Há três tipos básicos de motivos para não recordarmos as vidas passadas.
O primeiro deles é funcional. Está ligado à própria estrutura do sistema integrado de corpos existenciais do ser humano, que se renovam em cada encarnação, não trazendo, portanto, as memórias de vidas passadas.
O segundo motivo está ligado à sabedoria da Natureza, que privou o ser humano de uma lembrança que seria dolorosa e prejudicial à sua vida presente.
O terceiro motivo é de ordem transcendente. Nesse sentido, Shankara, filósofo do século VIII de nossa era e reformador do hinduísmo, afirmava que o senhor (o Eu interno ou Atmã ) é o único ser reencarnante. O budismo tem um ensinamento ainda mais radical, afirmando, por razões didáticas, que somente os skandas , ou agregados, se encarnam, desconsiderando a existência do próprio Atmã .
O budismo usa a ‘estratégia do não-eu” como método didático, por duas razões: a primeira delas é que no hinduísmo havia excessivas citações e referências conceituais ao Atmã , e as palavras tendem a ocupar o lugar das coisas reais representadas por elas. Por esse motivo, o budismo optou por usar uma linguagem negativa, para evitar a fixação conceitual.
A segunda razão é que a negação do eu, com todo seu conteúdo de confusões, ambições e contradições, possibilita o esvaziamento da mente e só uma mente vazia e atenta pode perceber a presença daquilo que não tem nome.
Podemos concluir que o hinduísmo está mais próximo da verdade conceitual e filosófica, mas o budismo tem um método de realização mais simples e eficaz.
Aprofundando a análise do primeiro motivo citado, pode-se esclarecer que o ser humano, em cada nova encarnação, recebe não apenas um corpo físico, com um novo cérebro físico, mas também um novo corpo astral e um novo corpo mental. Pode-se dizer que o ser humano recebe uma nova alma em cada encarnação (considerando a alma como o conjunto formado pelo corpo astral e pelo corpo mental), o que não significa que receba um novo espírito (a centelha eterna ou mônada ou Atmã ), que é infindável e não tem nascimento nem fim.
Durante o ciclo de encarnações, o veículo do espírito é o corpo causal, onde são armazenadas as memórias-sínteses de toda sua experiência evolutiva. O corpo causal é o único corpo permanente durante todo o ciclo de encarnações. É nele que estão armazenadas as memórias de todas as vidas passadas. O corpo causal está em um nível vibracional muito elevado, sendo difícil sua conexão direta com o cérebro físico, neste estágio de nossa evolução.
Como em cada encarnação temos um novo cérebro físico, um novo corpo astral e um novo corpo mental, as memórias de vidas passadas estão em um nível muito distante e elevado e somente são acessíveis quando a pessoa está em um grau de evolução tão alto que todos os corpos estão integrados.
O segundo motivo está ligado à necessidade de esquecer incidentes passados, para poder recomeçar vida sem as repercussões de velhos erros e traumas.
As conseqüências dos fatos passados permanecem atuando em nossa vida presente, mas a lembrança dos fatos desaparece. Se essa lembrança permanecesse, as pessoas ficariam paralisadas pela culpa de erros passados e pelo medo das conseqüências futuras. Evitariam contatos e relacionamentos corretivos, porque saberiam das origens desses relacionamentos e das conseqüências desagradáveis que poderiam advir. Passariam a vida em situação de medo e de angústia, esperando, em todos os momentos, que os efeitos das causas passadas desabassem sobre elas.
É fato notável que as pessoas que normalmente se lembram de vidas passadas são seres que já adiantaram em sua evolução. Seu carma está tênue e rarefeito, e o peso das culpas não mais lhe oprime a alma.
Além disso, já estão inseridos no terceiro motivo citado. Já perceberam que, conforme disse Shankara, o Atmã é único ser reencarnante. Aquilo que foi feito nas vidas passadas foi praticado por uma personalidade já extinta, embora as causas e seus conseqüentes efeitos ainda permaneçam ativos. Sabem que a personalidade humana (o conjunto de corpos densos e sutis) desaparece no intervalo das encarnações. As causas armazenadas no corpo causal transferem os efeitos para a personalidade seguinte, que nada tem a ver com a anterior, embora o substrato de vida e de consciência que anima ambas as personalidades seja o mesmo e eterno princípio do Eu interior ( Atmã ).
Esse é um conceito extremamente sutil e difícil de ser assimilado, mas é uma realidade metafísica inerente à natureza humana.
É por essa razão que muitos gigantes espirituais como Krishnamurti, Ramana Maharshi e o próprio Shankara, expressam-se através de paradoxos sobre este assunto, negando a reencarnação no plano da realidade essencial e subjetiva, embora a afirmem como inquestionável no plano da realidade objetiva, tal como expresso pela frase de Krishnamurti ao ser questionado sobre o tema. Ele afirmou que “a reencarnação é um fato, mas não é uma verdade”.