DRAMATICIDADE E RELIGIOSIDADE

Haveria necessidade de tanta dramatização nas religiões?
A experiência histórica parece indicar que sim.
Mesmo que não seja uma necessidade absoluta, parece que o ensino religioso precisa provocar uma catarse purificadora na alma humana, e o drama (ou a tragédia) se apresenta como o único meio para conseguir esse efeito.
Muitas vezes, os dramas são exagerados, como no caráter escatológico e apocalíptico do cristianismo, levando a um medo doentio do inferno ou o desespero pelo final dos tempos. Ou ainda, nas experiências dos flagelantes cristãos medievais ou do Islã até os dias de hoje, em que o sofrimento é autoproduzido para provocar purificação e expressar arrependimento.
O próprio martírio do Cristo é um drama de fortes efeitos catárticos para a purificação da alma humana. Um drama que comporta muitas interpretações. Pode ser visto simplesmente dentro da idéia de salvação vicária, em que o Cristo sofre para salvar a humanidade do pecado. Pode também ser entendido como uma iniciação individual do Cristo que, atingindo um alto estágio de realização espiritual, através do sacrifício, abre as portas dessa realização para toda a humanidade.
Parece que o ensinamento do Cristo se revestiu de intensa dramaticidade para funcionar como antídoto da fria e racional região olímpica greco-romana e da ritualizada e literal religião judaica. Essas religiões já tinham cumprido seu ciclo de ascensão e estavam estratificadas e formalizadas, com diminuta capacidade de galvanizar a alma humana, criando um imenso vácuo religioso em um mundo que havia se tornado integrado e cosmopolita, devido à expansão do império romano.
A experiência de catarse através de tragédias, dramas e sacrifícios não é exclusiva do cristianismo.
No antigo Egito, existiam os mistérios de Osíris, em que as duas irmãs (Ísis e Neftis) pranteavam o rei morto e esquartejado por Seth. Esse fato mitológico era representado em sacrifícios públicos em que milhares de mulheres choravam seus mortos (identificados com Osíris) e quebravam vasos com sacrifícios.
A tragédia grega era também representada com uma finalidade deliberadamente catártica.
Ésquilo introduziu a tragédia no teatro grego como uma forma de popularização dos mistérios que, mesmo perdendo sua profundidade e eficácia, beneficiaria o maior número possível de pessoas, ao contrário das iniciações de Elêusis, que eram fechadas e seletivas.
O espírito democrático e populista dos gregos sempre buscava no Egito as fontes do sistema iniciatório, mas os gregos sempre tiveram dificuldades para lidar com o caráter seletivo e hermético dos mistérios, embora soubessem que uma divulgação excessiva levaria à vulgarização, o que de fato aconteceu.
Este sempre foi o grande dilema das instituições de mistérios: a escolha entre o hermetismo seletivo e segregador ou uma massificante vulgarização.
Pouco se sabe acerca dos mistérios de Elêusis, mas um fato certo e comprovado é que consistia de cinco ciclos ritualizados: preparação, instrução, purificação, catarse e apoteose.
Nas tradições ocidentais, o drama, o sacrifício e a conseqüente catarse sempre estiveram presentes. Parece que, sem a dramatização, a religião se torna apenas algo intelectualizado e estéril, sem a capacidade de sensibilizar e de mobilizar as almas.
As religiões orientais, como o budismo, o taoísmo e o hinduísmo são menos dramáticas por se basearem mais em uma busca introspectiva do que na transmissão oral ou ritual, como as religiões do Ocidente. O budismo é uma religião sem Deus, baseada em preceitos morais, na sabedoria e na meditação. Todavia o budismo teve origem em uma visão de Buda sobre o sofrimento humano, suas causas e sobre os meios para se eliminar essas causas.
A religião de Krishna é uma religião de celebração e felicidade, com cantos e euforia. Todavia o próprio Krishna morre em circunstâncias dramáticas na batalha de Kurukshetra, atingido por uma flecha, indicando que mesmo os grandes instrutores devem se sacrificar, após terem cumprido sua missão, para recordar aos seres humanos que o ego deve ser sacrificado e desprovido de suas amarras.
O ser humano é capaz de gestos de grande sacrifício e de renúncia. É capaz de suportar dores atrozes e de fazer obras de sobre-humana superação, desde que isso toque seus corações e preencha suas vidas de significado.
A religião jamais pode ser apenas racional. A racionalidade na religião é necessária para organizar o pensamento e dar coerência e propósito, mas é pelo coração que as almas são motivadas e aquecidas.
O drama é uma forma de tocar o coração das pessoas, acendendo os fogos do espírito.
Obviamente, quando as almas imaturas são tocadas por esse fogo, o resultado é a insanidade e o fanatismo, mas, mesmo assim, isso tem sua utilidade. Sem esse fogo, talvez não se cometessem insanidades e desatinos, mas seriam almas apáticas, levando existências apagadas e exploradas.

Os mestres espirituais da humanidade são grandes pedagogos da alma humana. Não são apenas professores que vêm ao mundo para explicar ou ensinar no sentido intelectual do termo. Seu propósito é produzir uma alquimia de transformação na alma humana, e, nesse sentido, o drama é indispensável para transmitir a noção do sacrifício.