A Doutrina Secreta

Um Chela Leigo

No limiar dos estudos ocultos, poucas experiências são tão perplexas e cheias de tormento como a política dos Irmãos sobre o que deve e o que não deve ser revelado ao mundo externo. Na verdade, somente estudantes ao mesmo tempo tenazes e pacientes – continuamente ansiosos para chegar às verdades da filosofia oculta, mas frios o suficiente para aguardar até que chegue o momento certo quando obstáculos aparecem no caminho – podem suportar aquilo que parece, à primeira vista, como uma política de má vontade e avarenta, da parte de nossos ilustres professores. A maioria dos homens persiste em julgar todas as situações a luz dos seus próprios conhecimentos e concepções, como também a partir dos padrões de certo e errado com os quais a civilização moderna está familiarizada, podendo fazer uma pungente acusação contra os detentores da verdade filosófica. Eles são concebidos pelos críticos como guardando as suas posses intelectuais e declarando “nós ganhamos este conhecimento através de árduo trabalho e à custa de sacrifício e sofrimento, nós não o daremos de presente aos preguiçosos cheios de luxúria que não fizeram nada para merece-lo.” A maioria dos críticos da Sociedade Teosófica e das suas publicações se fixou nesta idéia e denunciou a política dos Irmãos como sendo “egoísta” e “não razoável”. A argumentação é que, em relação aos poderes ocultos, a necessidade de guardar os segredos que possibilitariam que pessoas não conscientes causassem danos ou prejuízos deveria ser garantida, mas não haveria motivos correspondentes para ditar a mesma reserva em relação às verdades da filosofia oculta.

Percebi ultimamente que há considerações sobre este tema que estão sendo geralmente negligenciadas. É desejável esclarecer a questão de uma vez, especialmente quando um corpo considerável de ensinamentos filosóficos ocultos está agora diante do mundo e aqueles que mais apreciam o seu valor estarão, algumas vezes, inclinados a protestar da maneira mais enfática contra a demora na sua divulgação e as curiosas precauções com as quais o seu desenvolvimento subseqüente ainda está hoje cercado.

Sucintamente, a explicação acerca da tímida política apresentada é que os Irmãos estão plenamente assegurados de que a revelação da pura verdade (que constitui a doutrina secreta) acerca da origem do Mundo e da Humanidade – das leis que governam sua existência e os destinos em relação aos quais estão se movendo – é calculada para ter um efeito importantíssimo no bem estar da humanidade. Grandes resultados acontecem a partir de pequenos começos e as sementes do conhecimento que agora estão sendo plantadas no mundo devem finalmente produzir prodigiosas colheitas. Nós, que estamos presentes meramente no plantio, podemos não perceber a magnitude e a importância do impulso com que estamos envolvidos na transmissão, mas este impulso continuará consistentemente e, em virtude disto, em poucas gerações terá produzido enormes conseqüências, de uma maneira ou de outra.

Pois a filosofia oculta não é um sistema sombrio de especulação como qualquer uma das centenas de filosofias com as quais as mentes dos homens estão sobrecarregadas; ela é a Verdade plena, e quando uma quantidade suficiente dela for divulgada, será tida como tal por milhares dos maiores homens que estarão então vivendo no mundo. Qual será a conseqüência? O primeiro efeito nas mentes de todos aqueles que a compreenderem é terrivelmente iconoclasta (destrói ídolos e imagens sagradas). Expulsará tudo o mais que estiver na sua frente com o formato de crença religiosa. Não deixará nenhum espaço para qualquer concepção básica ou fundamental das crenças religiosas comuns. E o que acontecerá com todas as regras de certo e errado, com todas as sanções morais? Certamente há regras de certo e errado pulsando através de cada fibra da filosofia oculta, em um patamar mais elevado do que qualquer religião comum pode ensinar; sanções morais muito mais irrefutáveis do que as que se derivam de doutrinas de segunda mão, distorcidas, das religiões exotéricas; mas uma completa transferência das sanções será um processo que envolverá o maior dos perigos para a humanidade da época. Fanáticos de todas as denominações sorrirão ante a idéia de que tal transferência possa ser seriamente considerada. Os cristãos ortodoxos – confiantes nas milhares de igrejas que se espalham por todos os países ocidentais, na enorme força engajada na manutenção da propagação da fé, em uma aliança do Papa com a hierarquia Protestante estabelecida para este amplo propósito, com os clérigos de todas as seitas e o inflamado Exército da Salvação por último – pensarão que é mais provável que a Terra mesma desabe em ruínas do que a irresistível autoridade da Religião possa ser rechaçada. Eles não contarão, no entanto, com o progresso da iluminação. As mais absurdas religiões são teimosas e obstinadas, mas quando as classes intelectuais as rejeitam de maneira contundente, elas se desintegram, com comoções de terrível agonia, talvez, quem sabe, como Sansão no Templo, mas elas não podem permanentemente sobreviver a uma convicção de que são falsas nas mentes das lideranças da época.

O que acabou de ser dito acerca do Cristianismo, também pode ser dito acerca da religião Maometana e do Bramanismo. Um pequeno ou nenhum risco se corre enquanto a literatura oculta se destina apenas a colocar uma construção razoável nos dogmas pervertidos – mostrando para as pessoas que a verdade pode estar escondida mesmo atrás da mais estranha ficção teológica. E o amante da ortodoxia, em ambos os casos referidos, poderá dar boas vindas à explicação com condescendência. Para ele também, assim como para os cristãos, a fé que ele professa – sancionada por aquilo que parece uma visão de considerável antiguidade em relação à visão extremamente limitada de historiadores não iniciados e mantida pelo apego de milhões que envelhecem a seu serviço, cuidadosos em educar suas crianças na convicção que se manteve por um tempo – é fundada numa rocha que tem a sua base nos fundamentos do mundo.

Ensinamentos fragmentados da filosofia oculta parecem à primeira vista não ser mais do que notas sobre a doutrina canônica. Eles podem até embelezá-los com a graciosa interpretação do seu simbolismo, parte dos quais podem parecer merecer uma desculpa, quando ignorantemente tomados ao pé da letra. Mas este é somente o começo do ataque. Se a filosofia oculta se apresentar ao mundo com algo como uma explicação completa, imporá desta forma a concordância dos mais dedicados estudantes, de forma que nada mais na natureza se manterá como antes. E estes estudantes dedicados se multiplicarão. Eles estão se multiplicando inclusive agora, apenas com a força do pouco que já foi revelado. É verdade, como agora – e ainda por um tempo – o estudo será, como foi, o capricho de uns poucos, mas “aqueles que sabem”, sabem entre outras coisas, que se for dada uma oportunidade razoável, este estudo se tornará assunto de entusiasmo para os estudantes avançados. E o que acontecerá quando o mundo estiver dividido em dois times – as forças da intelectualidade e da cultura em um lado e os ignorantes e supersticiosos fanáticos do outro? Com um tipo de guerra como esta por acontecer, os adeptos, conscientes de terem preparado a lista e armado os combatentes, terão uma melhor justificativa melhor para a sua política, ante as suas consciências, do que o reflexo que no começo, as pessoas os acusaram de ser egoístas e de manter uma avarenta custódia sobre o conhecimento que detêm e assim os atiçavam com esta zombaria para que eles fossem induzidos a começar o jogo.

Não há dúvida, entenda-se, em relação aos méritos relativos das sanções morais que são fornecidas pela filosofia oculta e daquelas que são destiladas dos materiais deteriorados dos credos existentes. Se concebermos que o mundo pudesse ser desviado de súbito de um código moral para o outro, esta mudança deixaria o mundo muito melhor. Mas a mudança não pode ser feita de maneira súbita e o período de transição é muito perigoso. Por outro lado não é menos perigoso não dar passo algum na direção desta transição. Pois, apesar das religiões existentes terem grande poder – o Papa ainda governando milhões de consciências, senão cidades e Estados, o nome do Profeta ainda sendo uma palavra invocada em guerras, as forças dos costumes brâmanes mantendo incontáveis milhões de pessoas sob sujeição voluntária – apesar de tudo isso, as antigas religiões estão desvitalizadas e passaram do seu apogeu. Elas estão em um processo de decadência por estarem perdendo o controle da minoria culta; ainda acontece em todos os países que o campo da ortodoxia inclue um grande número de homens que se distinguem pelo intelecto e pela cultura, mas eles, um a um, estão diminuindo. Em vinte e cinco anos apenas a Europa se modificou prodigiosamente. Livros são agora escritos, encarados como lugar-comum, coisa que teria sido impossível pouco antes. Há pouco tempo os livros emocionavam a sociedade com surpresa e excitação, que hoje os intelectuais ignoram como débeis lugares-comuns. As velhas crenças estão, de fato, lentamente perdendo o controle sobre a humanidade – mais lentamente em um movimento mais deliberado no Oriente do que na Europa, mas mesmo aqui (se refere à Índia), gradualmente, chegará um tempo, quer a filosofia oculta seja oferecida para ocupar o seu lugar ou não, quando eles não mais conseguirão manter as sanções deficientes para a conduta moral e a retidão, como fizeram em tempos anteriores. Portanto é claro que algo precisa ser dado para ocupar o seu lugar, e por isto as determinações são no sentido de que este movimento no qual estamos engajados seja uma das ondulações – estas mesmas palavras, umas das espumas mais importantes da onda que avança.

Mas certamente, quando aquilo que precisa ser feito é ainda muito perigoso de ser executado, as pessoas que controlam estas operações de progresso podem se justificar pelo exercício da mais extrema cautela. Leitores da literatura teosófica estão conscientes de quão amargamente os nossos Irmãos adeptos foram criticados por escolherem gastar seu tempo e métodos na tarefa de parcialmente comunicar o conhecimento deles ao mundo. Aqui na Índia essas críticas foram ressentidas pela lealdade passional aos Mahatmas que é tão amplamente difundida entre os Hindus – ressentimento este mais por instinto do que pela razão em alguns casos talvez, apesar de que em outros, sem dúvida, como conseqüência de uma completa apreciação de tudo o que agora está sendo explicado, aparte de outras considerações. Mas na Europa essas críticas parecerão difíceis de ser respondidas. A resposta realmente está incorporada, apesar de que imperfeitamente, em vista da situação estabelecida agora. Nós, mortais comuns no mundo trabalhamos como aqueles que viajam com a luz de uma lanterna em um país desconhecido. Vemos apenas uma pequena parte do caminho para a direita e para a esquerda, e mesmo um pouco do caminho que ficou para trás. Mas os adeptos trabalham como homens viajando à luz do dia, com a vantagem adicional de serem capazes de subir em um balão e observar vastas extensões de lago, planície e floresta.

A escolha do tempo e dos métodos para a comunicação do conhecimento oculto para o mundo precisa necessariamente incluir a opção do agente intermediário. Daí a dupla incompreensão na Índia e na Europa, cada uma adaptada ao país que é originada. Na Índia, onde o conhecimento da existência dos Irmãos e a reverência por seus atributos é difundida amplamente, é natural que as pessoas que tenham sido escolhidas pela sua utilidade, mais do que por seus méritos, como receptáculos do ensinamento direto deles, sejam encaradas com um sentimento parecendo ao ciúme. Na Europa, a dificuldade de estabelecer qualquer tipo de relação com a fonte da filosofia oriental é tida como devida à exasperada exclusividade da parte dos adeptos nesta filosofia, que parece não valer a pena que qualquer homem se devote à tarefa de solicitar a instrução deles. Mas nenhum desses dois sentimentos é razoável quando considerado à luz das explicações aqui contidas. Os Irmãos não podem levar em conta nada além do interesse público, no sentido mais amplo destas palavras, quando entregam os primeiros vislumbres experimentais da revelação oculta para o mundo. Eles só podem empregar agentes que façam o trabalho da maneira que eles querem que seja feito – ou, em todos os casos, não de uma maneira que seja amplamente diferente. Ou então eles só podem proteger a tarefa em que estão envolvidos de uma outra maneira. Eles podem consentir, às vezes, numa forma muito mais direta de instrução do que aquela provida pelos agentes intermediários para o mundo em geral, em casos de sociedades organizadas e juramentadas solenemente comprometidas ao segredo, por agora pelo menos, em relação ao ensinamento que será dispensado a eles. Com relação a estas sociedades, os Irmãos não precisam estar observando para ver se o serviço é ou não convertido em um serviço para o mundo, o que de outra maneira eles fariam por outras razões como por ser maléfico no seu resultado final ou perigoso. Diferentes homens assimilarão a filosofia a ser comunicada de diferentes maneiras: para uns será demasiadamente iconoclasta e a sua busca continuada, depois que certo ponto for atingido, não é bem vinda. Tais pessoas, entrando muito apressadamente no caminho de exploração, poderão sair do empreendimento quando quiserem, se completamente juramentadas ao segredo desde o começo, sem se tornarem uma fonte de embaraço posterior, em relação ao prosseguimento do trabalho em questão por outros mais resolutos ou menos sensíveis trabalhadores. Pode ser que em algumas destas sociedades, se alguma delas for formada na qual a filosofia oculta possa ser secretamente estudada, alguns dos membros estarão tão capacitados, ou melhor capacitados, do que outras pessoas empregadas em outros lugares para que coloquem os ensinamentos em uma forma adequada para a publicação, mas neste caso é presumível que qualificações especiais se tornarão eventualmente visíveis. O significado e o bom senso das restrições impostas provisoriamente por agora, estão claras o suficiente para qualquer pessoa imparcial ou reflexiva, mesmo quando a novidade e a estranheza possam ser ressentidas em um primeiro momento.

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Extraído da revista Five Years of Theosophy
Tradução: Isis M. B. Resende, MST
Revisão: Raul Branco
Loja Alvorada, Brasília, DF

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