A SIMPLICIDADE E A COMPLEXIDADE DA NATUREZA HUMANA

Como tudo no universo, a natureza humana é simples em sua essência e complexa em sua existência. Simples em sua unidade básica subjetiva. Complexa em sua diversidade de estrutura e de manifestação objetiva.

Para efeito de ilustração, vejamos o caso do átomo. Até o final do século XIX, os cientistas supunham que um átomo era um diminuto tijolinho de matéria sólida que não poderia mais ser dividido em partes componentes. Durante o século XX, foram feitas tantas descobertas a respeito do átomo que, atualmente, ele é visto como um campo tensorial de energia em perpétua interação com o ambiente, com partículas virtuais que podem ser criadas e dissolvidas a cada instante. Ou seja, o átomo chegou a um nível de complexidade que foge à capacidade de entendimento dos cientistas. Muitos físicos se aproximaram do caminho místico devido às surpresas trazidas pela física quântica.

Se o átomo, que é o bloco de construção básica da matéria, tem esse grau de complexidade, o que não dizer dos sistemas vitais que habitam o universo em sua intrincada teia de relações?

Todos os sistemas filosóficos e políticos têm como seu ponto básico de divergência um diferente pressuposto sobre a natureza humana, nem sempre explícito de forma clara e objetiva.

É exatamente essa complexidade da natureza humana que torna possíveis tantas divergências e sistemas diferenciados.

A psicologia é uma ciência nascente e ainda está longe de uma compreensão mais profunda e completa desse tema. Ainda não se completaram 100 anos que Freud descobriu que grandes partes das ações humanas são motivadas por pulsões e motivações inconscientes.

Mesmo reconhecendo a genialidade e o pioneirismo da descoberta de Freud , é preciso reconhecer, ao mesmo tempo, que sua interpretação sobre o funcionamento do inconsciente foi embrionária, simplista, imprecisa e limitada à noção de libido, ego, id e super ego.

Essas considerações não devem ser entendidas como uma crítica ao genial trabalho de Freud: um pioneiro não pode esgotar um assunto. Ele pode apenas introduzir o assunto.

O mesmo se pode dizer de Charles Darwin, com sua brilhante teoria da evolução.

Voltando ao tema da natureza humana, pode-se dizer que uma das grandes contribuições para seu esclarecimento vem da sabedoria védica indiana e de sua versão ocidentalizada, a teosofia. Essas escolas apresentam o ser humano como uma centelha de divindade (mônada ou atmã) imersa em um sistema de corpos existenciais (um corpo denso e vários corpos sutis), que se renovam em um longo ciclo de reencarnações, cujo término somente ocorre quando todo o carma tiver sido esgotado e nada mais houver para ser aprendido nos mundos densos. A partir daí, tem início um novo ciclo de evolução em escala cósmica.

Cada um dos corpos existenciais do ser humano corresponde a um nível dimensional do universo, sendo o homem um microcosmo em formação, em direta correspondência analógica com o macrocosmo.

Deste sistema de corpos existenciais, somente um é permanente: o corpo causal, que armazena as causas acumuladas e as sínteses da experiência da alma, em sua jornada.

A cada encarnação, o ser humano recebe um renovado conjunto de corpos correspondentes ao nível físico denso, bioenergético, astral e mental. Com a morte, o ser humano perde o corpo físico e o bioenergético. O corpo astral e o mental se dissolvem após a vida nos mundos sutis, no intervalo das encarnações.

Esses conceitos apresentados acima constituem uma visão estrutural da natureza humana.

A noção de corpo e alma apresentada pela teologia , ou a classificação de corpo, alma e espírito, e uma noção simplificadora, que tem o mérito de tornar o assunto mais acessível e evitar excessivas complicações.

A par dessa visão estrutural sobre a natureza humana, existe um outro conceito de natureza funcional, que focaliza não as partes constituintes da natureza humana e sim as funções inerentes ao funcionamento de sua psique.

Nessa visão, o ser humano é constituído por endótipo, genótipo, fenótipo e biótipo.

O endótipo é a dimensão ontológica de tudo que é característica intrínseca e espiritual daquele ser. Seria o conjunto de seus atributos essenciais de origem e da experiência que aquela alma acumulou ao longo de suas vidas pregressas. É o endótipo que faz com que gêmeos univitelinos, portadores dos mesmos genótipos, fenótipos e biótipos, apresentem traços de caráter tão diferenciados.

O genótipo é a memória genética em que estão gravadas e transmitidas as características dos ancestrais. Todas as pessoas são portadoras de uma herança genética, que faz com que os traços físicos e psicológicos dos ancestrais lhe sejam transmitidos e interfiram diretamente em seu caráter, mesmo que essas características não sejam dominantes.

O fenótipo é constituído pelo comportamento aprendido e pelas experiências adquiridas recentemente e armazenadas na memória cerebral, de forma a criar um padrão individual de comportamento, atitude e ponto de vista consolidados e relativamente estáveis, servindo de eixo de identidade para seu portador.

O biótipo é a cristalização de todas as características anteriores em uma forma corpórea em que todos os traços estão direta ou indiretamente ligados a um dos outros três fatores citados acima, ou ao conjunto deles, em recíproca influência.