A VERDADE VIVA

Todo estudante que se dedica à sabedoria perene deve saber a diferença entre a verdade viva e as especulações e ensinamentos teóricos, que, mesmo verdadeiros e provenientes de uma boa fonte, são meras indicações e orientações para o caminho.
São apenas o mapa e não o território. Ou usando-se outra analogia ilustrativa, são o dedo que aponta para a lua, e não a própria lua.
Confundir o mapa com o território que ele representa caracteriza um erro que leva ao embotamento e à acomodação, visto que o ensino meramente livresco e teórico não contém a enorme carga de vitalidade existente na sabedoria viva.
Uma das maneiras mais fáceis e imediatas de se distinguir um estudante voltado para temas teóricos de um estudante sintonizado com a sabedoria viva é justamente o nível de energia e vitalidade proporcionado pelo ensinamento.
Aqui não nos referimos ao entusiasmo ingênuo dos iniciantes, e sim à vitalidade madura, constante e estabilizada que transparece em quem encontrou o caminho e se abastece na fonte viva da sabedoria eterna.
Mesmo que seja uma pessoa calma, silenciosa e introvertida, o verdadeiro buscador terá sempre um fogo nos olhos.
Obviamente, cada um vai buscar na fonte o volume de sabedoria compatível com seu próprio recipiente. Imaginemos que o reservatório de sabedoria seja vasto como o oceano.
Quem for ao oceano com um copo encherá o copo... Quem for com um balde, encherá o balde... Porém nenhum buscador que encontrar essa fonte infinita voltará com o recipiente vazio.
Os livros e o saber transmitido por terceiros são úteis, à medida que despertam o interesse e ajudam a organizar o pensamento. Todavia o saber é estéril se não processado internamente e transformado em sabedoria viva. Sem isso, não passa de um saber morto, meras informações que preenchem a memória, mas não alimentam o espírito.
Não é fácil, em um ambiente já saturado de informações, estabelecer essa diferença sutil, porém de extrema importância.
Vivemos em uma era em que há uma gigantesca proliferação de dados, informações e conhecimento. Há pouco espaço para a sabedoria, pois esta requer reflexão, amadurecimento e introspecção. Ninguém pode ser sábio em meio à pressa, à correria e à velocidade do “processamento de dados”.
A sociedade moderna pode chegar, no máximo, à transformação da informação em conhecimento, mas, para chegar à sabedoria, é preciso escapar dessa correria desenfreada da vida moderna.
Até mesmo os mais elevados ensinamentos da sabedoria esotérica caem na vulgaridade, devido à pressa, à afobação e ao excesso de exposição. Esse conhecimento sagrado mistura-se com uma massa de informações de consumo rápido, sem dar tempo para a reflexão, elaboração e assimilação, que são a chave da sabedoria.
Estranha época. No passado, viajavam-se milhares de quilômetros, expondo-se a imensos riscos e desconfortos para buscar um conhecimento que hoje pode ser facilmente obtido na internet. Entretanto esse conhecimento é buscado e assimilado de forma frívola e superficial, perdendo a capacidade de despertar a sabedoria viva no coração de quem o busca.
Todo o conhecimento esotérico deve ser entendido como um dedo que aponta para a lua.
Deve-se olhar para a lua e não para o dedo. Tudo o que é dito ou escrito nesse terreno serve apenas para apontar para o indizível.
Na tradição cabalista, diz-se que todos os nomes de Deus são apenas fórmulas para se referir ao inominável.
A grande utilidade do ensinamento está em levar ao silêncio e à introspecção.
Quando escreveu A Doutrina Secreta, Helena P. Blavatzky tinha plena consciência desse fato. A Doutrina Secreta foi escrita numa linguagem capaz de ativar a intuição do leitor e provocar um “choque de magnitude”, uma visão da grandeza do plano divino, que está em desenvolvimento e do qual somos partes, mesmo em escala reduzida.
Muitos leitores lêem A Doutrina Secreta e afirmam não ter entendido nada. A obranão foi escrita para ser “entendida”, no sentido intelectual. Foi escrita para a intuição e não para a razão. Sua finalidade é despertar uma visão interna de um plano que as palavras são insuficientes para descrever.
Tudo o que é realmente importante no plano essencial está além das palavras e das descrições racionalizadas. É claro que é racional, mas situa-se numa razão superior à mente humana, porque envolve infinitas variáveis sendo processadas simultaneamente.
Por isso se diz que todas as verdades transcendentais só podem ser expressas através de paradoxos.