Quando se fala das antigas tradições da Religião-sabedoria, estamos nos referindo aos sistemas religiosos vedantino, tântrico, yogue, budista, lamaísta, taoísta, caldeu, egípcio, cabalista, druídico-celta, grego-órfico, grego-pitagórico, grego-neoplatônico, alquimista, gnóstico-cristão, rosacruz, teosófico, maçon e muitos outros.
Essa forma de pensar e perceber o mundo era comum na antiguidade e em alguns bolsões dos tempos modernos.
O distanciamento que ocorreu entre a modernidade e essas tradições da sabedoria perene decorre do fato de a humanidade ter perdido a capacidade de pensar de forma simbólica e analógica, deixando de perceber a correlação direta entre os pequenos processos e imagens do cotidiano e os grandes processos que regulam a existência e o próprio cosmos.
Essa perda de contato com a Religião-sabedoria é um fenômeno típico do Kali Yuga (idade do ferro), no qual a humanidade tem a consciência mergulhada na densidade da matéria, adquirindo a dureza e a rigidez do ferro.
A humanidade atual julga os povos antigos de acordo com seus próprios valores e visão do mundo, vendo-os como “primitivos e supersticiosos”. Nossa civilização, com toda sua tecnologia, é incapaz de erigir um monumento como a esfinge de Gizé e muito menos de entender o significado de tal monumento, e menos ainda de compreender as motivações que levaram os homens antigos a tamanho esforço para erguer aquele colosso no Vale de Gizé.
Tamanha era a importância do poder simbólico em suas vidas, que os homens antigos não mediam esforços para erguer monumentos simbólicos que estabelecessem uma conexão harmoniosa entre o céu e a terra.
Poucos egiptólogos percebem que o conjunto formado pela esfinge e pela pirâmide de Gizé constituía um complexo integrado e sistêmico, fundamentado em leis de matemática cósmica, o que contradiz a absurda noção de que as pirâmides eram “túmulos dos faraós”.
Se cada faraó estivesse preocupado apenas em fazer sua sepultura, pouco se importaria com a posição relativa das demais estruturas. E qualquer faraó saberia que uma estrutura tão imensa visível e ostensiva atrairia a atenção de ladrões e seria inevitavelmente saqueada.
Em um texto do Corpus Hermeticum, há uma profecia que indica que os antigos egípcios possuíam uma visão mais precisa sobre os tempos atuais, do que a visão que temos hoje sobre a antiguidade:
“Virá um tempo no futuro, em que se julgará que o Egito honrou em vão a divindade com mente piedosa e assíduo serviço, e todo o seu sagrado culto será visto como inútil e vão. Restarão apenas palavras vazias gravadas na pedra, a fim de contarem seus feitos piedosos.
Quando essas coisas acontecerem, será a velhice do mundo, o reino da impiedade, a falta de compreensão de todas as coisas sagradas. E quando isso se tornar realidade, ó Asclépio, então, Nosso Senhor e Pai, o primeiro em poder, porá um fim a todos os males, quer levando-os de roldão em um dilúvio de água, ou então consumindo-os pelo fogo, para fazer o mundo retornar a sua forma antiga e as coisas recomeçarem de forma pura”.
Essa profecia comprova que a idéia do “Apocalipse” não é privativa da tradição judaico-cristã. É um arquétipo universal de destruição e reconstrução do mundo, sempre que os danos da civilização humana chegam a uma situação-limite, ameaçando a sustentabilidade dos sistemas de vida que compartilham o planeta.
Na visão petrificada e estereotipada da época atual, somos incapazes de perceber os “deuses” da antiguidade como os arquétipos dinâmicos da vida oculta da natureza, forças vivas e ativas, das quais o mundo natural é apenas um pálido e longínquo reflexo. Platão foi o filósofo que expressou essa noção com mais racionalidade e capacidade de transmiti-la ao homem moderno, embora tenha sido compreendido apenas parcialmente.
Platão ensinava que as coisas reais existiam no mundo dos arquétipos e que as coisas que vemos em nossa dimensão da realidade são pálidas sombras projetadas na parede de uma caverna.
É quase impossível entrar na mente recalcitrante dos “sábios” e teólogos da modernidade que a Criação é uma emanação do divino e a evolução é a jornada de retorno à fonte de onde tudo emanou. E operando esses dois movimentos de emanação e de retorno à fonte divina, existem as hierarquias cósmicas que os antigos chamavam de deuses. E também os enviados divinos que os antigos conheciam como Avatares, Messias, Jinas, Bodhisatvas e Zaratustras.
A petrificação da mente do homem moderno faz com que ele seja exclusivista em suas crenças. Para afirmar sua crença, tem de negar e denegrir as crenças alheias, transformando a religião em algo feio, mesquinho, competitivo, que acaba trazendo mais mal do que bem.
O homem moderno é absolutamente incapaz de entender que os antigos adoravam o Sol, não pelo sol físico, mas pela força divina e vital que dele emanava e pelo seu potencial simbólico. Eles percebiam que o sol físico era apenas um aspecto exteriorizado e visível de algo muito maior, que existia no mundo dos arquétipos (Topos Neothós).
O Sol era incorporado aos ritos de iniciação, no sentido de que o iniciado esperava que o Sol Divino do Ser brilhasse à meia-noite e encerrasse a escuridão da alma embriagada pelo torpor da materialidade e esquecida de sua origem no seio da luz, porque perceber nossa autonatureza é ver o sol à meia-noite e extinguir a escuridão da alma. É descobrir que nosso ser essencial é inseparável da Luz do Sol Divino, sendo essa a verdadeira natureza da iluminação.