Todos os seres vivem mergulhados no “aquário”
do tempo, sem perceber a “textura” do tempo, da mesma forma que
os peixes não são conscientes da água onde vivem.
Só temos uma vaga percepção da “textura”
do tempo quando este se contrai durante os períodos de sofrimento ou
de tédio, e parece se arrastar penosamente, demorando a “passar”.
A compreensão do mistério do tempo é a chave para a compreensão
de um mistério ainda maior e mais complexo: a eternidade, talvez o
maior e mais sublime de todos os mistérios.
Ao contrário do que muitos imaginam, a eternidade não é
um tempo sem fim. É um estado de consciência que está
totalmente fora do tempo: uma condição em que o tempo deixa
de existir.
O tempo é como uma cortina erguida diante da eternidade, para ocultá-la
de nosso olhar atônito diante do infinito e do ilimitado.
Nossa mente finita e condicionada não pode perceber, nem entender o
eterno, o infinito e o incondicionado, por isso a própria mente produz
seus limites e condicionamentos – para poder se situar entre paredes
aparentemente e ilusoriamente sólidas, estáveis e seguras.
Tudo neste mundo nos limita, principalmente o tempo, que é o criador
de todos os limites. Somos cercados por todos os tipos de limites, entretanto
fomos feitos para o ilimitado, e nossa natureza essencial é ilimitada,
pertencendo à eternidade.
Na natureza, somente o ser humano tem consciência do tempo. Os vegetais
e animais vivem no momento presente e não trazem para seu agora as
memórias sombrias do passado, nem as ansiedades pelo futuro. Um cachorro
faminto fareja as latas de lixo em busca do alimento, mas não se lamenta
pela fome de ontem, nem se preocupa sobre como irá encontrar a refeição
de amanhã.
É provável que a revolta íntima do ser humano contra
os limites que o cercam seja conseqüência da convicção
implícita e profundamente íntima de que nossa natureza essencial
é ilimitada, apesar da dificuldade de transferir esse fato para o plano
existencial e objetivo, criando-se assim, um fosso de percepção
entre a essência e a existência.
Não devemos deixar crescer nossa vaidade e jactância com a afirmação
de que “nossa natureza essencial é ilimitada”. Quem está
escondido no âmago mais profundo de nossa alma não somos nós.
É o Uno, no qual todos os seres têm as suas raízes. Esta
é nossa verdadeira natureza, que espera silenciosa e pacientemente
ser descoberta.
Esse é o grande paradoxo da condição humana. No evangelho
apócrifo de Tomé, há um versículo em que Jesus
expressa sua admiração diante de tal fato contraditório:
“Como é que tamanha glória pode fazer sua morada em tamanha
miséria?”
A grande teósofa Helena Blavatzky, autora da obra A Doutrina Secreta,
define o tempo como uma ilusão causada pela sucessão dos estados
de consciência.
Essa sentença significa que a consciência em si mesma é
um estado permanente (imerso na eternidade), mas esta consciência eterna,
estável e ininterrupta só pode se manifestar através
de uma sucessão de estados variados e mutáveis, ainda que todas
essas mudanças ocorram em sobreposição a um fundo de
permanência, da mesma forma que as nuvens sempre se modificam e se transformam
contra o fundo sempre estável e permanente do céu.
A não ser no estado de “Nirvana’ (nir = não e vana
= movimento), os seres vivem imersos em um processo temporal de relações
e de transformações. Por isso nunca podemos vislumbrar um ser
em si mesmo, independentemente de um contexto relacional de lutas, mudanças
e transformações.
Sob o ponto de vista subjetivo, são essas mudanças constantes
dos estados de consciência que formam o tempo.
Sob o ponto de vista objetivo, o tempo pode ser entendido como a medida da
duração dos fenômenos, visto que todo fenômeno tem
de ter início, meio e fim. Todo fenômeno é um processo
cujo transcurso pode ser medido, criando uma noção de tempo
como a própria duração dos eventos, como a medida cronológica
da duração e também como a sensação psicológica
de duração, produzindo um efeito na mente do observador.
Há uma grande confusão de conceitos sobre o fato de o universo
estar ou não estar inserido no tempo.
Entendido como um fenômeno, obviamente o universo está no tempo,
visto que teve início e terá fim. Todavia, o processo de criação
e de destruição cíclica e seqüencial de universos
não está no tempo, visto que não teve início,
nem terá fim.
Este universo atual teve início e terá fim, mas Este universo
atual é apenas um entre infinitos universos que existiram no passado
e de infinitos universos que existirão no futuro, intercalados com
períodos de repouso cósmico (o Pralaya da tradição
hinduísta, e o Ain Soph da tradição cabalista)
Sendo assim, podemos concluir que este universo atual está no tempo,
mas a manifestação universal não está no tempo.
Pertence à eternidade.
A manifestação universal não está no tempo, porque
não é um fenômeno. É um efeito decorrente de um
metabolismo intrínseco da consciência universal, que a leva a
exteriorizar-se e interiorizar-se cíclica e alternadamente, emanando
e reabsorvendo os universos.
O Universo é o espelho exteriorizado de uma consciência cósmica,
da mesma forma que os fatos que acontecem em nossa existência são
o espelho exteriorizado de nossa consciência integral e, particularmente,
dos processos de mudança que ela vai atravessando ao longo do tempo
e formando o próprio tempo, em sentido psicológico.
Como não conhecemos nossa consciência integral, estranhamos os
movimentos e sinais que dela recebemos, projetados no mundo exterior, sem
conseguir identificá-los e associar essa sinalização
a nossos processos interiores. Somos completamente “analfabetos”
em termos de leitura de sinalização sincronística existencial.
Não sabemos ler a linguagem dos símbolos vivos do cotidiano,
que nos emitem sinais e mensagens a todo o instante.
Jung foi a primeira pessoa no Ocidente a estudar sistematicamente esses sinais,
atribuindo-lhes um significado psicológico, com a denominação
de “sincronicidades”, ou coincidências significativas. Somente
através do espelho das relações podemos nos conhecer
e tomar conhecimento dos nossos estados psicológicos.
Esses eventos do microcosmo hominal são um mero reflexo em escala reduzida
do macrocosmo universal.
Nas infinitas eras passadas e nas infinitas eras futuras, jamais deixou ou
deixarão de existir universos, porque o espelhamento exteriorizado
da consciência universal é algo inerente a essa consciência
e inseparável dela mesma.
Há uma antiga frase dos mistérios gnósticos que afirma:
“O universo veio a existir porque o olho que tudo vê necessita
de um espelho para poder ver-se a si mesmo”.
Como cada um de nós é um microcosmo inserido no macrocosmo,
deve haver uma estreita correspondência entre os grandes processos que
regem o universo e os processos menores que regem nossa vida.
Mesmo os fatos aparentemente insignificantes que ocorrem em nossa vida são
segmentos desse processo de mudanças de maior amplitude, onde tudo
está interligado com tudo. Não somos separados desse todo, e
nossas mudanças fazem parte desse processo de mudanças contínuas.
Foi dessa noção de integração e interconectividade
que surgiu o atual modelo holográfico para a interpretação
do universo e do cérebro humano. É a metáfora mais avançada
de compreensão do mundo que o homem jamais atingiu e está a
um passo do percebimento da quarta dimensão.
É nossa percepção distorcida e parcial desse amplo processo
de transformações, que nos leva a perceber que existe algo “errado”
em termos absolutos. É evidente que existe o mal, o sofrimento, a deformação
dos verdadeiros objetivos, mas tudo isso são fenômenos passageiros,
fugazes, em conseqüência de karmas passados que criam turbulências
no presente.
Esses eventos kármicos, conhecidos como a “ocorrência do
mal”, são ajustamentos circunstanciais causados por ações
não convergentes com o grande plano. Entretanto, o plano produz ações
de reequilíbrio, fazendo esses movimentos oscilarem sobre si mesmos,
repetindo-as ciclicamente, como um pêndulo que sofre várias oscilações
alternadas para um lado e para o outro, em movimentos cada vez menores, até
atingir o ponto neutro. Como não conhecemos a causa anterior dessas
oscilações, nem o seu estado de equilíbrio futuro, percebemos
esses movimentos momentâneos e circunstanciais como o “mal”
ou como uma perturbação na ordem do universo.
Esse desvio de percepção é conseqüência de
nossa visão míope, fragmentada e condicionada.
Embora seja de fato uma perturbação localizada e momentânea
da ordem, essa ordem contém uma harmonia tão complexa, ampla
e multifacetada, capaz de harmonizar todos esses movimentos conflitantes,
como uma sinfonia que consegue harmonizar dentro de sua trilha melódica
ruídos isoladamente agressivos e desagradáveis como som de pratos
e bumbos.
Quando percebidos sob essa ótica, os inimigos voltam a aparecer como
amigos, as batalhas se transformam em bailes festivos, e a morte, uma ligeira
mudança de cenário dentro da eternidade.