É muito comum lermos na literatura esotérica e espiritualista
que o tempo é ilusório e que somente existe o “eterno agora”.
É extremamente enganador trazermos para o plano fenomênico e relativo
verdades que se aplicam exclusivamente ao mundo numênico, que é
o território do absoluto.
Dirão que até mesmo essa divisão entre númeno e
fenômeno, ou entre absoluto e relativo, é também ilusória
porque estabelece uma divisão dualística onde só existe
a unidade.
Tanto a afirmação prematura da unidade, quanto a noção
de que a realidade é formada por uma separação dualística
de númeno e fenômeno são prematuras e distorcidas porque
se baseiam em especulações, abstrações e filosofemas
e não em uma visão interna (insight). Quando consultado sobre
esse assunto Buda costumava dizer: “Quem afirma erra. Quem nega erra”.
Para efeitos práticos e para evitarmos entrar em um labirinto de complicações
filosóficas, podemos dizer que, no mundo dos fenômenos, o tempo
reina absoluto, regendo o contínuo movimento das transformações,
enquanto a essência mais profunda do ser permanece imersa na eternidade,
sem ser tocada por este mistério, que chamamos de Tempo.
A essência última do ser não pode ser separada da consciência
em seu aspecto mais divino e transcendental. Todavia a consciência em
seu processo de imersão e manifestação no mundo fenomênico
passa por uma sucessão interminável de estados, que variam de
acordo com sua condição momentânea.
Esse é um processo de imensa amplidão que abrange toda uma vida
e até mesmo uma longa série de vidas. Para ilustrar esse processo,
devemos recorrer ao símile de examinar a trajetória de uma pessoa
comum ao longo de sua existência física. O tempo é a marca
das transformações, sendo simultaneamente a causa e o efeito dessas
transformações.
O ser nasce como uma frágil criança. Aprende a andar, a falar,
a escrever, a se relacionar. Torna-se um jovem adolescente com todos os conflitos
de identidade e inserção no mundo.
Depois passa pelas etapas sucessivas da vida adulta, do trabalho, da constituição
da família, rumando para a decrepitude em direção à
morte. Muda de idéias e de pontos de vista. Altera sua compreensão
do mundo e das relações. Ora está alegre, ora triste; ora
eufórico com as vitórias, ora deprimido com as perdas.
Em nenhum momento, porém, no meio de todas essas mudanças de estado
de consciência, este ser perdeu sua auto-identidade, sua auto-identidade
íntima, seu eu essencial e incondicionado, que se manifestava através
de um ego periférico e condicionado.
Em termos de tempo, todas essas mudanças foram feitas na temporalidade
e feitas pela temporalidade, mas a essencialidade dessa criatura não
foi afetada pelo tempo: o que mudou foram seus estados de consciência.
Por isso, o tempo pode ser identificado com essa sucessão de estados
de consciência.
Se não houvesse mudança de estado de consciência, não
haveria tempo em termos psicológicos, embora pudesse haver tempo em termos
de mudanças de fenômenos físicos e energéticos periféricos,
que afetariam a consciência daquele hipotético ente imutável.
Neste ponto, chegamos a um paradoxo: a consciência não se alteraria
ao perceber as mudanças exteriores em seu ambiente e reagir a elas?...
Ao registrar em sua memória essas transformações? É
óbvio que sim. E, portanto, havendo qualquer tipo de mudança no
cenário exterior, ela teria um efeito sobre a consciência que percebe
esta mudança e se modifica através dela, dando origem ao tempo.
O que teria a ver essa análise sobre o tempo com a questão do
sofrimento, que é o foco principal deste livro?
O sofrimento é um estado de consciência como qualquer outro, com
a diferença de ser profundamente desagradável e, por isso mesmo,
indesejado.
O sofrimento provoca uma contratura psicológica e, pelo mesmo motivo,
uma contratura no tempo psicológico. É por isso que o tempo parece
se arrastar quando estamos em estado de sofrimento. Alguns dias de sofrimento
parecem ser uma eternidade.
Ao contrário, quando estamos em estado de felicidade (ou mesmo de prazer)
o tempo parece deixar de existir. Quando olhamos para o relógio, ficamos
surpresos de ver que o tempo transcorreu de forma intensa e que as horas passadas
foram despercebidas.
Não devemos deixar de notar que existem dois tipos básicos de
tempo: o tempo cronológico, que é a medida da duração
dos eventos, e o tempo psicológico, que é a sensação
interna que temos sobre a duração dos eventos.
Se duas pessoas vão ao cinema, assistir a um filme, sendo que uma delas
apreciou e a outra detestou a fita, temos um caso típico de diferenciação
do tempo psicológico. A fita teve a mesma duração (tempo
cronológico) para ambas as pessoas. Porém, para a que detestou
a fita, a sensação de duração foi muito maior do
que para a que gostou da fita, que não sentiu o tempo passar.
Por essa razão, existe uma intensa e sutil relação entre
o tempo e o sofrimento. Da mesma forma existe uma intensa relação
entre o cessar de sofrer e o cessar do tempo psicológico.
Foi essa distorção na percepção de tempo psicológico,
causada pelo sofrimento, que originou a monstruosa idéia de “castigo
eterno” para os pecadores, tão difundida pela teologia ocidental.
Obviamente há um estado de profundo sofrimento nos mundos sutis para
os que chegam ali com máculas na consciência, mas o sofrimento
é sempre proporcional às causas que o produziram. Causas finitas
não podem produzir efeitos infinitos. Se isso fosse possível,
toda a harmonia do universo estaria destruída, assim como a noção
de justiça e misericórdia divina.
Além dessa proporcionalidade entre causas e efeitos deve-se registrar
que as trevas encontradas pelos ímpios no mundo sutil são tão
somente as trevas de sua própria consciência espelhadas no espelho
plástico, vivo e hipersensível da matéria do mundo astral.