A SOLITÁRIA EXPERIÊNCIA DA MORTE

A morte é uma experiência de extrema solidão.

Para quem se aproxima dos portais da grande transição, não entra em conta se bilhões e bilhões de pessoas já atravessaram, no passado, esse limiar, se existem muitos outros, naquele exato momento, efetuando a travessia e se todos que aqui permanecem estarão, em breve, efetuando a mesma travessia.

Para quem se defronta com os portais da morte, a experiência é única, solitária e individual. Todos estamos sós diante desse portal. Para quem se vê diante das portas da morte, há uma estranha sensação de abandono, como se todos os outros estivessem estabilizados em uma vida segura e permanente, que durará para sempre, enquanto o infeliz recebe solitário a visita indesejada da morte.

Mesmo cientes de que a morte é a única certeza da vida, evitamos olhá-la de frente.

Comparecemos a dezenas de velórios e sepultamentos. Enviamos nosso último olhar de adeus ao falecido, como se ele fosse uma espécie de infeliz bafejado por alguma má sorte, que o levou para um triste destino.

É turva nossa compreensão da morte.

Todas as estórias da religião, com narrativas sobre o paraíso ou o castigo eterno, parecem fábulas infantis. E as narrativas dos “desencarnados” nas obras espíritas parecem ser racionalizações estéreis, que transformam o além em um prolongamento da vida física.

Tanto estes quanto aqueles fazem estéreis tentativas de exprimir o inexprimível.

As narrativas sobre céu e inferno são alegorias de estados psicológicos que sobrevêm após a morte, com intensificação da felicidade e do sofrimento, conforme o resultado das ações.

E as narrativas dos “desencarnados” são tentativas de transmitir alguma noção sobre o além, a partir de experiências conhecidas.

Todas as tentativas de explicar o que ocorre depois da morte esbarra na extrema dificuldade de transmitir experiências subjetivas em linguagem objetiva.

A morte é uma experiência profundamente individual e subjetiva. É um mergulho na interioridade do ser. As condições da vida após a morte dependem de muitos fatores, como a experiência prévia da alma, seu grau de desenvolvimento e seu estado de consciência.

Obviamente, existe também um fator objetivo na morte. Podemos conviver e compartilhar experiências com seres que estão na mesma faixa vibracional de nossa mente, ou com seres com quem estamos carmicamente vinculados.

Porém o grau de subjetividade é imenso, sendo esse o fator que dificulta todas as narrativas sobre os estados da vida no além.

A morte é uma transição difícil, até mesmo para as almas de elevado grau de desenvolvimento. Para viver neste denso mundo, criamos raízes e vínculos.

A morte corta todas as raízes, vínculos e apegos ligados ao mundo físico.

É como arrancar uma planta pela raiz. Todas as nossas raízes são cortadas, e somos lançados em um mundo vasto, fluido, difuso e sem fronteiras. Esse é o lado duro e difícil da morte, além do sofrimento físico e psicológico provocado pelo fato causador do desenlace.

Mas a morte tem também seu lado suave e consolador. Ela nos livra desse cristal do tempo que é o corpo. Se, por um lado, o corpo é fonte dos prazeres do sexo e da boa mesa, por outro lado, é fonte das doenças, dores, deterioração, envelhecimento e embotamento da consciência.

Por melhor que cuidemos do corpo, cedo ou tarde, ele se desgastará e perecerá. É fato certo e inevitável.

O corpo é o cristal do tempo, onde estão registrados todos os nossos acertos e erros de eras passadas. Quando o corpo se vai, um grande bloco do passado se desfaz e ficamos livres de uma prisão. É claro que nossas ações nesta última existência criarão novos padrões, mas uma grande parte de nosso passado se escoa com o desaparecimento do corpo.

Muitos erros e sofrimentos são sepultados na areia do tempo.

A morte também nos livra da prisão de nosso mapa natal: aquele desenho das estrelas no céu, que nada mais era do que o desenho do estágio de nossa jornada: o encontro do passado com o presente, traçando nosso destino naquela encarnação.

Com a morte, aquele desenho é desfeito. Um maior grau de liberdade se descortina para cada um de nós. Afrouxam-se as correntes da roda do Sansara.

Esse é o lado libertador da morte, que marca o final de um ciclo de limitações e sofrimentos.

Depois que a morte “termina seu trabalho” e nos lança no vasto além, há uma sensação dúbia: por um lado a tristeza pelos vínculos interrompidos. Por outro, um alívio na alma, liberta de suas amarras e de seu sofrimento, necessitando agora se adaptar a uma nova condição de vida. Quanto mais fracos forem os apegos à vida física, mais fácil e menos penosa será essa adaptação.

O além é um mundo vasto e riquíssimo em possibilidades de relacionamentos, serviço e aprendizado, mas é um mundo que se abre aos poucos, à medida que nosso foco de consciência vai-se ajustando a uma nova condição de vida.

Pouco a pouco, as lembranças da vida física vão-se esvaindo de nossa consciência, à medida que vamos adentrando faixas vibracionais mais elevadas e mais distantes do mundo físico.

Vista de longe, a vida física parece algo remoto e inverossímil. O tempo soterra as lembranças, e gradativamente o passado vai desaparecendo em brumas.

Ainda se pode lembrar da vida física extinta, mas somente os laços de amor permanecem e se fortalecem. Tudo mais se apaga, e há uma desagradável sensação quando se recorda dos fatos extintos da vida no corpo denso.

Tudo parece irreal e distante, como um sonho mau que terminou. Como se fossem sonhos desagradáveis, numa noite mal dormida, numa pobre pensão de beira de estrada.