Em nosso livro anterior, Lampejos, conceituamos a meditação como o ato de afastar da mente aquilo que não é, para que, no vácuo deixado por aquilo que não é, possa aflorar aquilo que é.
Uma concepção negativa sobre a meditação é mais adequada do que uma concepção positiva, porque evita a fixação conceitual. Não define “aquilo que é”. Apenas evidencia a necessidade de se eliminarem os resíduos da mente, criando um vácuo para o afloramento daquilo que é.
Todas as técnicas e caminhos usados na meditação são meros agentes indutores e catalisadores, que, por si mesmos, não podem produzir a meditação, embora possam criar condições propícias para que ela aconteça.
Meditação não é algo que se faz. É algo que acontece. Mas não acontece por acaso. Nem acontece quando ou porque queremos que aconteça.
Acontece dentro de determinadas condições de equilíbrio, maturidade, amplidão mental, universalidade, sentimento e senso de unidade e conexão de todos os seres viventes.
As quatro formas básicas de Yoga se referem aos quatro caminhos de meditação, destinados aos três temperamentos básicos humanos:
1 -Volitivo |
Vontade |
Concentração |
Raja Yoga |
2 - Afetivo |
Amor |
Devoção |
Bakti Yoga |
3 - Intelectivo |
Inteligência |
Compreensão |
Jnana Yoga |
4 - Ativo |
Ação solidária |
Caridade |
Karma Yoga |
Nenhum desses caminhos e nenhuma dessas práticas podem, por si só, levar à meditação e muito menos à realização.
Esses caminhos são formas de sistematizar, direcionar e consolidar a experiência humana dentro de determinadas linhas de desenvolvimento compatível com o temperamento do praticante. Quanto mais avançados forem a senda e o estágio de evolução do candidato, mais essas linhas de desenvolvimento se convergem e se aproximam.
Em todos os casos, é necessário esmerar a conduta ética e integrar os níveis existenciais físico, emocional e mental, que compõem a personalidade humana.
Todas as quatro modalidades citadas de Yogas têm um traço em comum: levar ao auto-esquecimento, colocando a tenção plena no presente ativo.
No caso da Raja Yoga, a concentração é tão forte no objeto focalizado, que não sobra espaço na mente para se pensar nos desejos mesquinhos e insignificantes do ego pessoal.
No caminho do amor, a devoção pela divindade ou pela pessoa amada é tão intensa, que o ego deixa de existir. Tudo o que importa é o ser amado. O ego desaparece diante dessa imensidão do amor.
No caminho da mente, tudo o que interessa é a compreensão daquilo em que a mente se foca.
O interesse da mente pela solução ou pela compreensão do problema é tão forte, que o ego desaparece diante do êxtase do saber.
E, finalmente, no caminho da ação, a dedicação ao serviço e ao outro é tão intensa, que não resta lugar para o ego, pois a única preocupação é servir.
Qualquer que seja o caminho e o temperamento, todos convergem para o mesmo ponto: a preocupação está focada em alguém ou em algo, e não em si mesmo.
Quase sempre a meditação, em suas fases iniciais, necessita de um suporte ou de uma semente (Bija). Com o tempo, a semente pode ser abandonada.
Esses recursos visam tirar o foco da mente dos interesses mesquinhos do próprio ego, direcionando esse foco para temas, seres, objetos ou símbolos associados à meditação. No fundo, isso não passa de um recurso para esvaziar o ego, tirando a atenção de si mesmo.
Esses recursos auxiliares devem ser escolhidos de acordo com o temperamento e as particularidades de cada pessoa. Devem produzir um estado de sensibilidade que ativem a sensibilidade e o interesse.
Não devemos esquecer que o uso desses recursos representa apenas um estágio intermediário, até estarmos completamente maduros e focalizarmos espontaneamente a atenção, de forma impessoal e, ao mesmo tempo, intensa e afetiva na fonte essencial do ser, onde o encontro de si mesmo leva naturalmente ao encontro com todos os outros.