Cada tipo de religião usa um diferente tipo de “apelo” para capturar, manter e sensibilizar seus fiéis.
O ser humano é uma criatura frágil, ambiciosa e carente de meios físicos, afetivos e psicológicos. Ao mesmo tempo em que as religiões fornecem esses meios necessários à condição humana, há também um fator de exploração e de controle. É dúbio o trabalho desenvolvido pelas religiões. Há certamente desvios e sombras, mas os benefícios superam os malefícios. O mundo seria pior sem as religiões. O ser humano, por si só, ainda não tem a capacidade de elaborar as questões espirituais. Envolvido pela árdua luta pela subsistência, o homem não tem tempo, interesse ou maturidade para elaborar esses assuntos complexos e de essencial importância. Por isso, necessita “seguir” algo ou alguém. E “seguindo” torna-se também presa dos espertalhões que fazem da religião um negócio e uma forma de domínio psicológico e social.
Esse é um problema inevitável que só desaparecerá quando a humanidade atingir alta maturidade e desenvolvimento de seu potencial.
Até que isso aconteça, tudo o que podemos fazer é compreender em profundidade os diferentes tipos de apelos e vínculos criados pelas religiões.
Todas as religiões primitivas utilizavam o apelo de Permuta. Os homens ofereciam sacrifícios aos deuses e recebiam, em troca, as chuvas, a colheita, a prole, a cura das doenças, a caça e a vitória nos combates. O sacerdote ou xamã era aquele que oficiava os sacrifícios aos deuses para que a coletividade recebesse os benefícios que eram a contrapartida dos sacrifícios oferecidos.
O lado positivo dessa forma de religiosidade era a noção de que a subsistência dependia de sacrifícios e de que havia uma reciprocidade em toda a natureza. O lado negativo, os extremos a que chegavam os sacrifícios, freqüentemente sangrentos; não raro, eram oferecidos sacrifícios humanos aos deuses, o que produzia uma cultura sanguinária de crueldade e desrespeito à vida humana. Essa era a religião de praticamente todos os povos primitivos, (nem sempre chegando a tais extremos) incluindo das culturas avançadas, como a dos astecas, maias e incas.
A evolução dessa forma primitiva de culto evoluiu para as religiões de servilismo.
Nesse caso, em vez dos sacrifícios eram feitos cultos sofisticados e rituais complexos, como festivais e procissões. O sacerdote oficiava os ritos com a finalidade de manter a conexão com a ordem divina, evitando o caos, a escassez e a destruição. O sacerdote dominava também todo o conhecimento disponível na época, atuando como uma espécie de adivinho, mago, médico e conselheiro.
Essa era a religião dos antigos egípcios, babilônios, etruscos, assírios, hititas, gregos, semitas, chineses, celtas, germanos, eslavos e outros povos mediterrâneos.
Um outro tipo de religião da antiguidade era o conjunto de crenças e filosofias que usavam o apelo da libertação. Essas crenças percebiam a vida humana como um ciclo de sofrimentos, ignorância e carma, do qual só poderia se libertar através de uma iluminação que transformasse sua consciência e colocasse o ser humano fora desse ciclo de idas e retornos à matéria física. Todo esse conjunto de religiões acreditava no processo de reencarnação, mas não tinha uma clara noção da evolução que se processava através nas encarnações.
Entre essas crenças, podemos citar o maniqueísmo, hinduísmo, budismo, jainismo, taoísmo, confucionismo, orfismo e o gnosticismo neoplatônico e cristão.
No Ocidente, existe um conjunto de crenças similares às anteriores, denominadas religiões messiânicas ou reveladas, que usam um tipo de apelo diferente – o apelo da salvação.
Trata-se do Judaísmo, do Cristianismo e do Islamismo. Em conjunto, esses sistemas de crenças abarcam mais da metade da humanidade. A diferença entre essas crenças e as religiões da libertação é que as religiões da salvação não acreditam em reencarnação e têm uma noção de tempo linear, enquanto aquelas acreditam no tempo cíclico.
O cristianismo, o judaísmo e o islamismo ensinam que há somente uma existência no corpo físico e que essa existência única definirá o destino da alma para toda a eternidade, qualificando-a para a salvação ou condenando-a à danação eterna.
O quinto de apelo que podemos relacionar é o apelo do evolucionismo, que consiste em melhorar gradativamente as qualidades e desenvolver o potencial humano, sem grande preocupação escatológica (preocupação com o destino final da alma).
Essas crenças partem do pressuposto de que o processo existencial é essencialmente benéfico e todas as almas serão salvas, ainda que passem por caminhos tortuosos e quedas, que terão retificações cármicas dolorosas, porém direcionadas para o crescimento humano.
Essas crenças são todas baseadas em uma expansão gradual das potencialidades humanas, envolvendo os aspectos éticos, afetivos, intelectuais, artísticos, sociais, ecológicos e espirituais.