Uma das características mais marcantes da moderna civilização é a “dessacralização (perda da noção do sagrado) do espaço físico” em que habitamos, o que é um reflexo da dessacralização do próprio ser humano, devido ao afastamento do centro essencial de ser .
Todas as cidades antigas eram edificadas em torno de um centro sagrado natural ou artificial, marcado por um monte, um lago, um templo, um dólmen, um obelisco ou outro tipo de monumento.
Em torno deste centro sagrado, eram edificadas as comunidades, que gravitavam em torno desse ponto que era ritualmente considerado como a origem do mundo, o ponto onde o mundo emergiu do oceano do caos primordial.
Pouco importava que várias comunidades reivindicassem a honra de ser o ponto original da criação. Esse era um centro ritualizado, que representava, no plano simbólico, a sacralidade e a força do impulso original da criação.
Nas palavras de Helena Blavatsky, “o universo é uma esfera cujo centro está em toda parte, e a circunferência em lugar nenhum”. Isso significa que todos os lugares são “centros sagrados” do universo, desde que sejam relembrados e trazidos à memória ativa.
Nesse sentido, a sacralização não está ligada ao lugar em si, mas à recordação das origens e do esforço para reviver a força, a intensidade, a beleza e a inesgotável energia presente no ato da criação, impregnando nosso cotidiano com essa fonte de energia infinita, no momento em que ela se manifestava com sua força máxima.
Obviamente, eram escolhidos os lugares mais energéticos, mais belos e mais significativos para representar o centro sagrado. Os antigos druidas chegavam a fazer medições de fluxos de energia cósmica e telúrica para detectar o lugar onde ocorria o encontro mágico entre a terra e o céu.
Além do lugar sagrado, havia o ser sagrado que presidia a vida da comunidade, personificando a hierarquia divina que governa o universo. Seja na figura do imperador amarelo da China ou do faraó egípcio, passando pelo patriarca hebreu, pelos hierofantes gregos, pelos xamãs e pajés dos povos primitivos, o governante ou o sumo-sacerdote personificava a presença do ser superior que rege nossas vidas, embora este fosse apenas um papel ritual exercido pelo governante, nem sempre dentro dos princípios éticos e morais exigidos para o exercício de tão elevado cargo.
Mesmo com as inevitáveis imperfeições, toda a estrutura reinante visava trazer a presença do sagrado à nossa lembrança e não permitir jamais que fosse esquecida.
Esses povos tinham plena consciência de que, sem esse lastro do sagrado estabelecendo um vínculo entre o céu e a Terra, o resultado inevitável seria o caos e a desagregação.
Algo semelhante ocorre com o ser humano, considerado individualmente. Sem um lastro em sua identidade essencial (seu Centro Sagrado), fica sujeito às forças periféricas de seu ego destrutivo e separatista, estando condenado a uma inevitável dissociação.
Na parte periférica da sociedade e da psique humana, tudo é impermanente, caótico e conflitivo. Ali predominam as forças do egoísmo humano e o fluxo implacável do tempo.
No Centro Sagrado, onde se ancora o ser essencial, o tempo não pode atuar. Ali não há tempo, porque o ser essencial está imerso na eternidade. Somente suas expressões parciais e fenomênicas exteriores estão sujeitas ao devir, ao tempo que tudo consome.
O que é não pode ser destruído, nem consumido pelo tempo, porque o tempo não pode tocá-lo. O tempo pode fluir, na periferia do viver... Mas nunca irá atingir a fonte interna do Ser.
Não obstante, o tempo e o devir também são necessários e são partes fundamentais da criação. Não são “inimigos que devem ser destruídos” e sim “servos” que necessitam ser reintegrados. O teólogo e filósofo brasileiro Huberto Rohden dizia que “O ego é um péssimo senhor, mas é um ótimo servidor”.
Portanto a restauração do centro sagrado é, antes de tudo, um trabalho de auto-recordação.
Mesmo se afastando dele, nessa difícil travessia do Kali Yuga, ele nunca deixou de ser nossa verdadeira identidade, que espera paciente e silenciosamente ser redescoberta. A partir dessa redescoberta iniciamos (tornamo-nos iniciados) uma nova vida regida não mais pelos instintos primários e egoístas do ego pessoal, mas pelas intuições e movimentos de consciência do Eu Divino, que reunifica todas as coisas em sua plenitude.