QUEM SOU EU?

Um dos maiores mestres espirituais que viveram na Terra, no século XX, Shri Ramana Maharshi usava como único método de auto-investigação a pergunta “Quem sou eu?”.

Essa pergunta associada a alguns trabalhos práticos de meditação e à poderosa indução exercida pela alta voltagem espiritual do mestre eram os recursos usados no ashram de Maharshi, situado aos pés do Monte Arunáshala, na Índia.

No frontal do templo de Apolo, em Delphos, na antiga Grécia, também estava escrito Gnothi Seauton (conhece-te a ti mesmo). Dizem os historiadores que, na parte interna do frontal, havia o complemento da frase: “E conhecerás o universo e os deuses”.

A moderna psicologia de Freud e Jung demonstrou que nosso ego consciente é apenas a ponta de um enorme iceberg, flutuando em cima de um enorme oceano de inconsciente, onde estão enraizadas as memórias dos fatos passados, os registros da experiência individual e coletiva de milênios sem conta.

Sendo assim, como pode alguém se conhecer, se as raízes de seu eu estão inseridas em profundezas tão insondáveis?

Obviamente esse conhecimento não virá através de livros, de informações vindas de outras pessoas e nem da esfera do pensamento. Só poderá vir através de um profundo trabalho de auto-investigação e de meditação.

Não há dúvida de que a auto-investigação é o começo da meditação.

A Jnana Yoga recomenda iniciar a auto-investigação através da via negativa, ou seja, entendendo primeiramente o que não somos . Esse método é conhecido como neti , neti (isto não é, isto não é).

Primeiramente, temos de entender que não somos o corpo físico, porque esse já sofreu muitas mudanças, e já tivemos muitos corpos ao longo de nossa peregrinação no tempo. O corpo morre. E aquilo que morre não pode ser o eu imortal.

Em seguida, precisamos perceber que não somos o conjunto da mente (pensamento e emoção), visto que esses são mutáveis e efêmeros. Aquilo que é efêmero não pode ser o eu, porque posso observar todos os meus pensamentos. Aquilo que pode ser observado não pode ser o observador.

Podemos dizer então que somos Deus? Certamente que não. O mais provável é que sejamos um ponto focal da manifestação divina, operando através de um complexo de corpos existenciais, cada um deles com uma consciência própria semi-independente. Nas etapas primárias de nossa evolução, esse foco de consciência divina fica abafado pela consciência transitória dos corpos existenciais, que são mais vigorosos nesses densos plenos de manifestação.

O foco divino que existe em nós, o nosso ser, apresenta-se, a princípio, como a voz débil da consciência, que, pouco a pouco vai-se fazendo ouvir e adquirindo domínio sobre a natureza animalizada do ente humano, que vai cedendo ao domínio do eu verdadeiro, assim como as feras do circo se submetem ao controle do domador.

Como nosso eu verdadeiro é um “ponto focal do Todo”, não pode haver salvação ou iluminação no plano puramente pessoal. A salvação ou iluminação é a revelação de nossa autonatureza através de um processo de “totalização”, ou absorção do ego pelo todo.

Somos todos membros integrados de uma totalidade holística. É isso que significa o mito do pecado original: temos a herança dos erros de nosso próprio passado multimilenar e do passado multimilenar de toda a humanidade à qual estamos conectados através do inconsciente coletivo.

Cada um de nós só pode trabalhar pela sua redenção dentro do campo da totalidade, reintegrando a humanidade em si e reintegrando-se à humanidade, que precisa ser redimida em seu todo. Disso se conclui que a chamada salvação ou iluminação é um processo de integração.

Ainda que um homem possa ser individualmente integrado, ele sabe que uma parte de si mesmo ficou à retaguarda e que ele tem de voltar para resgatá-la. Isso explica o mito de Buda, que após ter atingido a iluminação chegou às portas do Nirvana e foi convidado a entrar por um anjo. Antes, porém, de transpor a porta, escutou o choro de uma criança na Terra e recusou-se a entrar, afirmando ao anjo: “Serei o último a entrar. Só irei transpor esta porta, quando o último ser humano passar por ela”. É belíssimo esse sutra, que retrata com nuances poéticas os ideais do budismo mahayana: Buda foi o primeiro a chegar e será o último a entrar.

O voto do Bodhisatva (candidato à iluminação) no budismo mahayana é traduzido da seguinte forma: “Por mais alta que seja a perfeição da consciência, possa eu realizá-la em benefício de todos os seres viventes”.

Como disse São Gregório de Nissa: “Todos os homens, do primeiro ao último, não passam de uma imagem daquele que é”.

Cristo é a imagem divina manifestada em um ser humano. Da mesma forma que Deus está em Cristo, Cristo está no coração de todos, embora nem sempre em estado desperto: “Lázaro não está morto, mas dorme”.

A ressurreição de Lázaro (independente de ter sido ou não um fato histórico real) representa, no plano simbólico, a capacidade do Cristo de revelar a nossa autonatureza imortal, capaz de vencer a morte. “Cristo em vós é esperança de glória”, afirmou Paulo de Tarso.

Existe no ser real que somos um poder de totalização e integração, que participa da autonatureza de todos os outros seres (“Tive fome e me destes de comer. Tive sede e me deste de beber.... O bem que fizerdes a cada um de vossos irmãos, a mim o fizestes”).

Não basta falar sobre o ser real, nem ler sobre ele, nem acreditar em sua existência.

É necessário realizá-lo e entregar-lhe o comando de nossa vida.