A questão sobre a divindade imanente existir no âmago de toda a manifestação está relacionada à complexa e intrincada relação entre o Uno e os muitos: à forma com que a Unidade se manifesta na diversidade.
As teologias ocidentais jamais entenderam (ou não quiseram entender, por questão de conveniência) a imanência da presença divina no âmago essencial do ser e preferem colocar essa questão como se a presença divina viesse de fora, em um ato de conversão religiosa e “entrasse” no coração do homem de fora para dentro.
A grande tragédia da teologia cristã ocidental foi ter perdido a noção da imanência divina no âmago de todas os seres e ter colocado Deus em algum lugar alhures, talvez sentado em um trono em um remoto recanto do firmamento, mas sempre distante.
A Igreja Ortodoxa admite a realidade do Espírito Santo como a presença divina em nós, embora o credo católico e o protestante entendam o Espírito santo como algo que vem de fora e de alguma forma penetra em nossa consciência.
Dessa forma, é distorcido o dito de Jesus “O reino dos céus está dentro de vós”. Ou o dito de Paulo de Tarso “Cristo em vós é esperança de glória”.
No próprio judaísmo, cuja herança transmitiu essa filosofia dualista para a religião cristã, foi criada a figura da Shekinah, como a presença divina intrínseca em cada criatura, algo a ser despertado e não algo de fora que penetra no coração humano.
Temos de reconhecer, porém, que o tema da presença divina imanente no âmago do ser é algo de uma sutileza metafísica muito elevada e que, em algumas ocasiões, deve-se desculpar os excessos de simplificação, desde que não tragam distorções aos ensinamentos originais.
A questão traz complicações em ambas as premissas: Alguém poderia indagar: se existe a presença divina no âmago de todos os seres, como se pode entender tanta maldade e egoísmo no mundo? A resposta está no fato de que a presença divina existente no âmago mais profundo de todos os seres não tem imediato controle sobre seus corpos existenciais. Cada um dos corpos (físico, astral e mental) tem sua própria consciência automática e elemental e, nas primeiras etapas da evolução, essas consciências nunca estão alinhadas e controladas pela consciência espiritual do Ser.
Nesse emaranhado de consciências em conflito, a consciência espiritual demora a se fazer ouvir pela alma vivendo em seus corpos densos ou sutis, cada um deles dotado de consciência própria.
Numa passagem do Evangelho apócrifo de Tomé, Jesus manifesta sua admiração diante de tão grande contradição da natureza humana: “Como é que tamanha glória foi fazer sua morada em tamanha miséria?”
No Maitryia Upanishad, há também uma riquíssima passagem ilustrativa sobre esse profundo tema: “Como dois pássaros pousados à luz do sol, o Atmã e o Eu inferior compartilham o mesmo galho: O primeiro, um pássaro efêmero e morredouro, saboreando os frutos doces e amargos da árvore da vida. O outro, imortal, tudo observando em seu distanciamento, colhendo a essência das experiências de seu companheiro e elevando seu canto à luz imaculada do Sol (Savitur)”.
Na tradição egípcia, as preces eram sempre feitas na primeira pessoa, pra servir de elemento de auto-recordação, ou de amplificadora da consciência: “Eu sou Osíris, Um-Nefer, que foi chamado perfeito diante dos deuses”.
A afirmação prematura da divindade do ser em seu âmago e essência nem sempre é adequada e útil para nosso progresso espiritual, podendo ser causa de vaidade, inflação de ego e auto-suficiência.
Por isso não é correta a afirmação “Eu sou Deus”. O mais adequado seria dizer “Deus vive em mim”, ou” vive através de mim”, “ou vive no fundo do meu ser”.
O que há de mais prejudicial nesse conceito de divindade imanente, quando concebido de forma distorcida, prematura e imatura, ocorre quando a pessoa se convence da presença divina em si, mas não a percebe nos outros.
Quando a percepção é correta e equilibrada, ao perceber a presença divina em si, ele a percebe imediatamente em todos os outros seres também.
Então tudo se torna sagrado. Como pode fazer mal a alguém se reconhece a presença de Deus nessa criatura? Como poderia deixar de auxiliar a alguém se percebe nessa criatura a presença da divindade? Como podemos ter um inimigo se percebemos nele a presença divina?