A doutrina panteísta (Deus é tudo) é produto de uma genial percepção da presença divina no âmago de tudo o que existe, associada a uma formulação distorcida e grosseira desse brilhante percebimento.
Ou seja, o panteísmo é produto de um insight mal trabalhado e mal desenvolvido, embora luminoso em sua origem.
O maior problema existente no panteísmo é identificar o infinito com a soma dos finitos e reduzir o transcendente às suas manifestações fenomênicas exteriores.
Deve-se reconhecer, entretanto,que existe no panteísmo uma tentativa insipiente da mente humana de retirar a divindade antropomórfica de seu trono e percebê-la como um princípio imanente em toda a criação.
Esse esforço de “cosmifificação” do divino tem como obstáculo a falta de uma noção de transcendência, o que acaba por ter um efeito reducionista, visto que, ao mesmo tempo em que retira a divindade de seu pobre trono antropomórfico, retira também toda a excelsitude do divino, que passa o plano do contingente e do relativo, junto com todos os fenômenos.
A doutrina panteísta pura é rara de se encontrar na filosofia. De modo geral, os críticos da noção de imanência divina crêem na figura da divindade pessoal e usam o panteísmo para refutar os conceitos que estão fora de seu cânone. O panteísmo é, de fato, uma doutrina tão grosseira quanto a visão antropomórfica da divindade adotada na religião popular, chegando às raias do materialismo.
O filósofo e teólogo francês Teillard de Chardin criou a Expressão “Pananteísmo” para expressar um conceito de Panteísmo mais elaborado e complexo, que não exclui a noção de um aspecto transcendente do divino pairando acima de toda a manifestação objetiva.
Pananteísmo significa “Deus está em tudo”, o que não exclui o fato de que Deus existe acima de tudo e além de tudo. O pananteísmo de Teillard de Chardin busca conciliar o princípio da imanência divina em todas as coisas com o princípio da transcendência divina acima de todas as coisas.
Essa idéia constitui um avanço em relação ao panteísmo puro e tem o mérito de não identificar o infinito com a soma dos finitos. Teillard de Chardin deu uma grande contribuição, ao aproximar a teologia católica das grandes tradições iniciáticas da humanidade, eliminado o fosso criado pelo conceito da divindade antropomórfica.
Evidentemente a afirmação pananteísta de que “Deus está em tudo” é muito mais verossímil do que a afirmação panteísta de que “Deus é tudo”. Coloca em evidência que a divindade existe no âmago essencial de tudo que existe e é a causa primeira dos fenômenos, mas não é exatamente os próprios fenômenos.
Todos os fenômenos da natureza são manifestações exteriorizadas, sujeitas a influências de fatores causais (carma), que muitas vezes poluem esses princípios que são puros e incontaminados em sua origem.
Além do pananteísmo, há uma outra forma de se focalizar essa questão com um grau ainda maior de refinamento e de sofisticação filosófica. È, porém, um nível de pensamento tão elevado e sutilizado que chega a forçar a mente a se desprender de todas as formulações da lógica cartesiana e alçar vôo para uma percepção direta da realidade em seu nível mais alto e metafísico. Na filosofia oriental, esse conceito, que pode ser chamado de “Monismo”, aparece de forma mais nítida na filosofia Vedanta, no Taoísmo chinês e na doutrina Shunniata do Budismo, na qual o Dharmakaya permeia todas as coisas, sendo o corpo místico e transpessoal do Buda cósmico. É também o Uno dos neoplatônicos (ToHen), aquele princípio puro que está além da mente intelectiva (psique) e até mesmo da razão superior (Noos), só podendo ser conhecido através do êxtase.
O primeiro versículo do Tao Te King afirma que “O Tao sobre o qual se pode falar, não é o verdadeiro Tao. Sem nome, é a origem do céu e da Terra”. O versículo 25 afirma que “Nas profundezas do insondável, está Tao. Antes que céu e terra existissem, já existia Tao, Origem sem nome e nem forma, a grandeza, a fonte eternamente borbulhante do ciclo do nascer e do renascer”.
Na doutrina vedanta, afirma-se que “sarvam tat kaluvidamBrahm” (Em verdade, tudo isso é Brahm). O vedantismo afirma que tudo é Brahm e o universo fenomenal é Maya, uma ilusão causada pela nossa incapacidade de perceber a realidade tal como é em si mesma.
Se a percepção desse nível de realidade não pode ser expressa ou descrita, e só pode ser percebida através de uma profunda iluminação, como podemos afirmar que ele existe?
Esse mistério não pode ser conhecido porque ele é o próprio conhecedor em sua essência mais íntima – o substrato último e oculto da consciência. É a própria consciência em si, em sua origem. Segundo a narrativa de todos os seres que atravessaram para a outra margem, a experiência do eu é o próprio desaparecimento do eu. Isso não significa que deixam de ser ou de existir, e sim que passam a se perceber como uma “projeção focal” de uma realidade que integra todos os seres em seu próprio ser. Toda a sua experiência, toda a sua bagagem individual parece consumir-se em um vazio aniquilador. É por isso que, na árvore da vida cabalística, existe a sefira oculta Daath (O conhecimento) funcionando como um abismo que separa a três supremas do restante da manifestação. Nesse abismo todo o conhecimento é atraído para um “buraco negro” e aniquilado. O que para além de Daath é Ser Puro e Consciência Pura, condições que só podem ser obtidas no samadhi ou no êxtase.
É essa mesma experiência de aniquilação que São João da Cruz chamou de “noite escura da alma”, a escuridão aniquiladora que antecede a iluminação. Corresponde também aos três dias de cegueira de Paulo de Tarso, antes de receber a revelação de seu Cristo Interno.
Esse fato está presente em todas as grandes tradições religiosas, o que demonstra que é universal e independe de crença ou de tradição, embora possa ter um colorido e uma contextualização diferente de acordo com a didática e a simbologia de cada uma das tradições espirituais.