Nada pode parecer mais ameaçador à nossa vida particular ou comunitária do que o caos, o que parece ser muito natural, visto que ninguém deseja o surgimento, em sua vida, do tumulto, confusão, acidentes, crise financeira, instabilidade, conflito, doenças e morte.
Contudo por mais que detestemos essas coisas, elas aparecem em nossa vida com uma freqüência maior do que gostaríamos.
Qual o sentido do caos? E qual o efeito desse caos em nossa vida?
Essa é uma das questões mais sutis e complexas da vida, que não comporta respostas diretas e afirmativas. O assunto precisa ser explorado através de uma reflexão profunda, amadurecida e descondicionada.
Parece-nos estar vivendo uma situação de normalidade quando tudo está sob controle, quando todos os que nos cercam estão com saúde, bem empregados, felizes e sem grandes crises existenciais. Mas existe algo estranho nessa aparente normalidade rotineira da existência..
Ela nos leva a um crescente tédio e insatisfação. É esse tédio que leva bem estabelecidos burgueses a sair de suas confortáveis mansões, abandonar suas lindas esposas ou noivas e se aventurarem em safáris nas selvas africanas ou em escaladas nas alturas do Himalaia, onde sofrem os ataques dos elementos e costumam perder dedos congelados e, muitas vezes , a própria vida. É claro que essa gente não pretendia pagar um preço tão alto para afugentar o tédio de suas vidas, mas, sem dúvida, dispuseram-se a trocar sua condição segura, estável e confortável por uma situação instável, imprevisível, perigosa, onde certamente se sentiam mais vivos e estimulados. Fugiram da ordem estabelecida para o caos.
Muitas pessoas, menos audazes, entregam-se a aventuras amorosas ou bebedeiras, participam de esportes de risco, ou dirigem em alta velocidade em estradas perigosas, expondo-se a acidentes e freqüentemente perdendo a vida.
Toda essa gente, por alguma estranha motivação, procurou o caos deliberadamente, colocando-se em situações-limite, onde é obrigada a se superar para sobreviver.
E muitos não buscaram o caos, mas ele chegou sem aviso e invadiu abruptamente sua existência.
Parece que, quando a ordem atinge um estado de acomodação e exagerada segurança, ela contém em si mesma os germes do caos, assim como o caos tende a atingir um grau de estabilidade e se transformar numa nova ordem.
Dessa forma, é tênue a fronteira entre o caos e a ordem. Esses não são princípios opostos e divergentes, como parece à primeira vista, mas sim princípios dinâmicos, interativos e auto-reguladores, ou seja, seriam apenas uma medida do estágio de estabilização ou de instabilidade de uma coisa única que se modifica continuamente e que transcende a ambos os estados.
O caos é uma agente de mudanças radicais na vida pessoal, comunitária e na própria natureza. Quando estamos intimamente insatisfeitos com nossa vida, procuramos o caos, ou então o caos nos procura. Dessa forma, temos com o caos uma relação de amor e ódio. Fugimos do caos e buscamos o caos.
O caos produz as mudanças que relutamos a fazer por livre iniciativa, por motivo de acomodação e apego aos nossos velhos hábitos. Ele traz mudanças intensas e radicais, mas cobra, com freqüência, um alto preço em termos de desconforto, sofrimento, insegurança e incerteza quanto ao futuro.
Os filósofos e cientistas de todas as épocas sempre procuraram as leis ocultas que coordenam as situações aparentemente caóticas. Einstein recusou-se a aceitar o princípio do indeterminismo de Heisenberg, um dos criadores da física quântica, afirmando que ‘Deus não joga dados com o universo”.
Atualmente as modernas descobertas da física quântica, com o princípio das supercordas, tendem a dar razão a Einstein, indicando que os movimentos das partículas subatômicas estão submetidos a leis de campo tensorial, onde milhares de influências se interagem para definir a cada instante a posição das partículas.
Isso serve de indicação de que o caos não é desordem, e sim uma espécie de ordem ultracomplexa, interativa e holográfica, com tantas variáveis envolvidas num curto espaço de tempo, que escapa totalmente à compreensão humana.
Que conclusões poderíamos tirar, a partir dessas breves reflexões?
A primeira delas é que o que afeta diretamente nossas vidas não são exatamente os fatos, mas nossa posição em relação a eles e, sobretudo, nossa reação a eles.
A destruição das torres gêmeas de Nova Iorque foi acontecimento caótico de grandes proporções e enorme dramaticidade, que mudou o curso da história. Praticamente toda a humanidade assistiu àquele trágico evento, mas cada pessoa foi afetada de uma forma diferente. Ninguém foi mais afetado do que as pessoas que viajavam nos aviões destruídos, as que estavam no interior dos edifícios e os infelizes bombeiros soterrados pelo desabamento das torres.
A reação dos Estados Unidos àqueles eventos produziu uma guerra e uma série de conseqüências que ainda estão longe de terminar.
O que é o Apocalipse bíblico senão a descrição alegórica de um caos em escala mundial,que aniquila uma velha ordem para dar nascimento a um mundo novo?
Tanto no plano mundial como no nível individual, o caos pode produzir uma nova ordem e uma nova condição de vida, desde que saibamos vivenciar um fim de um ciclo e ter a lucidez de aceitar uma dinâmica de vida que possa nos impelir à renovação e ao crescimento. E, sobretudo, desapegar-nos das antigas condições que foram dissolvidas, visto que mais difícil do que se aceitar o novo é se desapegar dos velhos hábitos.
Quando relutamos em abandonar os velhos hábitos já obsoletos e incompatíveis com uma nova situação, o caos surge em nossa vida e faz o trabalho por nós.