TEMPO CÍCLICO OU TEMPO LINEAR?

Há dois enganos fatais na teologia cristã ocidental.
O primeiro deles é a perda da noção da imanência divina, o que leva a enxergar a Divindade como externa à criação. Os teólogos supõem e alegam que conceber a Divindade como intrínseca à criação é “panteísmo”, o que é também um equívoco grosseiro, em conseqüência direta do primeiro. Nem mesmo os filósofos chamados panteístas, como Spinoza, eram panteístas de fato. Eram monistas que acreditavam na unidade básica que permeia toda a criação, em conseqüência da imanência de Deus na Natureza, embora não descartassem o fato de que a divindade tinha paralelamente um aspecto transcendente e absoluto acima do universo manifestado.
O outro erro fatal é a noção de tempo linear, que implica a suposição de que a criação teve início em um determinado momento do tempo e que terá fim com o juízo final.
Nesse aspecto, temos de ter a humildade e a lucidez de admitir que os vedantistas hindus estão muitos anos-luz à frente dos teólogos e filósofos ocidentais, em termos de compreensão da temporalidade.
O tempo não é linear. O tempo é cíclico e se desdobra revoluteando sobre si mesmo numa espiral eterna.
Mesmo o universo é um fenômeno cíclico. É claro que o atual universo teve sua origem em algum ponto no tempo passado. E terá fim em algum ponto no tempo futuro.
Porém este universo é apenas um de infinitos universos que existiram no passado e dos infinitos universos que existirão no futuro.
Este universo pode ser localizado no tempo, mas o processo de criação de universos, não, porque é algo inerente à própria dinâmica da manifestação divina. Criar e destruir universos é para a Divindade, o que aspirar e expirar é para cada um de nós.
Como o próprio universo é um fenômeno cíclico, tudo o que se manifesta dentro dele também tem um padrão cíclico. Esses ciclos menores são repercussões e ressonâncias do ciclo maior.
É óbvio que as unidades microcósmicas não poderiam ter um padrão de expressão diferente do macrocosmo que os contém. Se isso ocorresse, estaria quebrado o princípio de unidade e de harmonia que rege toda manifestação.
Sendo assim, os grandes processos que regem a vida da natureza não são diferentes dos grandes processos cósmicos.
O processo de criação de um pequeno talo de grama não é em nada diferente do processo de criação de galáxias e sistemas estelares. Apenas a ordem de grandeza e a escala de tempo são diferentes.
Tudo no universo está sujeito a ciclos de crescimento e de regressão. De atividade e de repouso.
Na natureza, essas variações cíclicas estão sujeitas a padrões bastante uniformes e previsíveis. Na vida humana e nas sociedades humanas, a interferência da mente provoca uma perturbação nesses padrões, que passam a sofrer flutuações atípicas e desconcertantes, com períodos prolongados ou intensificados de alta ou de baixa.
A própria idéia de tempo linear produz uma dificuldade para o entendimento desses padrões cíclicos e produz uma incorreta incompreensão das leis da vida, em seu desdobramento dinâmico através dos ciclos.
Alguém que conhecesse a ciclicidade do tempo jamais poderia supor que uma pequena vida humana de poucas décadas possa definir o destino de uma alma para toda a eternidade.
Essa idéia monstruosa é fruto de interpretações literais e distorcidas das escrituras. Se tal fato fosse possível, ocorreria uma enorme desproporção entre uma causa e seus efeitos, o que quebraria todo o equilíbrio de proporções do universo.
A compreensão do aspecto cíclico do tempo, que rege toda a manifestação universal, é fundamental para adquirirmos uma cosmovisão aproximada à realidade, e assim compreendermos, ainda que parcialmente, nosso papel dentro desse belíssimo e monumental plano de manifestação da Consciência Divina.