Uma das mais monstruosas aberrações produzidas pela teologia ocidental é o conceito de heresia. É a maior distorção possível nos ensinamentos dos grandes instrutores da humanidade. Buda teve o cuidado de transmitir a seus discípulos: “Não acrediteis em nada que ouvis se isso não passar pelo crivo de vossas consciências. Não acrediteis nem mesmo no que estou dizendo, se isso não tocar profundamente em vossas almas”. Jesus ensinou algo semelhante, porém numa direção aparentemente diferente: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida, e ninguém vai ao Pai senão através de mim”. Teólogos interpretaram essa mensagem como uma sentença sectária e exclusivista, devido às inevitáveis dificuldades de tradução. No caso do aramaico falado por Jesus, além da necessidade de tradução, havia o problema de transliteração de uma língua que adota outro tipo de caractere. Quem buscar a fonte original do aramaico ou do hebraico, verá que Eu Sou (Aheieh) é um dos nomes divinos e um dos princípios ativos da alma humana, significando “aquele que é”. Com isso, a frase passa a ter o seguinte significado: “Ninguém vai ao Pai (Iaveh) se não se tornar aquilo que é”, ou seja, se não buscar encontrar sua essência íntima que faz parte da natureza do Pai,e que, em última análise, é o próprio Pai manifestado em nós e através de nós. Em outro versículo, Jesus afirma “Eu e o pai somos um”, significando que já havia realizado sua natureza essencial e se tornado um com a fonte de toda a vida. Como todas as escrituras sagradas de todas as religiões, A Bíblia comporta diversas leituras e diversos ângulos de interpretação. O Protestantismo foi criado dentro desse pressuposto de livre interpretação da Bíblia. O mais curioso é que a liberdade de interpretação, que foi a mola-mestra do protestantismo, foi cerceada dentro desse mesmo movimento, devido ao surto de fundamentalismo, iniciado no início do século XX, como um movimento mundial. A tentativa de impor dogmas por parte do Catolicismo e de impor padrões de interpretação por parte do Protestantismo é uma herança do antigo sistema judaico de ultravalorização do texto escrito, considerado a “Palavra de Deus”. Obviamente esses textos são escritos por homens inspirados, mas condicionados no espaço e no tempo por suas culturas e sistemas religiosos de origem. Os autores desses textos só podem se expressar dentro dos limites de seu idioma e de suas referências culturais, sociais e religiosas. Erigem sistemas baseados em crenças locais e em referências culturais restritas no espaço e no tempo e depois passam a chamar de “hereges” as pessoas situadas em outros contextos, para as quais essas referências não têm o mesmo valor nem o mesmo propósito. Nenhum homem pode chamar o outro de herege, porque, se o fizer, está-se colocando como mestre e como “dono da verdade”. Se o fizer, está supervalorizando suas crenças e suas opções, em detrimento da crença do outro. Está cometendo o crime de desqualificar e desvalorizar a crença e opção alheia, em nome de uma verdade que supostamente possui. Cada pessoa tem de construir sua própria escada que conduz ao céu. Ninguém pode avaliar o contexto em que vive o outro, qual é sua visão de mundo e suas necessidades de estímulo e motivação no terreno religioso. Inquisidores fanáticos levaram à fogueira Giordano Bruno, um sábio que tinha uma consciência extraordinariamente mais ampla do que seus carrascos e acusadores. Guardando-se as devidas proporções, isso não é muito diferente da ação dos sacerdotes do templo que condenaram Jesus ao calvário. “Não julgueis para não serdes julgados”, ensinou o mestre. Essa frase é o alerta contra o risco de se fazer juiz ou mestre de outro ser humano, em qualquer esfera que seja. A exceção a essa regra deve ser admitida somente na esfera criminal. É necessário coibir a criminalidade para se manter a normalidade social. Cada ser humano vive em um contexto tão complexo de relações e de opções, que nunca saberemos, de forma exata, balancear todas as variáveis que afetam cada vida humana. Quem é herege? Os judeus poderiam ser considerados hereges pelos seguidores da antiga e tradicional religião semítica da Cananéia. Os cristãos poderiam ser considerados hereges pelos judeus, por serem reformadores da antiga religião. Os protestantes poderiam ser considerados hereges pelos católicos. Os espíritas poderiam ser considerados hereges pelos protestantes.... Essa cadeia nunca terá fim se não percebermos que cada pessoa adota o sistema religioso compatível com seu momento na eternidade. Cada um tem o direito inalienável de experimentar o sistema religioso que lhe convém e necessita (ou nenhum deles), mudando de opção sempre que for de sua necessidade. Sem essa liberdade, a religião torna-se uma prisão e uma escravidão, que tolhe as consciências em vez de dar-lhes as asas para voar.