Há algo no coração que ainda não foi descoberto pela fisiologia e pela medicina.
Por que motivo alguém, quando quer referir-se a si mesmo, põe a mão no peito, bem em cima do coração, e diz “Eu”?
Por que não aponta para a testa ou para o umbigo?
Por que os apaixonados sentem aquela sensação de intensidade ardente na região do coração?
Por que oferecem seus corações à pessoa amada? E por que desenham corações flechados nos troncos das árvores? Por que o sofrimento produz uma intensa e desagradável sensação de peso e de opressão bem no centro do peito?
Aparentemente não existe nenhuma relação entre esse complexo músculo bombeador de sangue e essas estranhas sensações da alma.
Se o ente humano fosse apenas uma máquina biológica, nenhuma relação poderia haver entre os sentimentos e o coração. Certamente há algo mais ali que não podemos enxergar com nossos sentidos limitados, nem com a mais avançada aparelhagem da medicina.
Da mesma forma que o corpo humano está todo mapeado com os meridianos e pontos de energia da acupuntura, sem que ninguém possa vê-los, o coração também contém um mapa de conexões ocultas com as forças da alma que se manifestam através dele.
Os povos da antiguidade, mais orientados para os aspectos sutis e imponderáveis da vida, tinham uma noção muito mais apurada sobre essa realidade do que nossa civilização ultra-racionalista, materialista e orientada para o mensurável e para o quantitativo.
Nossa civilização é orientada para o cérebro e não para o coração, por isso o coração perdeu o sentido e o significado.
Em uma litania contida no Livro dos Mortos egípcio, há uma prece magistral em que o escriba Ani procura despertar os poderes latentes de seu coração logo em sua entrada no mundo invisível, após a morte: “Oh meu coração! Oh coração de minha existência! Que nada haja contra mim em meu julgamento no salão de Maati! Homenagem a ti, oh meu coração! Homenagem a vós, oh Deuses! Que não se diga de mim que agi contra as leis de Maat! Não fiz mal à humanidade e não repeli o divino em suas manifestações! Sou puro! Sou puro! Sou puro!”.
Estaria Ani mentindo para os deuses? Nenhum ser pode ser tão puro assim em sua vida física!
Sob a alegoria da prece, o escriba recém-falecido busca invocar os princípios essenciais do ser, que estão associados ao coração no plano espiritual. Busca trazer à tona sua pureza inerente e intrínseca, mesmo que tenha cometido impurezas em sua vida pregressa. Está implícito que pureza é um atributo essencial do ser, enquanto a impureza são acidentes ou incidentes existenciais, que são removidos (não sem uma dose proporcional de sofrimento) quando a luz do ser ilumina as trevas da existência.
Ele sabe que a redenção não está nas ações, nem nas crenças, e sim no despertamento de um atributo inerente ao coração. “Ame e faça o que quiser”, ensinavam os antigos mestres de várias tradições.
Na alegoria do julgamento do Livro dos Mortos, o coração passava por uma pesagem – era colocado em um prato, e a pena da verdade colocada no outro prato da balança. O coração deveria ser mais leve do que a pena para permitir a salvação (o acesso à barca dos milhões de anos, onde o falecido desfrutaria a companhia de Ra). Esse simbolismo significa que somente o que é verdadeiro se torna eterno e incorporado às faculdades permanentes da alma.
Tudo o que é falso e maléfico é eliminado no intervalo entre as encarnações, no filtro do “purgatório” ou do “inferno”, que é somente um purgatório mais exacerbado, mas temporário, da mesma forma.
Apesar de uma aparência exterior assustadora, esses lugares do além (seria melhor dizer: estados de alma no além) são tão somente as “Câmaras dos tesouros das imagens”, onde a alma faz suas sínteses no mundo invisível e percebe, no espelho da luz astral, os reflexos de suas ações e de seu estado de consciência...
A pesagem do coração significava uma avaliação da alma sobre até que ponto tinha sido verdadeira e sincera consigo mesma e com os demais. Até que ponto o coração tinha sido o guia das ações daquele ser no transcurso de sua jornada.
Foge do nosso tema de estudos uma análise mais apurada da religião egípcia. Essa tradição é aqui citada apenas para mostrar como os povos antigos tinham uma percepção interna muito mais apurada da natureza íntima do ser. E como sabiam ser o coração a sede de um aspecto essencial da consciência humana – o próprio eu interno (a fonte da vida espiritual) está ancorado no coração (a fonte da vida física).