AS ARMADILHAS DO PENSAMENTO

O pensamento é uma forma de funcionamento da consciência inerente ao atual estágio da evolução humana. É uma função meramente instrumental de associação de idéias e movimentação da memória, tendo sido elevada a um patamar que não corresponde à sua verdadeira realidade.
Não se deve desvalorizar o pensamento, visto que é uma etapa essencial no desenvolvimento da consciência. O equívoco está em atribuir ao pensamento uma importância essencial, quando ele tem uma função instrumental na relação entre o ser e o mundo.
Krishnamurti ensinava que o pensamento é a reação do fundo, da memória, sendo a memória o resultado acumulado da experiência.
O pensamento associado aos desejos cria a ânsia de adquirir, de ter cada vez mais, de glorificação do ego. A atividade do pensamento está sempre comparando e, como produto dessa comparação, desejando ser o que não é. Está sempre mergulhada no vir-a-ser e desatenta para o ser.
Nunca se pode atingir o ser através do vir-a-ser. Somente quando a mente se aquieta, pode haver o percebimento do ser. Se a consciência não for capaz de uma percepção direta, ela estará perdida no labirinto de seus próprios condicionamentos, contradições e opiniões.
Esse movimento contínuo e subterrâneo da mente era chamado por Ouspensky de “pensamento formatório”. O interminável monólogo interior, que cessa imediatamente quando prestamos atenção a ele. Ouspensky dizia que o pensamento formatório cessava imediatamente quando o ouvíamos com atenta expectativa. Toda vez que prestamos atenção ao nosso monólogo interior e dizemos a ele “fala ! estou te ouvindo!”, notamos que imediatamente ele se cala. Essa atividade cega, automática e incessante do pensamento somente causa desgaste, embotamento e insensibilidade.
Grande parte de nossa atividade mental é gasta com medo e ansiedade, memória e imaginação. O medo está ligado ao passado, da mesma forma que a memória.
A ansiedade está ligada ao futuro, da mesma forma que a imaginação.
Toda essa atividade nos afasta do presente ativo ou do agora eterno, que é o único tempo de que dispomos. O medo, a culpa, a saudade e a memória são estados que nos levam a mergulhar no passado. A ansiedade, as preocupações e a angústia nos levam a mergulhar no futuro.
O passado só tem existência na memória, e o futuro só tem existência na imaginação. Ambos são criados pelo pensamento.
Para um ser do reino animal ou vegetal, a ausência de atividade do pensamento produz uma concentração no presente. Um cão, quando sente fome, busca alimento. Quando sente dor, começa a ganir. Mas não se sente aflito com a lembrança de dores passadas, nem angustiado com a possibilidade de dores futuras. A morte para um pássaro não chega a ser um problema. Ele vive sua vida e, quando chega a hora de morrer, simplesmente deixa-se desfalecer e morre. Sua alegria é espontânea ao cantar para o sol nascente e planar ao sabor do vento fresco.
Jung afirmou que “já que não podemos retornar à consciência instintiva do animal, só nos resta avançar até a forma de consciência ultramental”.
Os seres que atingem as experiências culminantes e ultrapassam o patamar usual da condição humana também não parecem se preocupar com eventos passados, nem se angustiar com o medo do futuro. Jesus, Buda , Lao Tse ensinavam a concentração de foco no presente ativo e a confiança no fluxo da vida. Um dos mais belos e poéticos ensinamentos de Jesus discorre exatamente sobre este tema: “Não vos preocupeis com o dia de amanhã. Olhai os lírios do campo que não trabalham nem tecem. E em verdade vos digo que nem Salomão em toda sua glória se vestiu com tamanho esplendor”.
Todos esses instrutores deixaram bem claro que a felicidade só pode ser encontrada no agora. Que é tolice enchermos nossas vidas com as sombras do passado e com as esperanças (ou angústias) do futuro.
Seria possível haver um estado em que não haveria nem o passado com seus remorsos, culpas e ressentimentos, nem o futuro, com suas angústias, esperanças e ansiedades?
Parece que este estado é possível, mas não pode ser alcançado enquanto o pensamento escapar de seu nível instrumental e se tornar o guia de nossas vidas.
A felicidade só pode ser alcançada quando o pensamento deixar de ser a função dominante e o controle de nossas vidas for transferido para a consciência do eu interior, que está além do pensamento.
O pensamento é, porém, tão insidioso, que até mesmo essa possibilidade se torna cooptada e envolvida na trama de ilusão que ocorre em nossas vidas: a necessidade de eliminar o eu inferior e passar o controle de nossas vidas para o eu superior se torna a nova atividade do eu inferior, que se fortalece, ao mesmo tempo em que se oculta, através desse estratagema.
Enquanto existir essa ânsia de preenchimento, de realização e vir-a-ser, estaremos presos na cadeia do pensamento, independentemente do motivo e do nível dessa busca.
O crescimento espiritual é possível e necessário, mas não deve ter motivações egoístas, caso contrário a busca estará contaminada pela ambição de vir-a-ser, que é sempre uma forma de aquisição.
É muito difícil para o homem, no estágio atual, compreender a possibilidade de crescimento e progresso, sem que haja uma forte ambição e uma astuta estratégia atuando como motivadores. Todas essas ações são apenas formas de fugirmos de nós mesmos, de encobrirmos nosso próprio vazio.
O homem moderno sempre verá a ausência de motivações egoístas como um estado de estagnação e acomodação, faltando a ele a lucidez de perceber o crescimento como um movimento espontâneo e natural.

Não tem ele a mais pálida idéia sobre a felicidade que existe fora do tempo e longe das artimanhas do pensamento.