Nossa civilização consumista, materialista e competitiva condiciona a todos que o sucesso na vida está diretamente relacionado ao enriquecimento e aos símbolos exteriores de prosperidade, tais como ter profissões de destaque, o exercício do poder político ou em organizações, possuir carros novos e luxuosos, mansões, desfrutar da companhia de pessoas do sexo oposto de grande beleza, fazer viagens, ir a jantares em restaurantes sofisticados e coisas tais.
Obviamente, uma pessoa bem-sucedida deve ter, de fato, uma condição razoável de conforto, bem-estar físico e sustentabilidade, sem necessidade de chegar ao supérfluo e ao exagero.
O problema não está exatamente na posse dos bens, mas no apego a eles e na maneira como são adquiridos e mantidos. É extremamente difícil haver a posse, sem haver o apego. Um ego obeso e inflacionado é construído em cima de apegos a objetos e símbolos sociais.
Esse fato torna a riqueza uma situação cármica intrincada e aderente. É um carma que tende a gerar outros carmas.
É por causa dessa condição que Jesus afirmou que “é mais fácil um camelo passar no buraco de uma agulha do que um rico entrar no reino de Deus”. Isso não significa que os ricos estejam condenados a alguma espécie de danação eterna, e sim que estão atravessando uma etapa intermediária na jornada humana em que a alma fica pesada devido à posse e ao apego e, dessa forma, afastada do reino de Deus, onde o Ser precisa estar em estado de leveza, expurgado de todas as aderências supérfluas.
Em um mundo cada vez mais povoado, com recursos escassos e miséria crescente, é urgente que a sociedade crie outro sistema de balizamento do sucesso.
Nossa moderna sociedade industrial fracassou totalmente na promessa de oferecer a todos um mundo melhor, com produtividade capaz de atender às necessidades humanas básicas e garantir sustentabilidade para os sistemas de vida do planeta..
Diante desse fracasso, torna-se necessária uma completa revisão de modelo, de conceitos e de valores de nossa civilização. Poderíamos dizer, com mais exatidão, que é urgente criarmos um novo modelo de civilização.
O fato é que todas as pessoas condicionadas por esse tipo de visão exterior e estereotipada de sucesso passam a vida flutuando sobre um grande vazio existencial. E, quanto mais percebem a existência desse vazio mais procuram escapar dele, dedicando-se às suas ocupações e posses habituais, com as quais se esconde de si mesma, adiando indefinidamente o auto-encontro e causando uma cadeia de malefícios.
O exercício do poder e a posse da riqueza são armadilhas cármicas perigosas que podem trazer complicações para as existências futuras, caso não sejam voltadas para o bem-comum.
Com poucas exceções, todos usam artifícios para fugir de si mesmos e evitar o auto-encontro, mas a fuga dos ricos e poderosos, além de mais danosa, por absorver recursos escassos, traz sempre a sombra do medo de perder tudo o que foi acumulado. E da vã vaidade de se julgar superior aos demais, com base em coisas efêmeras e fugazes.
E o mais doloroso é que irão perder inevitavelmente, pois não podem viver mais do que as poucas décadas que lhe foram destinadas. Vivem, porém, como se fossem eternos (fisicamente) e tivessem séculos e mais séculos para usufruir sua fortuna e sua proeminência social.
Os pobres usam meios de fuga tanto quanto os ricos, mas, pelo menos, pouco têm a perder.
Os ricos não podem manter continuamente o mesmo nível satisfação com o usufruto das posses. Com o passar do tempo, tornam-se entediados apáticos e desinteressados. Precisam de formas cada vez mais caras e intensas de entretenimento, que, em pouco tempo, também se tornam entediantes.
Além disso, em um mundo globalizado, tudo parece ser mais interligado. Além da necessidade de cercar-se de defesas contra os ladrões e pedintes, torna-se ostensivamente perigoso e moralmente indefensável manter a imagem da riqueza no meio de tanta miséria.
Não devemos supor que tomar a propriedade dos ricos e dá-las aos pobres seja um recurso razoável e eficaz. Não se pode mudar a mente humana com o recurso da violência.
Os comunistas apregoaram essa fórmula de criar a igualdade pela força das armas, mas a experiência histórica já comprovou que isso não funciona em absoluto: apenas transfere-se a riqueza de mãos, suprimindo antigos ricos e criando novos ricos oportunistas, ainda mais dissimulados e ladinos.
É o amadurecimento da humanidade e a percepção da armadilha existente no acúmulo de posses que levarão a uma maior distribuição das riquezas, pois, no futuro, ser rico parecerá um anacronismo monstruoso e não um charmoso e valorizado símbolo de status. Deixará de ser prova de sucesso e passará a ser visto como prova de fracasso de um indivíduo em vencer seu próprio egocentrismo.
Não existe sucesso para o ego pessoal, visto que é apenas um provisório e transitório balão de ensaio do Eu Maior. O Ego tem de morrer e irá morrer de uma forma ou de outra.
“Aquele que morrer em memória de mim, terá a vida eterna”, disse Jesus.
Certamente, isso não acontecerá em um curto prazo. Teremos de esperar que todos os seres humanos encarnantes no planeta passem pela prova da riqueza e dela se desapeguem.
Tanto mais rápido e facilitado será esse desapego, quanto menos a sociedade valorizar o sucesso material como forma de valorização e glorificação do homem.
Buscar a satisfação na riqueza ou no poder é submeter-se a um medo contínuo e insidioso, a uma tensão sutil e envolvente no meio do fausto e da fartura, além da incômoda sensação de carregar um ego inflado cheio de prepotência narcísica. Um ego inflado pode ser facilmente atingido em sua auto-imagem exagerada, sempre carente de afagos e de reforço.
Será isso o sucesso? Se não for, o que seria então?
É difícil definir o sucesso, porque depende da perspectiva e dos anseios de cada pessoa, e cada pessoa vive um diferente “momento na eternidade”.
Por aproximação, pode-se dizer que o sucesso é um equilíbrio sustentável entre uma pessoa e seu ambiente social e natural. É uma harmonia dinâmica que não opõe resistência ao fluxo sempre mutável da vida, capaz de adaptar-se a novas relações e novas situações, com serenidade e boa disposição para servir e auxiliar o próximo.
A reflexão sobre o sucesso e sobre nossos planos é essencial porque quase sempre alcançamos nossos objetivos (nem sempre no prazo que gostaríamos), mas pagamos por eles um preço que não esperávamos pagar.
A natureza cobra altos juros pela cessão temporária de excessivos bens e recursos que são escassos e necessários ao bem-comum.
E em quanto mais atividades e posses nos embrenharmos, no esforço para fugir de nós mesmos e glorificar nosso ego mesquinho e insignificante, mais ficaremos presos nessa teia de tédio e embotamento que nós mesmos traçamos.