SOMOS O CORPO OU TEMOS O CORPO?

Nunca foi claramente esclarecida a questão de sermos o corpo ou termos o corpo, porque ser essa uma questão formulada em termos incorretos.

Quando uma pergunta é mal formulada, obviamente, a resposta fica prejudicada.

Isso ocorre principalmente em perguntas que estabelecem alternativas ou cursos de raciocínio predeterminados: a pergunta parece “forçar” a resposta em direções já definidas.

Se dissermos “temos o corpo”, estaremos transformando o corpo em um objeto externo a nós e portanto, alienando uma parte de nós mesmos.

Se dissermos “somos o corpo”, torna-se difícil absorver o fato inevitável da morte, afinal, se sou o corpo, deixarei de ser, quando o corpo deixar de existir.

Ambas as opções são insatisfatórias e trazem problemas insolúveis, de onde se pode concluir que a pergunta “somos o corpo ou temos o corpo?” não pode ser formulada nesses termos.

Afinal o que é o corpo? Como percebê-lo dentro de uma visão integral do ser humano?

O corpo não pode ser alienado como um objeto, porque é uma parte de nós.

Mas também não pode ser definitivamente integrado no ser, porque é deteriorável, perecível e transitório. A partir de um certo ponto, o ser terá de prosseguir sua jornada sem ele.

Se o corpo não pode ser definido em termos categóricos e definitivos através dos conceitos de ter ou ser, o entendimento sobre a natureza do corpo deve estar situado em uma dialética muito mais sutil e refinada, quase atingindo os níveis da intuição.

Poderíamos iniciar essa dialética situando o corpo como uma expressão fenomênica biopsicoenergética de um “eu maior”, que vive em outros níveis de realidade.

Platão percebeu essa dicotomia com a famosa metáfora da gruta. Tudo o que existe no nível físico da realidade é como sombras se movendo nas paredes de uma caverna escura, que os observadores tomam como a realidade, sem virar as costas e olhar para a entrada da caverna de onde vem a luz. Platão ensinava que todas as coisas reais existem no chamado “mundo dos arquétipos”, onde existem as coisas em si mesmas.

O corpo se encaixa exatamente nessa definição platônica.

Poderíamos dizer que o corpo é um “cristal do tempo”. É uma formação temporária onde está contida a história de nosso passado e o embrião de nosso futuro. É um amálgama do tempo.

O corpo é como uma condensação de toda a nossa história, incluindo também parte da história de nossos ancestrais. De certa forma, no corpo está gravada a trilha de toda a jornada humana.

O melhor modelo analógico que podemos usar como metáfora para a compreensão do corpo é a pupa ou crisálida da borboleta, que não é exatamente a própria borboleta, mas é sua forma de existência temporária. Enquanto está dentro do casulo, a borboleta é a crisálida, porque vive nela e através dela, embora aquela forma larval nada tenha a ver com o inseto alado e colorido que alegra os campos, voando de flor em flor em busca do néctar.

O corpo é uma forma de existência temporária, onde temos de passar por experiências compulsórias sob forte compressão existencial. As próprias necessidades básicas e fisiológicas para a conservação do corpo já definem grande parte de nossa existência, que gira em torno da manutenção desse veículo biológico frágil, instável e perecível.

Poucas pessoas percebem como é fútil e vã a construção de tantas vaidades e ambições calcadas em uma base existencial tão vulnerável, transitória e perecível.

Muitas pessoas que vivem na riqueza e no poder temporal recusam-se a perceber o fato óbvio de que suas existências não irão durar mais do que poucas décadas e insistem em viver como se fossem eternas.

Basta lançar um simples olhar para o corpo físico para se constatar que é frágil a existência humana no veículo físico. Acima da linha da cintura, há uma série de órgãos biológicos – basta um deles parar de funcionar que a existência física chega ao fim.

Sem contar as causas externas de morte, como agressões, acidentes e ataque de germes letais, o organismo biológico tem uma fragilidade tão grande, que pode-se dizer que a existência física transcorre todo o tempo equilibrando-se sobre uma corda bamba que separa a vida da morte. E é em cima dessa fragilidade que são edificadas toda a ambição, vaidade e indiferença humana para com os companheiros de jornada que caminham em condições menos favoráveis.

A morte, fato óbvio e inevitável diante de tamanha fragilidade, permanece sempre como um tabu. Quando vemos um esquife descendo à sepultura, raramente nos lembramos que aquilo é uma visão antecipada de nossa própria morte.

A perplexidade humana diante da morte é tamanha, que as consciências se turvam e se recusam a ver na morte alheia o anúncio de seu próprio desenlace. Chega a ser bizarro os epitáfios que se vêem nos cemitérios, com mensagens de “saudades eternas” e “adeus para sempre”, como se o morto fosse ficar eternamente morto e os vivos eternamente vivos.

Toda essas obscuras questões ligadas à morte estão ligadas à fragilidade e transitoriedade do corpo físico. A maneira como percebemos o corpo físico e a vida neste veículo definem nossa atitude em face da morte, visto que a morte nada mais é do que a morte do corpo físico.

O corpo físico tem de acabar inevitavelmente, devido a desgaste ou a algum acidente. O milagre é que um organismo tão frágil possa sobreviver por tantos anos. Por mais cuidado que se tenha com sua preservação, sempre chegará o tempo em que se gastará e deixará de existir.

O corpo físico é um veículo de consciência, que não é exatamente um ser nem um ter.

É um pouco de ambos, mas em essência não é nenhuma dessas categorias. Esse veículo transitório é uma espécie de condensação do carma e das condições evolutivas da alma em determinada fase de sua jornada cósmica.

É uma espécie de crisálida na qual a consciência deve passar por determinadas experiências de alta compressão, que não seriam possíveis em nenhuma outra condição. A própria existência física estabelece limites e relações, de que a alma encarnada não pode escapar.

Somente depois de transcorridas essas experiências, é que se percebe seu sentido e seu propósito para o desenvolvimento da consciência (desenvolver = retirar o envoltório) e transformar a crisálida na borboleta luminosa, que pode voar livre pela vastidão dos campos.