O tema da queda e reintegração do homem não é exclusivo da tradição judaico-cristã, estando contido nas diferentes correntes religiosas da humanidade, com diferentes enredos simbólicos, porém com o mesmo significado essencial.
Na tradição grega, a queda aconteceu após Prometeu roubar o fogo dos deuses para dar aos homens, o que desencadeou a ira e a vingança de Zeus.
Na tradição egípcia, a queda ocorreu após Seth assassinar Osíris e assumir o trono do Egito, iniciando um reinado de crueldade e corrupção, até que Osíris fosse ressuscitado por Ísis e Seth, vencido em uma batalha por Hórus, que restaura a harmonia de Maat.
Hórus (representado pelo falcão solar ou pelo disco solar alado) simboliza a consciência superior e sua capacidade de reintegração com a fonte da luz ( Ra ).
Todos esses relatos míticos e alegóricos têm o mesmo significado: a queda do homem de seu centro essencial e o afastamento da conexão com a fonte divina do Ser.
Com a queda, o homem se afasta de sua essencialidade e passa a ser governado por seu ego periférico e separativo. Perde a centralidade original e cria um falso centro (egocentrismo), que passa a ser uma identidade falsa, enquanto sua verdadeira identidade espera pacientemente ser descoberta (reintegrada).
Todas as tradições de reintegração, salvação, iluminação, metanóia e iniciação se referem à recuperação da centralidade original do homem, o despertamento do Cristo Interno, ou o retorno do homem ao seu centro essencial de ser, do qual se afastou ao cair nas periferias de seu ego pessoal.
A palavra “arrependimento”, que aparece várias vezes no texto bíblico, é uma precária tradução do vocábulo grego metanoien que literalmente significa meta = além, e noein = noos = mente. Significa transmentalização , ou uma mudança radical na direção da mente, visando encontrar o verdadeiro eixo essencial de ser.
Esse conceito colocado prematuramente para as massas revestiu-se de uma idéia de conversão religiosa e arrependimento dos pecados, acarretendo uma enorme perda de significado nessa transmissão.
A causa dessa distorção é que a maioria das pessoas ainda está vivendo no estágio em que o egoísmo é a tônica normal de suas vidas. Ainda não experimentaram todos os desejos e vivências relacionadas ao egoísmo, de modo que até mesmo a noção da transformação religiosa se reveste de algum grau de egoísmo e de separatismo.
As pessoas têm um sentimento íntimo de que necessitam de uma reforma espiritual e de uma mudança de direção em suas vidas, mas esse movimento é contaminado pelo mesmo ego que tem de superar e que é a causa do “pecado”. Todo “pecado” tem suas raízes na própria existência em separado, que gera um ego insaciável, que jamais pode ser preenchido em suas ânsias de autoglorificação.
È o que Jesus chama de construir uma casa sobre a areia,
Sentem que a salvação tem de ser alcançada, mas dentro de uma perspectiva egocêntrica, que foi justamente o que gerou a queda e a separação. Essa atitude pode ser traduzida da seguinte forma: “Minha salvação só pode ser obtida pela minha religião e pela minha igreja, para que minha alma possa ter direito ao meu paraíso, onde estarei sentado ao lado do meu Deus, que proporcionará minha felicidade. Enquanto isso não acontece, vou levando minha vida na Terra, certo de que o meu Deus garantirá a minha segurança e a minha prosperidade”.
E pouco se importam que os outros seres excluídos desse paraíso de felicidade se queimem eternamente nas chamas do inferno - afinal quem mandou não aceitarem a minha religião e não acreditarem no meu Deus ?
Tudo continua girando em torno do Eu e do meu, que é a raiz de todos os problemas e que foi a causa da queda.
Essa tendência não deve ser condenada em termos absolutos. Faz parte da natureza humana e do processo de crescimento. Ela deve ser compreendida e olhada de frente, para que sua superação ocorra de forma mais rápida, menos sofrida, sem tantas desilusões.
Pelo menos, a pessoa que alimenta esse tipo de sentimento religioso está começando a erguer os olhos para a ordem divina do universo e ativando um desejo de voltar à fonte, embora esse desejo esteja ainda fortemente impregnado de egocentrismo.
O foco dos desejos é alterado e transferido para uma esfera mais espiritual. Tem início um desejo de estabilidade e de segurança na paz eterna do paraíso, embora este desejo ainda seja uma forma sutilizada de ambição, que transferiu o alvo da ambição para uma esfera espiritual.
O egoísta terrestre se torna um egoísta celeste, antes de se tornar um altruísta e retirar o foco de seu próprio ego.
A verdadeira senda começa quando o homem começa a sentir o peso de seu próprio ego e sentir-se incomodado em viver arrastando esse traste em sua existência. Nesse momento, começa a deslocar o foco de sua consciência de seu ego e a colocá-lo a serviço de outros seres, dentro da lei do sacrifício (sacro ofício). Começa também a buscar a verdade por si mesma e não para vangloriar-se, ou usar a verdade em benefício próprio. Começa adorar a Deus por Ele mesmo e não porque Ele traz vantagens, segurança e proteção.
É muito conhecida a prece de Santa Tereza de Ávila: “ Meu Deus, se te adoro por desejar o paraíso, não permita que eu entre nele. E se te adoro por temer o inferno, lança-me em sua chamas”. Essa prece demonstra o esforço de uma alma para livrar-se da contaminação do ego em seus sentimentos religiosos.
Para se alcançar a verdadeira redenção e reintegração, o ego tem de morrer. Não há meio termo. (“Aquele que quiser salvar sua vida irá perdê-la. Quem morrer por mim terá a vida eterna”.)
Todavia o universo é generoso para com todas as almas em suas experiências nos mundos da forma. As almas imaturas sempre terão novas oportunidades de se saturarem de seus egos mesquinhos e insignificantes, até alcançarem a reintegração em um centro de consciência que não pertence a elas, mas a algo muito maior que vive e se manifesta através delas.