RESSURREIÇÃO, VERDADE OU MITO ?

A ressurreição é a crença de que, no dia do juízo, as almas dos mortos retornarão a seus corpos, que ressurgirão glorificados, para viver eternamente no paraíso terrestre.
Essa crença, originária de um antigo dogma dos hebreus, foi, mesmo naqueles tempos antigos, motivo de polêmicas e conflitos, visto que fariseus e zelotes acreditavam na ressurreição, e os saduceus não.
Enquanto toda a Ásia crê na reencarnação em corpos sucessivos, as chamadas religiões reveladas (judaísmo, cristianismo e islamismo) ensinam a doutrina da ressurreição física no dia do Juízo, conforme consta no Credo de Nicéia: “Creio na ressurreição da carne e na vida eterna”.
O grande problema na análise dos temas religiosos dentro das teologias ocidentais é o grande despreparo para lidar com o ensino simbólico e analógico que é o método usual adotado por todas as tradições.
Os teólogos ocidentais sempre tiveram a pretensão de extrair verdades literais das escrituras sacras e influenciam seus fiéis nesse sentido, propagando o tipo de visão religiosa denominada fundamentalismo, que é a crença no ensino literal.
Antes de adotarmos uma posição crítica em relação a essa abordagem dos temas religiosos, devemos nos colocar na posição dos teólogos, sacerdotes e pastores das diversas religiões e seitas ocidentais. Se a interpretação dos textos for totalmente liberal, como propunha Lutero, surgirão interpretações fantasiosas e distorcidas.
A vaidade humana fatalmente levará falsos líderes a criar variantes de interpretações com o objetivo de criar cismas, consolidar seu domínio sobre os fiéis e produzir suas próprias hordas de seguidores alucinados e fanáticos.
O fundamentalismo e os dogmas visam, em parte, fechar as portas a esses surtos de delírio religioso. Em contrapartida, cristalizam o ensino religioso, fixando padrões de crença, que se tornam obsoletos e incompatíveis com o avanço da consciência humana.
Há uma profunda verdade oculta no âmago do ensino da ressurreição, embora seja absurda e inverossímil a crença de que os mortos ressuscitarão em corpo físico.
Isso traria problemas absolutamente insolúveis: Como seria a ressurreição dos padres jesuítas devorados por índios canibais no início da colonização brasileira? E os que morreram carbonizados em incêndios? E aqueles cujos corpos foram incinerados e as cinzas atiradas ao mar? E os cristãos devorados pelos leões no Coliseu Romano? Como poderiam ressuscitar os astronautas da Challenger, que tiveram seus corpos desintegrados no espaço? E os pescadores devorados por tubarões? De onde sairia a matéria para a recriação de seus corpos? E os que nasceram e viveram em corpos aleijados, faltando membros, como os filhos da vítimas da talidomida?
Obviamente chega a ser grotesca, absurda e inverossímil a cena de covas se abrindo, e corpos de defuntos surgindo ressuscitados. E o surpreendente é a enorme quantidade de pessoas instruídas que acreditam firmemente nesse conceito literal de ressurreição.
Não obstante, existe uma profunda verdade na idéia de ressurreição, vestida pelas roupagens da alegoria e do símbolo.
Os primeiros sábios que discorreram sobre o tema da ressurreição pretendiam falar sobre o destino final da alma humana, após transcorrido todo o seu processo de maturação e desenvolvimento.
A ressurreição é a visão escatológica sobre o destino final da alma e da matéria com que se reveste. O conceito de ressurreição abstrai a noção de Processo ou de Evolução. Essas são noções muito avançadas e recentes, incompreensíveis para o homem antigo.
Não se poderia falar sobre a noção de Processo para o homem antigo, da mesma forma que não se poderia falar sobre física quântica nem mesmo para os mais avançados atomistas da filosofia grega. Faltariam referenciais intermediários que impediriam a compreensão. Por isso os adeptos da ressurreição lançaram uma visão do destino final da alma humana, mas não tocaram na questão do processo necessário para se alcançar tal objetivo.
Com isso, os teólogos fundamentalistas ligaram a visão futura à situação presente, criando um abismo entre os dois estados.
No final do processo de crescimento da alma humana, quando o ser humano for reintegrado à sua fonte essencial de ser, a matéria de seus corpos será iluminada na mesma proporção da iluminação de sua consciência. Após a transcendência, o ser humano perfeito viverá em corpos de luz perfeitos e glorificados (não em corpos de matéria física).
O Professor Huberto Rohden ensinava que a matéria, por ser lucigênita (nascida da luz) será lucificada (voltará à luz) tal como aconteceu com Jesus transfigurado no Monte Tabor. A ressurreição de Jesus é uma amostra antecipada do que ocorrerá com toda a humanidade, “quando todos os seres humanos atingirem a estatura do Cristo”, como dizia Paulo de Tarso.
A vida do Cristo, da manjedoura do estábulo (emergindo do reino animal) à sua subida aos céus (transcendência completa da condição humana), representa a jornada humana total ao longo das eras, passando por todas as etapas.
A salvação é outro conceito que, entendido de forma literal, perde grande parte de seu significado. Em seu sentido pleno, representa a completa realização do potencial humano e jamais uma espécie de concurso vestibular em que a alma se qualifica para ir ao eterno paraíso ou recebe a danação eterna, em caso de reprovação.

As grandes verdades do espírito são transmitidas em forma simbólica exatamente para poder ser flexíveis o bastante para tomarem o formato de cada consciência e se expandir em profundidade e riqueza de significados, à medida que se amplia a compreensão humana.