O CONCEITO DE CARMA
NO TEXTO BÍBLICO

Muitas pessoas formadas na tradição judaico-cristã costumam refutar a noção de carma, alegando que essa é uma idéia pagã e oriental, estranha aos ensinamentos bíblicos.

No que tange aos grandes princípios universais, não pode haver uma “verdade ocidental” e uma “verdade oriental”. A verdade é única, embora possa ter uma expressão didática diferente nas várias tradições e culturas, para se adequar ao temperamento e à mentalidade dos diversos povos e de diferentes épocas.

Devido ao conceito antropomórfico da Divindade judaico-cristã, que premia e castiga de acordo com a natureza dos atos, o carma sempre pareceu para os ocidentais uma espécie de castigo pelos pecados dos homens, o que está longe do verdadeiro conceito original da palavra.

Na visão oriental, o carma constitui a ação e sua a conseqüência inevitável.

A melhor maneira de estudarmos esses elevados conceitos é exemplificando-os através de exemplos simples do cotidiano.

Imaginemos uma cozinheira distraída, que apóia a mão na chapa super-aquecida do fogão e sofre uma dolorosa queimadura.

Ninguém castigou e ninguém foi castigado. Ocorreu um ato seguido de sua conseqüência inevitável. Nesse caso, a conseqüência foi imediata.

Mas vamos supor o caso de um viajante sedento que chega a um oásis e bebe a água do poço contaminada por germes letais.

O homem sedento fica imediatamente feliz por saciar a sede, mas ignora que os germes se reproduzem em suas entranhas, preparando a doença terrível que advirá em poucos dias.

Mais uma vez, ninguém castigou e ninguém foi castigado. O que ocorreu foi a conseqüência natural dos atos, nesse caso um efeito não imediato.

Assim, todos os sofrimentos do presente são a conseqüência amadurecida da semeadura feita no passado.

Mas onde apareceria essa noção de carma no texto bíblico? Aparece em muitas passagens, mas citaremos apenas aquelas mais evidentes e ilustrativas.

A primeira delas ocorre no Horto das Oliveiras, logo após o beijo de Judas Iscariotes delatar Jesus à guarda do templo. Pedro tomou a espada e cortou a orelha do servo do sumo-sacerdote. Imediatamente Jesus repôs a orelha do ferido e o curou, advertindo: “Pedro, guarda sua espada, pois aquele que mata pela espada, pela espada perecerá”.

A outra passagem é ainda mais instigante. Os apóstolos, ao se defrontarem com um cego de nascença, indagam a Jesus: “Quem pecou para que nascesse cego: ele ou seus pais?” Jesus respondeu: “Nem ele nem seus pais pecaram. Ele nasceu assim para que os poderes de Deus nele se manifestassem”.

Examinando a pergunta, nota-se que nela está inserida de forma implícita o postulado do carma e da reencarnação. Como o homem poderia pecar para nascer cego se não tivesse uma outra vida antes de seu nascimento? E também a pergunta visa estabelecer um nexo causal entre a cegueira e ações passadas daquele homem, o que é exatamente o que está contido na noção de carma.

Examinando a resposta, constata-se que Jesus não negou nenhum dos dois postulados. Apenas afirmou que aquele homem era um “servidor voluntário”. Ele tinha se investido de “sofrimento crédito” e não de “sofrimento débito”. Ao assumir uma deficiência física para prestar um serviço de revelação do poder divino manifestado em Jesus, o homem adquiria muitos méritos (carma positivo) e, ao mesmo tempo, eliminava muitas camadas de “carma negativo”, visto que uma ação positiva (meritória) anula muitas ações negativas.

Há ainda diversas outras passagens no texto, como: “Com a mesma medida que julgardes, sereis julgados”. E “nada disso ocorrerá até que tudo seja pago até o último centil”.

Mesmo sendo um ser iluminado, Jesus vivia e ensinava dentro da tradição judaica. Ele falava aramaico e não sânscrito. Tinha raízes na tradição profética e não na tradição dos brâmanes. Dessa forma só poderia se expressar nos termos e metáforas daquela tradição, que continha dentro de sua didática própria, de forma atualizada para aquele povo e para aquela época, as mesmas verdades eternas da religião-sabedoria de todas as eras.

O carma é um conceito vital para a correta compreensão das leis do universo e não poderia estar ausente nos ensinamentos de Jesus, embora esteja expresso numa linguagem e num estilo didático diferente do ensino védico, onde é expresso de forma mais direta e explícita.

Ainda há muitas nuances de interpretação na lei cármica não reveladas e não compreendidas. A lei cármica tem uma certa similaridade com a lei física da ação e reação, mas essa semelhança fica apenas na superfície. O carma é uma função integral que estabelece a reação da totalidade da vida à forma que nós afetamos essa totalidade.

Trata-se de uma lei extremamente complexa em seus desdobramentos e ramificações e em nossa atual etapa de evolução, tem de ser simplificada para poder ser parcialmente compreendida.