O QUE PERCEBEMOS
E O QUE PROJETAMOS

N ão vemos o mundo como o mundo é, e sim como nós somos. Não sei quem é o autor dessa frase, mas não há dúvida de que é uma verdade essencial.

Não somente as imagens que percebemos são produto da química do nosso cérebro, com neurotransmissores movimentados por impulsos neurológicos, como o próprio colorido emocional dessas imagens e a importância que damos a elas são também produtos de nossa mente.

Os tiranos de todas as épocas sempre usaram um artifício para se livrar de seus inimigos, sem ter de usar assassinatos diretos (embora muitos usassem até mesmo os assassinatos). Para dar ares de legitimidade às suas ações, eles tomavam pequenas faltas de seus inimigos e exageravam a sua importância, transformando-as em grandes delitos ou traições. E assim esses inimigos eram condenados à morte ou às masmorras.

Fatos são fatos, mas a importância emocional ou a gravidade moral dos fatos é subjetiva ou condicionada por uma convenção moral entre os membros de uma sociedade.

No início do século XIX, a escravidão era vista pelas sociedades como uma prática normal e indispensável. No final do mesmo século, nenhuma sociedade aceitava a prática da escravidão, condenando-a como crime contra a humanidade.

As imagens do chamado mundo externo que aparecem em nossa consciência são uma mescla das imagens do mundo real ou arquetípico (o único verdadeiramente existente) com as imagens distorcidas por nossos condicionamentos sociais e individuais.

Só podemos perceber as coisas reais, quando dissolvemos momentaneamente ou definitivamente essas nuvens de condicionamentos que distorcem a realidade.

Ver as coisas em si mesmas, em seu próprio nível de realidade é o que comumente se chama de iluminação.

Todos os seres que atingiram essa experiência culminante afirmaram, sem exceção, que as coisas vistas em si mesmas, em sua própria dimensão de realidade, estão todas unidas em uma unidade indissolúvel e são todas inerentes à ordem divina do universo. Em suma, eles afirmam que, em seu âmago essencial, tudo é divino e tudo está interligado, não havendo essa ilusória separação entre Deus e a Natureza, o que não significa que Deus seja a própria natureza, como afirmam alguns panteístas radicais.

O mais verossímil é que a Natureza seja uma espécie de manifestação exteriorizada ou projetada da Consciência Absoluta. Ela parece estar ligada ao aspecto imanente da Divindade, embora exista um aspecto transcendente, que paira além de qualquer manifestação objetiva. Isso significa que toda a matéria e toda a energia existentes no universo são aspectos exteriorizados (ou um poder exteriorizador) da Consciência Absoluta.

Com base nesses relatos, podemos inferir que é enganadora a separação entre o observador e a coisa observada. O observador desaparece no ato da observação plena.

Uma das muitas definições válidas sobre a meditação é exatamente essa: “Meditar é a observação sem o observador”.

Só existe o ato da observação. O observador é criado no ato da observação, mas sendo ele um observador inerente em si mesmo (um centro de consciência ou de percepção) não pode deixar de observar, visto que vida é consciência e consciência é vida.

Não pode haver vida sem consciência, da mesma forma que não pode haver consciência sem vida.

Esse é um mistério simples em sua essência e extremamente complexo quando transposto para o mundo dos fenômenos.

É exatamente esse o significado de um dos mais profundos e incompreensíveis ensinamentos transmitidos pelo próprio Buda:

 

 

“A morte existe, mas não há quem morra.

O sofrimento existe, mas não há quem sofra.

O feito existe, mas não há quem faça.

O nirvana existe, mas não há quem busque.

O caminho existe, mas não há quem siga”.