SERIA VÁLIDO SE FALAR DIRETAMENTE SOBRE A TRADIÇÃO-SABEDORIA?

Se um antigo sacerdote egípcio ou caldeu viajasse no tempo e surgisse em nossa era, ficaria chocado e horrorizado com a maneira direta e abrupta como é exposto o ensinamento sagrado.
Para os antigos, o ensinamento era algo tão sublime e misterioso, que somente se poderia aludir a ele em linguagem velada, indireta e simbólica. E quase sempre dentro de um contexto ritual.
Mesmo que quisessem, não dispunham de palavras e linguagem para exprimir, com exatidão esses conceitos relacionados com o aspecto transcendente e oculto da vida.
O ensinamento estava totalmente inserido dentro dos símbolos, mitos e ritos, sendo aberto gradativamente, à medida que crescia a compreensão do estudante, e tendo uma expansão mais intensa e acentuada, a cada nível de iniciação alcançado.
A forma descritiva, racionalizada e textual com que o ensinamento é apresentado nos dias de hoje seria vista como um sacrilégio e como uma violência mental em relação às pessoas que não alcançaram o estágio de maturação necessário à absorção do ensinamento.
Todavia esses ilustres sacerdotes viajantes do tempo estariam tão equivocados em seu julgamento, quanto nossos historiadores estão enganados ao avaliar os povos antigos à luz de nossos valores atuais.
Cada época tem sua própria ambiência e sua própria didática. O que é adequado para determinada época histórica pode não o ser para um outro período.
A época atual é destinada ao desenvolvimento dos atributos da mente lógica, analítica e concreta. A linguagem descritiva é destinada ao desenvolvimento do raciocínio e da capacidade de se formularem abstrações diretas sem o recurso de analogias. Realmente, não é a forma ideal de se transmitir uma sabedoria tão sutil e elevada, mas é a única possível para os padrões atuais de nossa civilização. A própria percepção da insuficiência da mente, para tratar de questões tão elevadas, abre as portas de novos canais de percepção. A mente começa a superar suas limitações ao percebe-las. É o primeiro passo.
O exercício da percepção simbólica e analógica é excelente e ajuda a desenvolver a intuição, mas não é a tônica de nossa época. Nossa época certamente não é a ideal para a atividade reflexiva e para a assimilação intuitiva da sabedoria perene. Por outro lado, é uma época de democratização, liberalização, disseminação e universalização das idéias.
As grandes verdades da vida estão ao alcance de todos nas livrarias e na Internet. No passado, essas mesmas verdades estavam ocultadas nas criptas sombrias dos templos de mistério.
Nunca as idéias circularam com tanta liberdade, e nunca houve tanta facilidade para acesso ao saber. Essa é a grande vantagem do nosso tempo, para efeito de aquisição de conhecimento.
A contrapartida (o lado negativo) é a vulgarização, irreverência, massificação e reducionismo aplicado ao grande conhecimento, com predominância da quantidade sobre a qualidade.
Precisamos ver todos esses aspectos simultaneamente com uma visão imparcial, para não cairmos em lamúrias inúteis sobre a característica do nosso tempo.
Não temos (pelo menos por agora) outro mundo nem outra época para viver, portanto temos de atravessar este tempo da melhor forma possível.
O segredo está em ler (ou ouvir) o ensinamento, sabendo captar não somente aquilo que foi dito ou escrito, mas sobretudo o que está nas entrelinhas.
O que não é dito é muito mais importante do que aquilo que é dito, pois tudo o que for dito serve apenas como indicativo. É apenas um dedo apontando para a luz.
Esse é o motivo pelo qual nada que seja lido ou escrito pode sensibilizar certas pessoas para esses altos assuntos, enquanto não chegar o momento de elas perceberem por si mesmas.
Existem também aquelas que somente absorvem esses temas no nível verbal, sem deixar que toquem suas vidas em profundidade.
Esse delicado tema é abordado com maestria nas narrativas do budismo. Contam que, quando Buda atingiu a iluminação, decidiu passar o resto de sua vida meditando debaixo da figueira, dizendo para si mesmo: “quem já viu não precisa que eu lhe mostre o caminho. E quem não viu, de nada adiantará minhas palavras”.
Então os devas (anjos) lhe apareceram e disseram: “Há, porém, aqueles que têm apenas um pouco de fumaça nos olhos. Esses são inumeráveis. É para eles que o Tathágata deve ensinar o Dharma”.