REFLEXÕES SOBRE
A INDIVIDUALIDADE DA FÉ

A questão da individualidade da fé provoca reflexões essenciais em um mundo globalizado e cada vez mais integrado, em que a ética das relações humanas adquire uma importância fundamental.
É válido, lícito, ético ou legítimo alguém afirmar a verdade de sua própria fé em detrimento da fé alheia?
Até que ponto alguém pode afirmar que seu “único caminho” tem alguma preponderância sobre o “único caminho” alheio ?
A afirmação usada por teólogos e sacerdotes de todas as crenças de que sua fé é o “único caminho” é um artifício de convencimento e de reforço da fé. Essa afirmação tem, porém, um conteúdo ético reprovável e muito prejudicial em termos de respeito humano, fraternidade e amor ao próximo.
Em outras palavras, aquela egocêntrica afirmação significa “você é importante para Deus e merece toda a felicidade e amor, desde que se submeta à minha fé. Caso contrário, mesmo merecendo todo o amor de Deus, você vai queimar eternamente no fogo do inferno, e eu vou desfrutar as delícias do meu paraíso, mesmo sabendo que você vai passar toda a eternidade chocando um carvão bem quente, afinal você tem toda a liberdade de escolher o único caminho, que, por coincidência, é o meu caminho”!
Nessa atitude, que expressamos de uma maneira caricata, para evidenciar a intenção e o conteúdo subliminar, transparece uma alta dose de intolerância e de projeção egocêntrica sobre a escolha alheia e a própria individualidade alheia, visto que nem sempre a fé é questão de escolha: uma pessoa que nasce, por exemplo, em um país muçulmano, filha de pais muçulmanos e dentro de uma cultura islâmica não teria, de fato, opção de escolha.
Seria possível um outro tipo de fé em que o crente, mesmo tendo completa convicção e dedicação à sua crença, é capaz de respeitar e validar a opção alheia?
No fundo, toda essas questiúnculas e atritos de natureza religiosa não passam de disputa de egos, cada qual pretendendo ser o dono da verdade e o agraciado por Deus.
Se observarmos em todas as crenças e religiões do mundo, as legiões de auto-entitulados “salvos“, eleitos”, “escolhidos” e “agraciados”, veremos que suas vidas continuam obscuras e centradas no próprio egoísmo, embora a religião, sem dúvida, proporcione um lastro de segurança e de estabilidade, além de impedir que se degradem em atividades vis e autodestrutivas.
É ambivalente o papel exercido pela religião na vida das pessoas. A religião é tão importante para cada indivíduo, que o simples fato de alguém seguir uma religião diferente abala sua convicção íntima de que sua crença é a verdade absoluta, o que gera um esforço de convencimento e conversão do outro, que nada mais é do que uma intenção de confirmar a vitória de sua própria crença, ou seja, um movimento do ego.
O esforço para catequese e conversão alheia, longe de representar um interesse pelo bem-estar e pela salvação do outro é uma luta de auto-afirmação: cada conversão representa uma vitória de minha crença sobre a crença alheia e um reforço de minha própria fé.
Uma motivação egoísta se esconde sob a cortina da religião. Se houvesse uma verdadeira preocupação com a salvação e com o bem-estar do outro, seria impossível ocorrerem guerras e perseguições religiosas.
Os conflitos religiosos demonstram que não há essa preocupação verdadeira com a salvação do próximo, e quando ela existe, está mesclada com intenções mesquinhas e egoístas, nem sempre conscientizadas.
É necessário compreender que todo esforço de catequese não é fundamentalmente voltado para o bem-estar e para a redenção do outro: é, geralmente, uma forma de auto-afirmação, em que o catequizador usa a conversão do outro como um artifício inconsciente para auto-afirmar sua própria fé e para converter o seu próprio eu descrente.
Por outro lado, se considerarmos o atual nível de evolução da humanidade e o egoísmo predominante nas relações humanas, é de se esperar que a religião caísse do padrão dominante de egoísmo, embora ardilosamente e sutilmente disfarçada de altruísmo.
O esforço catequista é válido e justificável, desde que as religiões sejam apresentadas como opções adequadas às diversas pessoas, em seus diversos momentos, e nunca como o “o único caminho possível”. Se a salvação dependesse de um “único caminho”, certamente essa salvação não valeria a pena, pois estaria vinculada a um autoritarismo exclusivista, sectário e dogmático, o que eliminaria toda a beleza e a autenticidade do ato da conversão.
Nesse terreno escorregadio das religiões e das diferentes opções de escolha, a luz e a sombra se mesclam. Há muita sombra disfarçada de luz.
A compreensão do fato esclarece o fato e liberta-nos do fato. Provavelmente seja esse o sentido do mais profundo e misterioso ensinamento de Jesus: “Conhecerei a verdade e a verdade vos libertará”. Através da verdade se produz a “metanóia” ou transmentalização, que é uma mudança de foco da consciência.
A palavra metanóia proveniente do verbo grego metanoien (mudança de consciência) constava em todos os originais dos textos gregos dos evangelhos. Essa palavra foi equivocadamente traduzida na vulgata latina pelo vocábulo arrependere, devido ao fato de não existir no latim nenhuma palavra correspondente ao grego metanoien.
Somente a compreensão evitará a infiltração do egoísmo, da vaidade e da mesquinharia no terreno da religião. É fácil identificar esses mecanismos insidiosos no terreno da política e dos negócios, mas quando se infiltram no terreno da religião, tornam-se praticamente imperceptíveis, pois toda a mesquinharia se reveste de valores e da simbologia religiosa.
Por eras sem conta, muita baixeza e violência foram cometidas “em nome de Deus” e dos altos valores da religiosidade, e com isso, obtiveram a legitimidade necessária para sua perpetuação.
Ao longo de séculos, muitos crimes cometidos dentro do terreno religioso se revestiram de aceitação e foram cobertos pelo verniz da religião e da respeitabilidade.
Um dos mais hediondos crimes já perpetrados na história humana foi a obra da inquisição medieval, em que incontáveis assassinatos, perseguições torturas foram cometidos em nome da pureza da fé e do combate às heresias.
De nada adianta, trazer de volta velhos ódios e conflitos, já soterrados pela areia do tempo.
O que pode e deve ser feito é se aprender com a história, compreendendo a infiltração do egoísmo e da vaidade nas questões religiosas e nas afirmações de fé.
Só assim a religiosidade pode ser depurada de suas ervas daninhas e assumir seu verdadeiro papel de redenção da alma humana.

Muitos poderiam supor que o mundo precisaria de uma nova religião, livre dessas disputas mesquinhas e insignificantes, mas qualquer nova religião apenas renovaria esses velhos desvios, “colocando remendo novo em roupa velha”. O que o mundo precisa é de uma renovação das mentes, em que a religiosidade de cada pessoa tenha livre expressão e possa se manifestar de forma livre do ranço e das disputas causadas pelas religiões formais.