Já foram gastas muitas toneladas de papel e tinta, além de infinitas horas de estéreis discussões teológicas acerca da natureza de Jesus. As eternas polêmicas e dúvidas se Jesus é Deus, filho de Deus, ou se é um mestre de sabedoria, se tinha um corpo denso ou fluídico e coisas afins.
Todas essas discussões seriam esvaziadas se no Ocidente fosse conhecida, com maior clareza, a doutrina dos avatares. A palavra “avatar” provém do sânscrito e tem a mesma raiz do verbo vir, significando “aquele que vem em nome de Deus”.
Os hindus têm uma clara noção dos avatares e sabem que Krishna e Buda são avatares de Vishnu, o segundo Logos que representa o Amor Universal e a compaixão divina por todos os seres que sofrem na “roda do sansara”.
Há um episódio na narrativa evangélica que se encaixa perfeitamente na doutrina dos avatares: a visita do três magos na natividade.
A palavra “mago” representa os sacerdotes-astrólogos persas do culto Zoroastriano renovado, denominado Mitraísmo.
Havia uma profecia entre os persas que previa o nascimento do décimo-segundo Zaratustra (o nome com que os persas designavam os avatares).
Há um aspecto lendário e poético na visita dos magos, que ofereceram ao menino Jesus o ouro, o incenso e a mirra. Mas há ainda um outro aspecto mais importante, que geralmente passa despercebido: Os magos vieram de fora da tradição messiânica hebraica, o que demonstra que o nascimento do messias era um evento universal, não restrito à religião ou à nação judaica. Eles foram verificar se Jesus era mesmo o décimo-segundo Zaratustra. E, pelo que se pode inferir da narrativa, parece que concluíram que sim.
E demonstra também que os persas (ou qualquer outra tradição de onde poderiam vir os magos) tinham uma visão religiosa mais universalizada do que os judeus. Será que os judeus, que se julgavam o povo eleito, admitiriam que o messias prometido pudesse nascer em outra nação e em outra tradição religiosa?
Os judeus esperavam um messias nacional que tivesse a força espiritual e libertadora de Moisés e reinasse como Salomão.
Todavia o mundo ocidental, unificado pela força militar da loba romana, não comportava mais “messias nacionais”. Esse tempo tinha passado. Muitos povos tiveram seus messias nacionais ou avatares locais.
Não damos muita importância a esses eventos porque somos herdeiros da religião judaico-cristã e supervalorizamos tudo o que ocorreu dentro deste contexto étnico-cultural-histórico e religioso.
Porém na antiguidade, muitos povos receberam seus avatares locais. Hermes Trimegisto (ou Toth), no Egito, Orfeu, Pitágoras e Apolônio de Tiana, na Grécia, Zoroastro, na Pérsia, Rama e Krishna, na Índia, Lao Tse, na China e diversos outros.
Nenhum povo pode ficar abandonado e seria monstruoso se algum povo ou algum indivíduo fosse condenado somente porque não teve a boa sorte de nascer entre o povo eleito.
Os avatares sempre vieram e sempre virão. O hindus afirmam que já fomos visitados por nove avatares mundiais e que o décimo ainda está por vir, sendo conhecido por Maytreia ou Kalki.
O avatar é exatamente um “filho de Deus” em sentido simbólico. É evidente que a expressão “Filho de Deus” é carregada de simbolismo, como tudo o mais no terreno religioso.
A falta de percepção simbólica faz com que as pessoas pretendam extrair verdades literais das escrituras, o que é um grande equívoco, embora compreensível, visto que o ser humano tem uma grande necessidade de certeza.
Para se supor que Jesus seja literalmente o filho de Deus, é necessário se pressupor que Deus seja um ser antropomórfico capaz de gerar um filho. Pouca gente na atualidade pode admitir a existência de um Deus antropomórfico.
O “Filho de Deus” representa uma comunhão ou realização, em que a natureza divina essencial de Jesus está plenamente conscientizada e realizada, em completa sintonia e ressonância com a Fonte da vida.
Assim são todos os demais avatares – seres que se tornaram divinos, porque realizaram e atualizaram sua natureza divina essencial (a mesma que existe em todos os demais seres, porém em estado de adormecimento) – “Lázaro não está morto, mas dorme”.
Os avatares são seres que restauraram sua natureza divina e não precisariam se encarnar nesses densos e sofridos mundos da forma, mas, devido à sua grande compaixão pelos que se debatem nas trevas, “descem aos infernos” para libertar as almas sofredoras e esquecidas de sua autonatureza.