As experiências de Pavlov com o condicionamento reflexo e as de Skinner com o behaviorismo marcaram o ápice do condicionamento como forma de educação, ou, melhor dizendo, adestramento do ser humano.
Esses estudiosos, eles mesmos condicionados, por uma visão de mundo materialista e mecanicista, passaram a difundir um método de aprendizagem humana, que é exatamente o mesmo usado para adestramento de animais de circo.
As experiências que deram origem a essas disciplinas eram feitas exatamente com animais: Pavlov experimentava com cães, sendo famosa a experiência de salivação de cães ao ouvir uma sineta, associada ao alimento.
Skinner, por sua vez, fazia experiência com ratos em laboratórios.
Não é de se surpreender que os sistemas criados por esses pesquisadores sejam inspirados na aplicação de aprendizado por condicionamento e reflexologia.
O condicionamento, uma forma doentia de moldar a mente das pessoas, passou a ser visto como moderno, normal e válido.
São exatamente os condicionamentos de individualidade, competição e sucesso material a qualquer custo que geraram esta sociedade insustentável, baseada na violência, na esperteza e no egoísmo. Até mesmo os valores morais são produtos dessa forma de condicionamento.
Condicionada a ser violenta, a mente se recondiciona a ser não violenta, ou seja projeta seu oposto, que não resolve de forma alguma o problema, porque os opostos estão sempre ligados entre si.
Os ideais e utopias fazem parte desse mesmo mecanismo de condicionamento que produziu esta sociedade insustentável. São uma espécie de fuga de situações que a mente produziu. Ideais, fugas e compensações fazem parte da mesma estrutura que gerou os problemas. É óbvio que a solução dos problemas não pode partir daí. O problema maior reside na própria mente que criou esse tipo de sociedade.
É evidente que o problema não pode ser solucionado pela própria estrutura que o produziu.
Essa é a razão pela qual todas as utopias, revoluções e reformas acabam gerando as mesmas condições que tanto combateram.
Isso pode parecer um tanto desesperador. Se todas as reformas e revoluções fracassam, o que se pode fazer então?
Nada pode ser feito sem uma reforma fundamental da própria mente humana? Quem, porém, pode produzir tal reforma? Se ela partir de algum líder ou instrutor, estaremos sendo condicionados por ele, o que não resolverá o problema dos condicionamentos, apenas criará novas hostes de seguidores fanáticos e alucinados de algum novo líder.
Isso seria fonte de novos conflitos e disputas com os seguidores do outro guru da moda, o que pode aumentar os conflitos em vez de suprimi-los.
O condicionamento leva ao conflito. O conflito leva ao desgaste e ao embotamento. O embotamento leva à perda de sensibilidade.
Da percepção do mecanismo do condicionamento, de seus conflitos e de suas mesquinhas vaidades vem a libertação. Compreendendo a trama em que nos envolvemos, ficamos livres dela. Deixamos de ser escravos de sistemas políticos e religiosos, dos diversos “ismos” que preenchem nossos corações e mentes de torpor.
Compreende-se que os “ismos” são as igrejas e teologias particulares com que cada um se identifica, transformando-as em portadoras únicas da verdade, como se a verdade fosse algo minúsculo que pudesse ser capturado e monopolizado pela igreja da esquina ou pelo guru da moda.
Mesmo que essa igreja ou esse “ismo” que adotamos como nossa bandeira de vida seja algo de imenso destaque e respeitabilidade, é certo que toda a fixação em algo grandioso ainda é uma idealização e projeção daquilo que é pequeno e mesquinho: nosso ego insignificante.
Como é fácil distorcer até mesmo os ensinamentos dos grandes mestres. Jesus ensinava que “aquele que perder sua vida, irá salvá-la. Aquele que morrer por mim, terá a vida eterna”.
Esse ensinamento tem sido completamente adulterado, particularmente através do último e mais estranho rebento produzido pelo cristianismo: a teologia da prosperidade.
Nada pode ser mais perigoso do que essa “teologia da prosperidade”, devido à sua capacidade de misturar meios e fins. A religião se torna um meio para se obterem vantagens e benefícios materiais, contradizendo os ensinamentos do próprio Jesus: “Abandona tudo que tens e segue-me”. Ou “é mais fácil um camelo passar num buraco de agulha do que um rico entrar no reino dos céus”. Ou “As aves tem seus ninhos, e as raposas têm suas tocas, mas o Filho do Homem não tem onde repousar sua cabeça”.
Se querem usar técnicas de pensamento positivo e de auto-ajuda, que o façam à vontade, mas de forma alguma deveriam ser utilizados elementos religiosos e sagrados , como mecanismo de reforço de mentalização.
Quando um religioso adora Jesus ou qualquer outro modelo de espiritualidade, com a finalidade de obter ganhos de qualquer espécie ou de melhorar de vida, está adorando as próprias metas que estabeleceu para si mesmo, o que significa que está adorando a si mesmo, visto que as metas são uma projeção de seu próprio ego aquisitivo. Jesus seria, nesse caso, apenas o meio para se obter o “ganho almejado”.
Santa Tereza de Ávila, no esforço para se livrar desse processo de condicionamento religioso, emitiu sua conhecida prece: “Amado Jesus, se por acaso te adoro para ganhar o céu, não permitas que eu entre no céu. Se por acaso te adoro para escapar do inferno, lança-me no inferno”.
A compreensão clara e lúcida desse fato faz toda a estrutura de condicionamento desabar.
É possível que após esse desabamento, o religioso, ao cair em si (ou ao entrar em si), torne-se temporariamente frágil , confuso e desamparado, por ter perdido suas muletas, mas, ainda assim, estaria mais próximo da verdade, visto que queimou uma grossa camada de ilusão e de condicionamento.