O mais antigo e famoso livro da civilização chinesa, o Tao Te King, começa com as seguintes palavras: “O Tao sobre o qual se pode falar não é o verdadeiro Tao”.
Essas palavras significam que Tao é o nome dado àquilo que não tem nome: o mistério indizível. o Tao Te King deixa claro que o Tao não tem atributos nem qualidades.
Não tem sequer um Ser. É pura “seidade”, aquilo que é a base fundamental do ser. Aquilo que antecede o ser e, ao mesmo tempo, permeia todos os seres.
O versículo XXV narra: “Nas profundezas do insondável, está Tao. Antes que Céu e Terra existissem, já havia Tao, origem sem nome e nem forma, a grandeza, a fonte eternamente borbulhante, do ciclo do nascer e renascer”.
Nada há de errado no culto de um Deus Pessoal. É mais fácil direcionar o amor para uma forma personalizada e concreta da divindade.
Nas horas de aflição, é também mais fácil invocar uma divindade mais objetiva e visualizável. O universo está repleto de seres espirituais humanos e não humanos de diversos graus de evolução, com quem podemos interagir e receber auxílio, mesmo que esse auxílio seja emitido em nome da divindade. Afinal, Deus não atua diretamente, e sim através de seus emissários, seres que já realizaram, em diferentes e variados graus, sua divindade interna e agora estão unidos ao Supremo sendo um com Ele.
O grande mistério é: como pode Deus estar ao mesmo tempo tão longe e tão perto?
A melhor maneira de clarear essa complexa questão é entender o duplo aspecto da natureza divina, simultaneamente transcendente e imanente. Essa compreensão está longe de esclarecer os mistérios da ordem divina do universo, mas, pelo menos, lança uma luz na forma de manifestação e de expressão do Supremo no mundo objetivo.
Os antigos hebreus tinham um nome para designar o aspecto unitário, subjetivo e transcendente da divindade: Iaweh. E outro nome para designar os aspectos mais imanentes, manifestados e plurais da manifestação divina: Elohim.
Sempre que discorriam sobre a criação, era usado o nome sagrado Elohim, que era uma palavra que tinha um prefixo masculino (El) uma terminação feminina (Oh) e uma terminação plural (im), sugerindo que os agentes diretos da criação eram as hierarquias criadoras de arcanjos que criavam em nome de Deus.
Da mesma forma, no antigo hinduísmo védico, quando se tratava da criação, usava-se o nome de Savitur, que era o Sol atuando como criador, enquanto o Sol em si mesmo era Agni ou Mitra no culto parsi.
Nossa civilização materialista e orientada para o quantitativo e para o concreto tem uma percepção muito distorcida dos povos da antiguidade e de suas religiões. Não percebemos que, em meio à superstição e ao animismo, havia intuições profundas sobre a vida que flui no lado invisível da natureza e sobre os seres que a habitam. E que essa interação profunda e afetiva entre os homens e as forças ocultas da natureza possibilitavam poderes de cura e de domínio das forças da natureza, desconhecidos na atualidade.
Infelizmente, com o passar do tempo, tais poderes dos povos antigos degeneraram em feitiçaria destrutiva, da mesma forma que nossa capacidade mental e científica degenerou em intelectualismo frio e predatório, capaz de produzir armas e venenos de destruição em massa e de poluir a atmosfera e as águas do planeta.
Seja por meio da magia natural, seja por meio do cientificismo mental, o homem será sempre destruidor, enquanto não abandonar as periferias de seu ego separatista e retornar ao seu centro essencial de ser, onde sua alma profunda tem a mesma natureza da divindade suprema e a ela está vinculada por laços incompreensíveis.
A relação entre o princípio transcendente do ser em si e o princípio imanente do ser em manifestação objetiva, sempre foi uma fonte de mistério e de especulação, jamais solucionada em sua plenitude. Ela é a própria dialética do Um e dos Muitos.
O Universo é formado pela misteriosa junção do Uno e do Verso, o centro estático e a periferia dinâmica, ou a unidade manifestada da diversidade, para realizar o milagre da coisa única (Hermes Trimegisto).
Dos três grandes livros da humanidade (OEvangelho, BagavadGita e TaoTeKing), este último é aquele que coloca com maior sutileza a complexa e intricada questão da interação entre o transcendente e o imanente, ou entre a unidade e a multiplicidade.
Ensinar a ver a unidade na multiplicidade e a multiplicidade na unidade, dentro de uma perspectiva prática e em comunhão com as forças da natureza, é a essência do TaoTeKing, um livro escrito há 2.500 anos, que permanece atual.