É POSSÍVEL SOFRER
A DOR DE UM DIA DE CADA VEZ?

A questão do sofrimento é um fato permanente na existência humana.

Por que sofremos tanto?

A princípio pode-se racionalizar a existência da dor através do carma, do desejo, da fatalidade etc. Todas essas racionalizações são, porém, insatisfatórias e parciais.

Na verdade, sofremos, porque nossa vida transcorre em um organismo biológico frágil, em relações sociais frágeis, em economias frágeis e em sistemas ecológicos frágeis. Com toda essa fragilidade, é normal e previsível que venham a ocorrer acidentes, doenças, perdas, rupturas, revoluções, catástrofes e coisas afins.

Tudo isso é causa de sofrimento porque estamos apegados a toda essa fragilidade.

Ancoramos nossos corações e mentes em coisas frágeis, passageiras e fugazes como fumaça, e depois, sofremos quando perdemos o vínculo com o objeto desses apegos.

Há um antigo sutra do budismo primitivo que diz: “O mundo é uma ponte. Atravesse-a, mas não construa uma casa sobre ela”.

Esse é um alerta contra os apegos e o sofrimento que será decorrente da perda inevitável do objeto dos apegos.

O contato com o objeto de desejo traz o medo. Se não conseguimos o objeto do desejo, sofremos com o medo de não conseguir obtê-lo. Se conseguimos, sofremos com o medo de perdê-lo.

Todos os dias trazem sua própria cota de satisfação e de sofrimento. Todas as fases da vida, da primeira infância à velhice, têm o seu próprio tipo de satisfação e de sofrimento.

A vida, de modo geral, transcorre de forma monótona e insípida, com raros momentos de extrema satisfação e outros momentos também raros de sofrimento intenso. O problema é que os momentos de sofrimento intenso se fixam na memória como traumas e deixam a impressão de que a vida toda transcorreu em intenso estado de sofrimento.

Grande parte do sofrimento humano é apenas mental: remoer as memórias das experiências de ontem e sofrer, por antecipação, as dores do amanhã.

Seria possível sofrer apenas um dia de cada vez? Não seria isso o melhor e o mais razoável ?

Qual a necessidade de adicionar a dor de hoje à dor de ontem, se não se pode viver o ontem e a dor de ontem somente existe na memória?

Os grandes instrutores sempre ensinaram a viver o presente. O próprio Jesus ensinou em seu Evangelho que “a cada dia basta sua própria dor”.

Sem dúvida, deve-se estar atento ao presente ativo e nunca somar a dor do presente à dor do passado, porque só se pode sentir a dor do presente.

Alguém que sofreu por dez anos consecutivos, não sente de uma vez toda a dor sentida nesses dez anos. Só pode sentir a dor do último instante de sofrimento, porque, nesse último instante, a dor sentida nos dez anos anteriores estará extinta e enterrada nas areias do tempo.

Embora esse raciocínio seja logicamente verdadeiro e inquestionável, ele tem uma pequena fresta, por onde entra o germe ardiloso da contestação. Em outras palavras, aquele raciocínio é verdadeiro, mas não é a verdade integral.

Embora só se possa sofrer o último instante de dez anos de contínuo sofrimento, o longo período de dor esgotou as reservas de energia do sofredor.

Quando a energia está baixa, a resistência diminui, e, estão, surge a impressão de que o sofrimento cresce. Quando nós diminuímos, o sofrimento cresce.

Mesmo só se podendo sofrer um instante de cada vez, a reserva de força é reduzida por um longo período de sofrimento e com isso se reduz a capacidade de resistir e de superar.

Como tudo na existência, o sofrimento é transitório também, e, se o período de sofrimento foi longo, havia a necessidade de gravar fundo na alma as lições daquela experiência?

Como aprender essas lições se raramente se conhecem a causa e o propósito do sofrimento? Essa é uma questão muito complexa e delicada. A alquimia da alma não se processa por racionalizações e “explicações”. A alma vai-se forjando na síntese alternada de experiências, com essas experiências formando camadas e padrões de significados internos, independentemente da participação da personalidade.

A alquimia da alma é um processo sutil, que nem sempre pode ser entendido pelo eu pessoal. As experiências se alternam e se equilibram em busca de um padrão de síntese, que anule resíduos egóicos de experiências passadas e abra novas janelas de percepção.

É por isso que a sabedoria popular, em sua ingênua e tosca, porém sábia percepção da dinâmica da vida, afirma que “Deus escreve certo por linhas tortas”.