O PENSAMENTO E O ESPAÇO

Que relação poderia haver entre o pensamento e o espaço?

Embora aparentemente não exista nenhuma relação, o espaço não é aquilo que aparenta ser para os sentidos humanos. O espaço tem muitas camadas habitadas por muitos seres invisíveis e abriga muitas dimensões diferenciadas. Ou seja, o espaço é multidimensional. As tradições da religião-sabedoria ensinam que o espaço é a tela de projeção de um grande pensamento, “onde nos movemos e temos o nosso ser”.

Se o espaço é a “tela de projeção de um grande pensamento”, está estabelecida a conexão lógica entre o espaço e o pensamento. Obviamente não se trata do nosso pequeno e insignificante pensamento dentro dessa imensidão, mas é evidente que nosso pequeno pensamento é apenas uma parcela que tomamos emprestada do grande pensamento.

E o espaço que percebemos com nossos sentidos, é apenas uma pequena porção do espaço maior, cuja amplidão escapa da percepção humana.

Indo um pouco mais longe, podemos deduzir que nossa consciência é a parcela que tomamos emprestado da grande consciência, cada qual dentro de suas possibilidades.

É por isso que o pensamento pode viajar no espaço. Ou mais precisamente: o pensamento viaja dentro da consciência, que, por sua vez, engolfa o espaço.

Tanto o pensamento como o espaço são funções ou particularizações da consciência (da “Grande Consciência” que abarca todas as nossas “pequenas consciências”).

Tudo quanto acontece no espaço, portanto, está relacionado com a consciência, ou com uma de suas manifestações específicas – o pensamento.

A coordenação inteligente dos eventos que se desenvolvem no espaço é o que chamamos de “sincronicidade”. Todos os eventos em que existe um sentido e um propósito definidos são regidos pelo carma e por sua lei operativa, a sincronicidade. Somente os eventos desprovidos de propósito podem ser casuais e aleatórios.

Exemplificando: um grupo de pessoas que entra num elevador no andar térreo e desce no oitavo andar de um edifício, sem nada especial acontecer, é um evento aleatório, visto que não há nenhum propósito no encontro daquelas pessoas.

Por outro lado, se um grupo entra no elevador, e ele despenca do alto do prédio, com trágicas conseqüências, não se pode tratar de um evento aleatório. O fato é por demais grave e significativo na vida das pessoas para que sua ocorrência pudesse ser deixada ao acaso.

Essa possibilidade negaria o princípio de que há uma inteligência superior por trás de todos os processos importantes que acontecem no universo.

Obviamente, nesse caso, ocorreu a ação do carma e da sincronicidade, o que significa que havia causas pregressas pendentes, que se precipitaram através do trágico evento.

É por este motivo que Jung chamava esses eventos sincronísticos de “coincidências significativas”. Eles só ocorrem quando existem significados, mesmo que não possamos entender o seu sentido e propósito.

Sendo a vida repleta de significado, e o espaço uma tela de projeção desses significados, vivemos em um grande espelho vivo em que, em todos os momentos, recebemos sinais inteligentes. Nem sempre conseguimos entender esses sinais, porque a consciência menor do “eu pessoal” não tem amplitude para entender as mensagens do “eu maior”, que está projetado na “tela do mundo”.

Krishnamurti ensinava que só podemos nos perceber no estado de relação, ou seja, através dos sinais que recebemos do “espelho” do mundo exterior.

O mais extraordinário de tudo isso é a capacidade desse espelho vivo de refletir para todos, ao mesmo tempo, a mensagem específica de cada um. Por isso, o “espelho” do mundo é coletivo e particularizado ao mesmo tempo.

À medida que abrimos nossa janela de percepção, nossa capacidade de leitura vai sendo ampliada para níveis crescentes e ilimitados, e a natureza nos abre seus códigos secretos, ao mesmo tempo em que aprendemos a interpretar os códigos situacionais dos relacionamentos humanos.

Quando isso começa a acontecer, ou melhor, quando isso começa a ser percebido, começa a fazer sentido entender o espaço como a tela de projeção de uma grande consciência.

Só então percebemos que fazemos parte de um movimento caleidoscópico ordenado, mas, ao mesmo tempo, rico em criatividade infinita.

É nesse sentido o magistral ensinamento de Jesus para “não nos preocuparmos com o dia de amanhã” e acreditarmos no grande movimento da vida, pois todo ele faz parte da inteligência divina. Este tema é sutil e complexo. Alguém poderia indagar: “E como fica a situação dos famintos, miseráveis e abandonados pela sorte que arrastam vidas sofridas pela face do planeta?” É justamente pelo afastamento da harmonia divina e pela perda de confiança nos grandes propósitos que tais fatos acontecem na vida das pessoas. E uma vez acontecidos, é necessário um grande esforço e muito sofrimento para reintegração.

Quando vemos uma pessoa em sofrimento, estamos vendo apenas um segmento de um longo processo. Não temos a visão do processo integral, de modo que não temos consciência nem da causa, nem do propósito, nem da etapa que está sendo atravessada.

Os antigos iniciados gregos ensinavam que não há cura sem metanóia. E metanóia significa transmentalização, ou mudança radical de mentalidade, ou mudança de foco da consciência. A metanóia é uma forma de reintegração brusca e intensa, concentrada no agora. Sem ela, a solução do problema irá passar por um processo lento e doloroso, desdobrado no tempo e projetado no espaço.