A UNIDADE E A DIVERSIDADE

Ensinava o ilustre professor Huberto Rohden, em suas palestras e escritos sobre filosofia cósmica, que a palavra Universo é formada pela justaposição de duas outras palavras – Uno e Verso, ou seja, a unidade manifestada na diversidade.

Esse é, sem dúvida, um dos grandes mistérios da natureza, e faz-se necessário que o estudante ao menos equacione esse problema, já que seu esclarecimento não depende de elucubrações intelectuais, e sim de uma profunda visão interior.

A humanidade tem alternado ciclos de religiões voltadas para o aspecto unitário da manifestação e ciclos de religiões da natureza, voltadas para a diversidade.

Ambas são “meias-verdades”. Uma religião correta e sintética levaria em conta os dois princípios da manifestação universal.

As religiões voltadas para a diversidade são geralmente politeístas e não deixam de ter razão, visto que embora exista uma única divindade absoluta, existe uma infinidade de seres que participam da criação e da conservação da vida da natureza, cujo poder e inteligência é tão elevado, que não chega a ser nenhum absurdo chamá-los de “deuses”.

São os Devas do hinduísmo, os arcanjos da religião judaica e cristã e os Logos da Teosofia, que são os espíritos criadores e vivificadores das galáxias e sistemas solares.

Quando as religiões da natureza, focalizadas na diversidade, terminam o seu ciclo de duração estão tão pulverizadas e descoordenadas, que os seguidores se perdem na enorme confusão e dispersão de deuses e deusas, o que provoca um enfraquecimento. Além disso, as religiões da natureza se baseiam no culto aos processos vitais e fertilizadores da vida natural. Ao longo do tempo, esses processos também se descoordenam e decaem, e os cultos da fertilidade se tornam cultos da sensualidade. Ao mesmo tempo, os cultos sacrificiais se tornam cerimônias cruéis e sangrentas.

Quando chegam a esse estágio de decadência, ocorrem geralmente reformas religiosas, e o culto da diversidade é substituído por cultos da unidade, onde se cultua um Deus único ou um único mensageiro divino. Essa modalidade de religião também sofre uma inevitável decadência ao longo do tempo, ossificando-se em dogmatismo e clericalismo autoritário.

Novamente as religiões da natureza mais livres e diversificadas retornam mais puras, para repetir o ciclo mais uma vez.

Essas alternâncias cíclicas acontecem porque a humanidade ainda não está madura para incorporar a vivência dessas verdades eternas, recebendo as revelações de forma gradual e em um processo de tentativa e erro.

A noção de “Deus Único” é transmitida como se este ser fosse externo e reinasse sobre a criação como uma espécie de rei benevolente sentado em seu trono.

A experiência de não dualidade, quando a consciência do ser mergulha na consciência unitária, é a mesma em todas as tradições, mas é uma experiência individual e única ,visto que cada ser humano irá experimentá-la de forma particular e diferente da dos demais.

Toda criatura é uma capacidade de expressão para o divino, capacidade essa que somente o divino pode preencher. Por isso, a noção de entrega existe em todas as religiões. (“aquele que morrer por mim, viverá e terá a vida eterna”, ensinou Jesus).

Buda ensinou o mesmo com outras palavras: “A morte existe, mas não há quem morra”.

Se somos uma experiência do divino, não há ninguém ali para morrer, visto que o divino é imortal, embora a morte de fato aconteça, como um fenômeno, no plano objetivo.

A reintegração do ser na unidade é o fenômeno chamado de iluminação, ou salvação, quando a consciência humana é transfigurada, e a matéria que a envolve emite luz e se transmuta. A evolução da matéria, acontece passo a passo, em paralelo à evolução da consciência . O professor Huberto Rohden ensinava que a matéria , por ser lucigênita, deve ser lucificada, no final de sua evolução. A matéria não pode evoluir por si mesma. Ela evolui como uma contrapartida da evolução da consciência, o que é o grande segredo da alquimia. A pedra filosofal só era conseguida no atanor alquímico, quando a consciência do alquimista alcançasse a reintegração.

Quando a reintegração acontece, a consciência humana é transfigurada e resplandece ao alvor da luz divina, tal como aconteceu com Jesus no Monte Tabor, quando Jesus manifestou a forma gloriosa de seu ser integral: corpo e espírito unificados pela consciência, num mundo de luz pura e incontaminada.

A partir dessa experiência ocorrida um pouco antes de sua morte, Jesus tornou-se totalmente consciente do plano divino, do qual ele era o principal protagonista e o único ator plenamente consciente do propósito e do desfecho próximo e longínquo do drama que transcorria no árido cenário da Palestina.

Essa percepção é possível porque a experiência da unidade extingue o tempo, concentrando toda a eternidade no presente.

Este também é o motivo das escrituras budistas narrarem que, no momento da iluminação, Buda tornou-se consciente de todas as suas centenas de encarnações anteriores. Buda não estava interessado em encarnações passadas, mas o fato é citado simbolicamente para indicar que ele anulou o tempo, e toda a eternidade ficou concentrada no presente.

Todo o passado e todo o futuro estavam ali naquele instante, mas não dispersos no tempo e sim em sua plenitude no “Agora eterno”.