REFINAMENTO E SUTILIZAÇÃO DO CONCEITO DE REENCARNAÇÃO
Em nossa formação cultural aristotélico-cartesiana,
apreciamos as certezas e a clareza lógica de exposição.
Fugimos dos paradoxos, como o diabo foge da cruz.
Entrementes, a lógica da razão transcendental, que estabelece
as leis fundamentais do universo, não parece dar muita atenção
às preferências humanas. Os paradoxos são constantes e
freqüentes, tais como a luz que insiste em ser partícula e onda
ao mesmo tempo, embora desejássemos intensamente que ela se decidisse
a ser uma coisa ou outra.
Tudo o que se refere à ordem divina do universo ultrapassa as palavras,
a lógica e a razão humana. Por isso, as grandes verdades são
expressas através de paradoxos.
Com a reencarnação ocorre o mesmo fato. Há um paradoxo
nessa controvertida questão.
Esse paradoxo pode ser expresso através da frase de Krishnamurti quando
manifestou seu ponto de vista sobre esse tema tão intrincado. Krishnamurti,
que foi uma das mais altas consciências que viveram na Terra no século
XX, afirmou que ‘A reencarnação é um fato, mas
não é uma verdade”.
Essa afirmação ambígua e paradoxal lança mais
dúvidas do que soluções em um problema já complexo
e controvertido, mas contém uma alta dose de verdade.
Os conceitos da metafísica comportam graus crescentes de sutilização
e de refinamento e são submetidos a inevitáveis dialéticas.
Não me refiro à dialética da filosofia tradicional, em
que se nega uma tese, para se chegar a uma antítese.
Refiro-me à dialética de ultrapassagem de conceitos através
de um contínuo exercício de reflexão que possibilita
percepções cada vez mais refinadas e abrangentes, capazes, até
mesmo, de desdobrar a compreensão de um assunto, absorvendo neste tema
suas próprias contradições internas e reformulando-as
em uma síntese unificadora.
Na se deve condenar o fato de alguns conceitos serem expressos de uma forma
simplificada para facilitar o entendimento. O conceito corrente de reencarnação
pode ser entendido da seguinte forma: “um indivíduo chamado Silva
desencarna e passa a viver em seu corpo espiritual. No mundo invisível,
esse indivíduo continua sendo o mesmo Silva, um pouco mais lúcido
por estar livre das amarras da matéria. Um belo dia, o Silva se reencarna
no corpo de um bebê humano para iniciar uma nova vida como o Silva reencarnado
em outro corpo”.
Nada pode estar mais distante da verdade do que essa versão ultra-simplificada.
O que acontece durante a vida nos mundos invisíveis é que o
Silva vai gradualmente desaparecendo. No final da vida espiritual, toda aquela
experiência de vida adquirida pelo Silva, considerada útil para
a evolução, é absorvida por um eu interno e desconhecido,
(também chamado de self, na psicologia de Jung) que é a verdadeira
identidade do Silva. Este self absorve toda a experiência útil,
e o Silva deixa de existir. Na verdade, nunca existiu como uma entidade. Era
apenas um agregado de funções psicológicas que o budismo
denomina Skandas. O Silva era apenas um arranjo temporário de expressão
(personalidade) criado pelo self (Eu superior) para esgotar carmas passados
e desenvolver algumas virtudes e qualidades necessárias naquele estágio
da jornada.
O Silva não é exatamente “extinto”. Suas características
essenciais e aproveitáveis são absorvidas pelo self, que era
a única e verdadeira identidade do nosso personagem.
Após terminar seu período de existência pós-morte
nos mundos sutis, o self do Silva lança, então, outra personalidade
para se encarnar no mundo da forma. Essa personalidade nada tem a ver com
o falecido Silva, a não ser o karma que vem do mesmo reservatório
individual e o substrato de consciência e de vida, que era a mesma vida
e a mesma consciência do Silva.
Nesse ponto surge uma outra questão ainda mais complexa: ‘O que
é este “eu interno ou self”?
Esse é talvez o ponto mais importante de toda a busca espiritual porque
todas as respostas são insatisfatórias. O self não é
objeto de especulação e de filosofias. Ele precisa ser conhecido
através de experiência direta, o que é o principal objetivo
da meditação.
Tudo o que se pode dizer sobre este tema é que o self é um “eu”
que mantém uma mesma identidade essencial, ao mesmo tempo em que inclui
o “eu” de todos os outros seres.
Segundo o relato dos místicos de todas as eras, a consciência
do self é uma espécie de ponto focal de uma consciência
universal, que se reflete em todos, que a todos inclui, sem, porém,
deixar de ser ela mesma. Sem jamais perder sua própria identidade,
mesmo que inclua em si mesma a identidade de todos os outros.
Sem o conhecimento desse self, a reencarnação é algo
que não pode ser compreendido com exatidão, porque a personalidade,
tal como a conhecemos, desaparece no intervalo das encarnações,
sendo o self o único ser reencarnante.
O problema se torna ainda mais sutil, complexo e paradoxal, quando compreendemos
que o self, que é o único ser reencarnante, vive em sua própria
dimensão, mesmo durante a vida encarnada. Ele não participa
diretamente da encarnação, embora a produza. Ele mantém
pontos focais de contato no coração e no cérebro e está
ligado por elos magnéticos muito intensos com sua personalidade encarnada,
embora não se possa dizer literalmente que “Ele esteja encarnado”.
Ele pertence a uma dimensão sutil e elevada do universo e não
pode ser encarcerado no espaço e no tempo.
Afirmavam os pitagóricos que o Augoeides (o self) nunca entrava no
corpo físico. Aparecia aos clarividentes como um grande foco de luz
flutuando acima da cabeça.
Após a morte física, ele retira todos os seus elos de ligação
magnética com o corpo físico e os transfere para o corpo astral,
onde inicia a nova etapa de sua vida nos mundos sutis, até que, após
o término deste ciclo de existência, sejam feitos novos desengates,
quando que todos os fatores que constituíram aquela personalidade sejam
absorvidos pelo self ou então (os aspectos inúteis e indesejáveis)
descartados no “filtro purgatorial” dos mundos sutis intermediários.