou seus ensinamentos no amor e na quebra das tradições, porque a antiga religião hebraica se tornara rigorista, formalista, literalista e excessivamente ritualizada.
Moisés proibiu o contato com os mortos, porque os hebreus precisavam se libertar da magia popular da religião egípcia vulgar, mas não necessariamente da grande religião egípcia iniciática. O próprio texto bíblico relata que “Moisés foi instruído na sabedoria dos egípcios”.
É absolutamente urgente o desenvolvimento de uma visão universalista, para neutralizar o recrudescimento do fundamentalismo em nossa época.
Embora o fundamentalismo tenha o mérito de avivar o sentimento religioso, traz, em contrapartida, a volta da intolerância e dos ódios religiosos, o que causa mais mal do que bem.
A finalidade desses Relatos e Sínteses é fazer um “redesenho” desse pensamento universalista, colocando-o em novo formato, neste caso, em textos sumários, curtos e objetivos, para provocar no leitor o desejo de refletir e desenvolver o tema por si próprio e facilitar a ocorrência do insight.
O insight” é um clarão de percebimento, ou uma iluminação em miniatura, que só acontece quando o assunto é elaborado interiormente, levando o leitor à sua própria conclusão, mesmo que diferente, ou até mesmo divergente da do autor.
Qualquer um que escreva um livro sobre este tema necessita ter a humildade de reconhecer que tem poucos elementos inovadores a acrescentar ao conteúdo do assunto.
O que pode fazer é apresentar novos ângulos de visão, novas formas de expressão e de exposição didática (reciclar o assunto), de modo a tornar o tema mais atraente, conciso e assimilável.
Na área de estudos dos temas relacionados à sabedoria perene, nada é novo e nada é velho.
Todos os trabalhos desenvolvidos neste terreno são reapresentações, reformatações, redesenhos e elaborações de um assunto, cuja amplidão é infinita e inesgotável.
Os textos não devem ser vistos como revelações definitivas ou conclusões acabadas. O assunto abordado é continuamente elaborado, em busca de novos insights, novas luzes, novas descobertas. Estamos revolvendo um reservatório infinito e retirando do mar alguns pequenos baldes da água da vida.
Nossa atitude deve ser de respeito e veneração por um saber infinito, que torna insignificante todo o saber humano. Diante do infinito, todas as grandezas são nulas.
No caso presente, a proposta básica é apresentar os fundamentos essenciais do “grande ensinamento” em um formato e em uma linguagem não cartesiana.
O cartesianismo tem a característica de ser claro, ordenado, estruturado, lógico e cristalino. O único problema é que a par de todos esses aspectos positivos, ele falseia com a verdade, porque o universo não é cartesiano e a vida não é cartesiana.
O que pretendemos não é mesclar e nem “misturar” as diversas tradições e sim resgatar a experiência humana integral, pois toda a experiência humana de todos os povos e de todas as épocas faz parte de nossa bagagem e nada pode ser perdido e nem descartadado.
O melhor serviço que o autor pode prestar ao leitor não é transmitir-lhe informações e conhecimentos, e sim, fornecer elementos de reflexão para que o leitor elabore o assunto por si mesmo e formule suas próprias sínteses.
Só assim pode nascer um conhecimento de primeira mão, que é o fundamento da sabedoria.