Há uma diferença entre conhecimento e sabedoria que é sutil, mas ao mesmo tempo gigantesca. Talvez algo parecido com a diferença entre um quadrado e um cubo.
O quadrado, obviamente, é o conhecimento. O cubo, a sabedoria.
O conhecimento tem, sem dúvida, sua utilidade prática e instrumental. Sem o conhecimento não seria possível se fazerem cirurgias, construir pontes, casas, computadores e outros engenhos que facilitam a nossa vida.
Porém o conhecimento que leva à fabricação de máquinas agrícolas e computadores é o mesmo que produz as armas de destruição que podem aniquilar a humanidade em poucas horas.
O mesmo conhecimento que permite a construção de fábricas leva à produção de toda a poluição que ameaça a vida no planeta.
O mesmo conhecimento que desenvolveu a tecnologia e melhorou nossa qualidade de vida, colocou todos os sistemas vitais do planeta em situação-limite e criou uma sociedade insustentável e exclusivista.
O conhecimento sem a sabedoria traz benefícios de curto prazo, mas seus malefícios são acumulativos e destrutivos a longo prazo. Agora esse “longo prazo” tornou-se curto prazo, porque os malefícios já se acumularam por séculos, e as conseqüências já estão a surgir nos desequilíbrios climáticos e sociais do planeta.
Esse risco já foi denunciado e difundido por todos os meios de comunicação há décadas, mas há, porém, tantos interesses envolvidos nessa questão que pouca coisa efetiva tem sido feita para solucionar os desequilíbrios.
Somente a sabedoria pode solucionar esses desequilíbrios, mas, em um mundo dominado pelo conhecimento, a sabedoria parece coisa de diletantes, boa apenas para ser exposta na escola dominical, ou lida nas horas de devaneio entre uma baforada de cigarro e uma dose de conhaque. Ou ainda para ser citada em palestras de sumidades em auditórios refrigerados, arrancando sorrisos e aplausos da platéia ávida por citações inteligentes e humorismo refinado.
De concreto, porém, quase nada é feito para incutir sabedoria nas decisões e ações de governantes e executivos de grandes corporações.
Há cerca de 2500 anos, Platão já defendia o governo dos sábios, como condição necessária para o equilíbrio do estado e para a felicidade dos cidadãos.
Mas qual é a importância de Platão em nossa sociedade aristotélica, em que tudo é classificado, ordenado e transformado em conhecimento?
Por que razão a Igreja medieval optou pelo conhecimento classificatório de Aristóteles em vez da sabedoria idealista de Platão?
Provavelmente porque Aristóteles era um gênio do conhecimento instrumental e classificatório, algo mais neutro, mais fácil de ser adotado, usado e manipulado, ao contrário da obra de Platão, que tinha validade e profundidade por si mesma. Que tinha vínculos com as escolas de mistérios e as iniciações, coisa que os teólogos jamais entenderam e muito menos absorveram.
Neste ponto de nossa reflexão, surge a inevitável pergunta: De onde provém o conhecimento? E de onde provém a sabedoria?
O conhecimento sempre provém de alguma fonte externa. Absorvemos o conhecimento tal como uma esponja absorve a água.
A sabedoria provém de nossa fonte interior do ser. É algo intrínseco que vem da síntese amadurecida de nossas vivências e reflexões.
O conhecimento não é necessariamente mau, mas é um atributo do ego pessoal. Está na periferia de nosso ser e pode ser usado para o bem ou para o mal.
A sabedoria é algo que flui do centro para a periferia. É algo que aflora no silêncio da alma e nunca pode ser usado de forma desarmônica .
Mesmo quando a sabedoria aflora de maneira brusca e aparentemente violenta, como no episódio de Jesus derrubando barracas e açoitando os vendilhões do templo, contextualmente, essa ação era sábia e procedente e estava inserida em um propósito maior, ilustrando que a consciência superior irrompe com vigor e força retificadora, quando os desvios de rota atingem uma situação-limite.
Concluindo essa síntese, podemos afirmar que o conhecimento é uma ferramenta do ego humano. Tal como o próprio ego, ele é um ótimo “servidor”, mas um péssimo “senhor”.