O OCEANO SEM PRAIAS

A busca da verdade eterna deve partir de um insight de magnitude.
É normal que, na fase inicial, haja uma certa curiosidade e desconfiança, pois se trata de um assunto disperso, que sempre foi tratado com reservas e muitas vezes foi objeto de perseguição e de difamação por parte do poder dominante, tanto político, quanto eclesiástico.
A Escola de Pitágoras em Crotona, na Magna Grécia italiana, foi destruída e todos os alunos massacrados em nome dos “ideais democráticos”, em confronto promovido pelos governantes da cidade, tendo o próprio Pitágoras perdido a vida nesse trágico evento.
Pitágoras tentou criar um modelo iniciático seletivo e reservado, ao molde do modelo egípcio, em uma sociedade que se tornava cosmopolita, democrática e liberal.
Só poderia acabar em catástrofe, visto que o “liberalismo” sempre foi usado como conveniência política e seus limites são rigorosamente estabelecidos dentro do poder dominante. O liberalismo deixa de ser liberal quando esses interesses são contrariados.
Séculos depois, Plotino construiu uma escola iniciática em plena Roma imperial, no século IV d.C., tendo tido, porém, o cuidado de manter um grau de abertura suficiente para não despertar a ira e a desconfiança do poder dominante.
Na escola de Plotino, senadores romanos e escravos sentavam-se lado a lado para aprender as lições da sabedoria eterna. Plotino soube habilmente produzir um insight de magnitude, de modo que cada pessoa percebesse que as distinções sociais eram insignificantes e transitórias diante do oceano sem praias da verdade eterna.
Além disso, a transparência e abertura eliminam as desconfianças causadas por movimentos fechados e esotéricos,
Aí está o grande problema na transmissão do ensinamento esotérico: Como transmitir um conhecimento elevado, que se situa acima dos convencionalismos religiosos, sem cair em um hermetismo elitista que exclua acintosamente as massas humanas do acesso a esse saber?
O único grande mestre que conseguiu este resultado extraordinário foi Plotino, que conseguia ser profundo e simples. Esotérico e popular. Elevado e acessível. Plotino conseguia tratar de modo igual senadores romanos e escravos, adaptando o ensinamento às possibilidades de cada um, sem criar diferenciações e segregar estudantes mais humildes.
Lamentavelmente, tal habilidade é uma faculdade intrínseca ao instrutor. Plotino nada deixou escrito. Todos os seus ensinamentos que conhecemos na atualidade foram transmitidos através das Enéades, escritas por seu discípulo Porfírio.
Todavia, a habilidade de Plotino de transmitir o grande ensinamento de forma aberta, adaptando-o para senadores e escravos, sem segregação, perdeu-se. Depois dele, ninguém mais demonstrou tamanha habilidade.
Hermetistas, Maçons, Rosacruzes, Alquimistas, Cabalistas e Teósofos também operam com o grande ensinamento, sem ter, porém, a habilidade de disseminá-lo de forma aberta e sem segregações.
Todas as tentativas posteriores de popularizar o grande ensinamento caíram na vulgaridade e na desvalorização. O grande ensinamento está situado entre um hermetismo segregador e elitista, de um lado, e uma vulgarização e massificação, de outro, que transforma o manjar divino em uma pizza de terceira categoria.
Como encontrar um ponto de equilíbrio, que não caia nesses extremos?
Plotino é o exemplo e a prova de que esse ponto de equilíbrio é possível e desejável.
A questão-chave que pode levar ao sucesso está em proporcionar um insight inicial de magnitude. Ao invés de transmitir informações e tentar “ensinar” as pessoas, deve-se ajudá-las a se apaixonar pelo grande ensinamento. Deve-se primeiro mostrar às pessoas a beleza e a magnitude do oceano sem praias, antes de levá-las para as águas profundas.
Plotino conseguia produzir um insight dessa natureza. Somente a visão de algo maior e mais importante pode fazer as pessoas renunciarem à insignificância de seu ego e perceber a transitoriedade de todas as condições mundanas.
As pessoas se agarram com unhas e dentes a essas mesquinharias porque é a única coisa que conhecem. É a única âncora de seus egos.
Só renunciariam a essas insignificâncias se vislumbrassem algo maior, mais abrangente e significativo, que proporcionasse significado e sentido às suas vidas.
Só se dedicarão com corpo e alma ao grande ensinamento, se tiverem a visão prévia do oceano sem praias.