O grande mistério do tempo consiste no fato de que toda a eternidade
está condensada e concentrada no agora.
Cada instante do tempo é uma peculiar e diferenciada manifestação
da eternidade.
Tudo o que nos acontece só tem realidade e significado no momento em
que já está acontecendo. Fora disso, tudo o que existe são
recordações do passado e especulações sobre o futuro.
Não se deve chegar ao extremo de afirmar que o passado não existe
ou não existiu: os fósseis e as fotografias estão aí
para provar o contrário. O que pode ser afirmado é que aqueles
eventos passados cujos registros podemos ver no presente só tinham significado
e realidade no exato momento em que estavam acontecendo. Eles não apenas
“aconteceram naquele momento”. Eles eram aquele momento. Faziam
parte de uma infinita cadeia de eventos que se encadeavam e se manifestavam
naquele instante. Fora daquele instante são apenas débeis registros
de um passado morto, que jamais irá retornar.
Neste ponto, cabe uma ressalva em relação à chamada “lei
do eterno retorno”, que parece contradizer o que foi dito sobre a singularidade
do tempo.
Os eventos ocorridos no tempo jamais se repetem. Mas os padrões desses
acontecimentos se repetem ciclicamente,de forma análoga, mas nunca idêntica.
Os padrões dos acontecimentos se repetem em escalas diferentes e contextos
diferentes.
Como a eternidade está toda contida no presente, é óbvio
que o passado também está contido no presente, influenciando-o.
E é óbvio que o futuro também está contido no presente,
assim como o futuro abacateiro está contido na semente do abacate.
Este assunto tem tamanha sutileza e abstração que é preciso
recorrer a analogias para clareá-lo. É claro que a semente do
abacate contém tanto o abacateiro que o gerou, quanto a árvore
que será gerada por esta semente. Da mesma forma, cada instante do tempo
contém, de forma compactada, todo o passado e todo o futuro, sob o ponto
de vista de cada ser.
Assim, podemos ver em cada criatura, simultaneamente projetada em sua forma
de expressão no presente, tudo o que ela fez no passado mesclado com
um modelo embrionário que é seu arquétipo modelar de perfeição
futura.
È o carma causado pelos erros do passado que impede que a beleza intrínseca
de todos os seres tenham plena expressão no presente. Mas, de alguma
forma, aquela beleza está ali, ainda que mesclada e poluída pela
salmoura do tempo.
Precisamos aprender a lançar sobre as criaturas um olhar mais benevolente,
buscando enxergar os aspectos arquetípicos de sua natureza, pois esses
são mais reais e permanentes do que os chamados “defeitos”.
À medida que os “defeitos” vão sendo depurados, purificados
e transmutados, a perfeição interna vai surgindo camada por camada,
e então vemos que o patinho feio se torna um belo e alvo cisne.
Todos os nossos “erros e defeitos” estão gravados na linguagem
do corpo e na constituição do caráter Mas, simultânea
e misteriosamente mesclado com esse entulho do passado, está o arquétipo
de perfeição, que nunca deixou de estar presente, como um modelo
ideal ligado à nossa natureza divina.
Todos somos divinos em essência, mas esse lado divino e perfeito de nossa
natureza tem sua expressão bloqueada pelos erros e imperfeições
existentes em nossa natureza inferior.
Este é o grande mistério e o grande paradoxo da natureza humana:
a flor de lótus que se abre incontaminada para a glória da luz
solar, enquanto suas raízes permanecem mergulhadas no lodo do fundo do
rio.
Consta no Evangelho de Tomé, encontrado em Nag Hammadi, uma frase de
Jesus em que o próprio Mestre se assombra diante desse mistério:
“Como é que tamanha glória pode fazer sua morada em tamanha
miséria?”