A CAVERNA DO DRAGÃO

O tema da caverna do dragão é recorrente na mitologia e nas lendas de diversos povos, sob muitas variações – o labirinto com o minotauro, os abismos de Hades, guardados pelo  cão Cérbero e muitos outros.
Com todas as variações possíveis, a imagem sempre se refere a um lugar tenebroso, vigiado por algum tipo de monstro, aonde o herói tem de ir para buscar algum tesouro, ou salvar uma donzela indefesa.
Pela repetição constante desse tema, pode-se inferir que ele se refere a um arquétipo universal, comum a todas as sociedades humanas, variando somente de acordo com o matiz de cultura ou em função do contexto mitológico em que se encontra inserido.
Os temas comuns e universais da mitologia são expressões de arquétipos psicológicos da alma humana. Assim, os aspectos do mito da caverna do dragão são elementos constituintes de nossa psique.
A caverna, ou o lugar tenebroso, representa as profundezas obscuras do nosso inconsciente, onde se encontram as forças desconhecidas e os “monstros”.
Os monstros são partes de nossa mente constituídas por refugos psicológicos: aquelas partes de nós mesmos que não aceitamos e não queremos ver. Ou ainda, as tendências obscuras da mente, provenientes de padrões genéticos ou de predisposições atávicas e inconscientes, que não são assimiláveis pela mente consciente, por serem obscuras, primitivas, tenebrosas ou violentas em excesso.
O herói é a parte aceitável, idealizada e socialmente valorizada da psique, com a qual nos identificamos e pela qual somos valorizados e aceitos no meio social.
E a donzela ou o tesouro que está no fundo da caverna é nossa alma desconhecida, a síntese de todas as nossas “qualidades” e “defeitos” em uma unidade que transcende a ambos.
Tanto o “herói” quanto o “monstro” têm profundo interesse pela donzela, porque ambos são facetas fragmentadas de nossa alma, que sofrem por essa divisão e têm uma ânsia íntima e não conscientizada de integração e totalização.
A fragilidade da donzela significa que a “presença da alma sintética” ou a voz da consciência ainda é frágil e remota perante o ruído dos embates entre as forças superficiais da personalidade.
Na maioria dos mitos, o herói mata o dragão ou o monstro. Somente no mito egípcio, o dragão (Tifon ou Seth) sobrevive, embora tenha os testículos cortados por Hórus, o falcão solar, filho de Osíris, que luta para vingar a morte do pai e retomar o trono do Egito.
Seth, embora derrotado, não pode ser morto, pois é um dos deuses (uma das forças vivas operantes no universo). Hórus assume o trono do Egito, após a vitória, e Seth recebe o reino do caos, do deserto e das ondas revoltas do mar.
Na batalha, Seth perde seus testículos, o que significa uma limitação que deve ser imposta à reprodução do mal e do caos. E Hórus perde o olho esquerdo, significando a perda de parte da visão de totalidade, quando os princípios divinos se manifestam nesses densos mundos da forma.
Seth (o mal e o caos) torna-se limitado em sua capacidade de se expandir e reproduzir.
E Hórus, personificação do bem, da ordem e da justiça, perde a capacidade de ver a totalidade das coisas, sendo sua visão reduzida à metade, o que significa que, no plano das relatividades, até o bem é relativo, existe como uma reação ou uma oposição ao mal e precisa ser transcendido para que se venha a encontrar a razão absoluta.
O tema da caverna do dragão nos leva a refletir sobre os inevitáveis embates da vida e buscar nesses embates um sentido de transcendência e elevação espiritual.
É provável que seja esse o sentido da mensagem de Jesus sobre “devermos amar os inimigos”. É possível que essa exortação tenha um sentido que transcenda a lei do amor e do perdão, embora, sem dúvida, isso também esteja incluído, pois só através do amor pode-se assimilar o monstro e não apenas derrotá-lo.
A lenda da bela e a fera é uma variante desse mito, da mesma forma a lenda do sapo que adquire a forma de príncipe ao ser beijado pela princesa.
Com sua extraordinária percepção simbólica, os egípcios descobriram que não seria possível a derrota completa de Seth.
O fato essencial e mais profundo desses mitos é que o inimigo (o dragão da caverna) personifica uma faceta de nossa personalidade que está oculta e desconhecida, que temos de resgatar e reintegrar.
Nosso ego superficial nos engana ao nos levar a pensar que o herói vai à caverna para resgatar a donzela ou encontrar o tesouro, que são apenas a “isca”.
O verdadeiro objetivo é o confronto com o dragão. Esse confronto significa os esforços de assimilação entre duas forças que estabeleceram uma oposição e um ódio recíproco.
O “herói” odeia o dragão por ele ser um aspecto abjeto e repulsivo de sua natureza, que gostaria de evitar e ignorar, para preservar sua auto-imagem e seu elevado conceito social.
O dragão odeia o herói por este o ter rejeitado e obrigado a morar numa caverna escura e repulsiva, enquanto o herói desfruta da luz e dos prazeres do palácio suntuoso.
Como o herói jamais sairia de seu palácio de cristal para se encontrar com o dragão (que é uma parte de si mesmo), aquilo que é mais precioso para o herói (a donzela ou o tesouro) é seqüestrado e colocado em posse do monstro, para que o herói se disponha a resgatá-lo.
A separação do herói dessa preciosidade significa que, embora ele tenha quase tudo, não tem o que é mais importante: a integralidade de sua alma – parte dela está alienada e oculta na caverna do dragão.

A tríade formada pelo herói, o dragão e o tesouro (ou a donzela) é um relato mítico do estado de fragmentação da alma humana e dos esforços inconscientes que são feitos para corrigir essa fragmentação e encontrar a síntese indispensável para o crescimento.