SHIVA E OSÍRIS

Embora não haja registro histórico de contato entre a civilização egípcia e a cultura védica indiana, são espantosas as semelhanças entre o culto hindu de Shiva e o culto egípcio de Osíris, o que é indicativo que teriam uma origem comum em alguma civilização perdida.
Ressalvadas as diferenças culturais e religiosas entre essas duas grandes civilizações, é notável a semelhança essencial que se esconde sob o véu das roupagens dos respectivos mitos.
Ambos os “deuses” estão associados às suas consortes (Parvati e Ísis) e têm com elas um papel que ilustra o jogo de forças polarizadas que geram e sustentam a vida no universo.
No Shivaísmo tradicional, é a dança de Shiva que faz girar os mundos, mas, no tantrismo, é a Shakti (princípio feminino) que executa a dança em torno de Shiva estático.
Em ambos os casos, Shiva é o centro detentor do poder, enquanto Parvati (Shakti) é a manifestação exterior do poder através da energia e das mudanças.
Nos mistérios osiríacos egípcios, da mesma forma, é Ísis que balança suas verdes asas em torno do grande apático mumificado, para dar-lhe vida e despertar-lhe os poderes reprodutivos. Parcialmente ressuscitado, Osíris e Ísis se unem e concebem o filho Hórus, que há de vingar a morte de seu pai, assumir o trono do Egito, restaurando a harmonia e a ordem de Maat.
Fica bastante clara nessa trilogia mitológica a interação do princípio de vida (Osíris) com o princípio de forma ou de matéria/energia (Ísis), produzindo o terceiro princípio ativo – a Consciência (Hórus), representado pelo falcão solar, que se ergue para as alturas, ao mesmo tempo que desce em vôo rasante como uma flecha na direção da presa.
Na mente profundamente imaginativa, simbólica e analógica dos egípcios, o falcão (Falco Peregrinus) era associado ao sol e ao movimento ascendente da consciência, devido a seu vôo preciso e às penas com brilho dourado à luz do sol. Para não ser percebido por suas presas, o falcão mergulhava, vindo da direção do sol, o que parecia aos egípcios que o vôo do falcão era o raio vivo do sol.
O correspondente hindu de Osíris era, de modo semelhante, o destruidor das formas, para produzir a eterna renovação da vida. O aspecto destrutivo de Shiva (Rudra) e o aspecto destrutivo de Kali-Parvati (Durgah) representavam a morte como parte do processo de renovação da vida.
No Egito, o aspecto destrutivo da grande mãe era personificado pela deusa Sekhmet e o aspecto destrutivo de Osíris era personificado pelo deus do caos (Seth).
Essa dinâmica de interação de deuses e deusas está intimamente ligado à kundaliniologia ou à ascensão da energia criadora pelo eixo central da coluna vertebral (Sushuma), provocando a expansão da consciência.
Nas antigas tradições este era chamado o caminho da serpente, representado pela serpente dupla que ascende em espirais pelo caduceu e adquire asas ao chegar ao topo.
O caminho alternativo era o caminho da águia, representado pelo culto de Rá no antigo Egito e pelas escolas Sânkhia e Vedanta na Índia. Por estes caminhos a consciência se desenvolvia por seu próprio esforço de reflexão, assimilação, meditação e iniciação.
A energia, neste caso, e o desenvolvimento dos Sidhis (poderes) ocorriam como conseqüência natural da expansão da consciência.
Na antiga Grécia, esses dois caminhos também existiam sob a denominação de caminho apolíneo e caminho dionisíaco, sendo o primeiro o caminho da razão, da austeridade e da reflexão. O segundo era o caminho de êxtase e do entusiasmo. A “deusa” Pallas Athena era a personificação feminina do primeiro caminho. E Vênus-Afrodite personificava o aspecto feminino do segundo caminho.
No caminho de Ísis-Osíris, ou Shiva-Shakti, ou ainda Dionísio-Afrodite, a energia é o bloco de empurrão para a expansão da consciência, que é conseqüência da elevação da “Serpente” (energia primária) aos níveis mais elevados e depurados, numa espécie de alquimia interior.
Ambos os caminhos levam à realização do potencial humano, se corretamente trilhados, ao mesmo tempo em que ambos podem degenerar, caso sejam mal compreendidos, ou mal aplicados.
O primeiro (o caminho da serpente) pode degenerar em orgias, delírios e pretextos para a gratificação dos sentidos.
O segundo (o caminho da águia) pode degenerar em inflação de ego e estéril intelectualismo esotérico.
Quando bem compreendidos e bem aplicados, ambos podem nos levar a um alto grau de realização, embora o caminho da serpente dependa da inserção do praticante em um ambiente natural, onde possa captar e descarregar energias para o meio natural, em contato com a relva, a terra, as águas, o fogo e os ventos.

Devido ao distanciamento ocorrido entre o homem e a natureza, o caminho da águia parece mais adequado ao homem moderno, menos perigoso em seus efeitos colaterais e na eventualidade de queda ou de desvio.