Os Mahatmas Teosóficos Helena Petrovna Blavatsky [Parte de um texto de 1886] É com sincero e profundo pesar – embora sem surpresa, porque estou preparada há anos para estas declarações – que li em Occult Word (Palavra Oculta), de Rochester, editado pela Sra. J. Cables, a devotada presidente da Sociedade Teosófica naquele lugar, o seu editorial assinado em conjunto com o Senhor W.T. Brown. Esta súbita mudança de sentimentos talvez aconteça na senhora porque ela nunca teve as oportunidades que teve o Sr. Brown; e os sentimentos dela, ao escrever que depois “de um grande desejo … de sermos colocados em contato com os Mahatmas Teosóficos … nós (eles) chegamos à conclusão de que é inútil fixar o olhar em direção aos Himalaias …” são inegavelmente compartilhados por muitos teosofistas. Se as reclamações são justificáveis, se a culpa é dos Mahatmas, ou dos próprios teosofistas, é uma questão que fica pendente. E é algo que está pendente há muitos anos, e terá agora que ser resolvido, há que os dois reclamantes declaram acima das suas assinaturas que “nós [eles] não precisamos correr atrás de místicos orientais que se negam a nos ajudar”. Esta última oração em itálico deve ser seriamente examinada. Peço licença para fazer alguns comentários a seguir. Para começar, o tom de todo o artigo é o de um verdadeiro manifesto. Condensado e depurado da exuberância de expressões bíblicas, ele se resume a esta declaração em paráfrase: “nós batemos à porta e eles não responderam, nós pedimos pão, e eles negaram até uma pedra”. A acusação é bem séria; no entanto, não é justa nem razoável – e isto é o que tenho intenção de demonstrar. Fui a primeira pessoa nos Estados Unidos a trazer a idéia dos Mestres a público, expus os nomes sagrados de dois membros de uma Fraternidade desconhecida na Europa e América (com a exceção dos poucos místicos e Iniciados de todas as épocas), nomes considerados sagrados e reverenciados por todo o Oriente, especialmente na Índia. Causei o crescimento da especulação vulgar e da curiosidade em volta destes nomes abençoados, o que finalmente os levou ao repúdio público. Acredito que é meu dever contestar a adequação deste repúdio, explicando toda a situação, porque me sinto a principal culpada. Esta explicação pode ser boa para alguns, talvez, e interessará a outros. Que ninguém pense, no entanto, que me coloco
como uma heroína ou uma defensora daqueles que sabidamente não
precisam de defesa. A minha intenção é simplesmente
apresentar fatos e deixar que a situação seja julgada
pelo que é. Em relação à clara afirmação
dos nossos irmãos e irmãs de que estão “vivendo
de migalhas”, “buscando deuses estranhos” sem receber
qualquer admissão, eu perguntaria simplesmente: “Vocês
têm certeza de haver batido na porta certa? Vocês têm
certeza de que não se perderam no caminho de tanto parar em
portas estranhas, atrás das quais estão na espreita os mais
terríveis inimigos daqueles que vocês estavam buscando?
Nossos MESTRES não são “deuses ciumentos”; eles
são simplesmente mortais sagrados, no entanto, são maiores
do que qualquer um neste mundo, moral, intelectual e espiritualmente.
Embora sejam santos e avançados na ciência dos mistérios
– eles ainda assim são homens, membros de uma Fraternidade,
e são os primeiros a se mostrarem obedientes às leis e regras
consagradas pelo tempo. E uma das primeiras regras necessárias
para aqueles que começam a viagem rumo ao Oriente, como
candidatos à atenção e à ajuda daqueles que
guardam os Mistérios, é que devem andar pelo caminho reto,
sem parar em cada caminho lateral, procurando por outros “Mestres”
e professores, freqüentemente da Ciência da Esquerda*. Eles
devem ter autoconfiança, devem ser leais e pacientes, além
de muitos outros requisitos. Falhando em todas estas condições
do começo ao fim, que direito tem qualquer homem ou mulher de reclamar
da falta de disposição dos Mestres para ajudá-los? Uma vez que um teosofista tenha se tornado candidato ao Chelado ou a ajuda, deve estar consciente do juramento mútuo, feito e aceito tacitamente, se não formalmente, entre as duas partes, e do fato de que este juramento é sagrado. É um vínculo de sete anos de provação. Durante este período, apesar das inúmeras deficiências humanas e erros do candidato (exceto dois erros, que não é necessário especificar) se ele se mantém, em meio a cada tentação, verdadeiro para com o seu Mestre ou Mestres (no caso de chelas leigos) e fiel à Sociedade fundada pela vontade deles e sob as ordens deles, então o teosofista será iniciado no --------- e daí por diante autorizado a se comunicar com o seu guru sem reservas. Todos os seus fracassos, salvo este, como especificado, podem ser desconsiderados: eles pertencem ao seu karma futuro, mas são deixados de lado no momento, segundo o critério e julgamento do Mestre. Só ele tem o poder de julgar se mesmo durante os sete longos anos o chela será favorecido, apesar dos seus erros e pecados, com ocasionais comunicações do guru. Este último, totalmente informado sobre as causas e motivos que levam ao candidato aos erros de ação e de omissão, é o único que julga sobre se é correto ou não dar estímulos encorajadores; e esta decisão cabe somente a ele, pelo fato de estar sob a inexorável lei do Carma, que ninguém, desde um selvagem Zulu até o mais alto arcanjo pode evitar – e ele tem que assumir a grande responsabilidade das causas criadas por si mesmo. Assim, a principal e única condição indispensável para o candidato ou chela em provação é simplesmente a inabalável lealdade ao Mestre escolhido e aos seus propósitos. Esta é uma condição sine qua non; não, como eu disse, por qualquer sentimento de exclusivismo, mas simplesmente porque se o elo magnético entre os dois se quebra, fica sempre duas vezes mais difícil restabelecê-lo de novo. E não é justo nem razoável que os Mestres exerçam os seus poderes por aqueles cujo futuro e cuja deserção eles podem muito freqüentemente prever com toda clareza. No entanto, quantos são os que, esperando, como diria, “favores por antecipação”, e se decepcionando, em vez de humildemente dizer mea culpa, taxam os Mestres de egoístas e injustos? Eles quebram deliberadamente a ligação dez vezes num ano, e mesmo assim esperam, a cada vez, serem levados de volta à situação anterior! Sei de um teosofista – deixemos que fique anônimo, embora seria bom que reconhecesse a si mesmo – um jovem quieto, inteligente, místico por natureza, que, no seu entusiasmo febril e na sua impaciência, mudou de Mestre, e de idéia acerca dele, seis vezes em menos de três anos. Em primeiro lugar ele se ofereceu, foi aceito em provação e tomou o voto do chelado; um ano depois, subitamente teve a idéia de se casar, apesar de ter tido muitas provas da presença corpórea do Mestre e de ter recebido muitos favores. Os projetos de casamento falhando, a sua busca dos “Mestres” mudou de clima, se tornou um Rosacruz entusiasmado. Depois voltou à Teosofia como um místico cristão. De novo procurou reavivar suas austeridades com uma mulher; depois desistiu da idéia e se tornou um espírita. E agora, tendo se candidatado outra vez “a ser readmitido como chela” (tenho a sua carta), como o seu Mestre permaneceu em silêncio – ele renunciou completamente ao Mestre, buscando, nas palavras do manifesto mencionado acima, o seu velho “Mestre Essênio para testar os espíritos na sua natureza”. A hábil e respeitável editora de Occult Word e o seu secretário estão certos, eles escolheram o único verdadeiro caminho no qual, com uma pequena dose de fé cega, não encontrarão ilusões e decepções. “É agradável para alguns de nós”, dizem eles, “obedecer o chamado do ‘Homem dos Sofrimentos’ que não rejeitará nenhum de nós porque não merecemos ou não acumulamos um certo percentual de mérito pessoal”. Como é que eles sabem? A menos que aceitem o cínico, horrível e perverso dogma das Igrejas Protestantes que ensina o perdão do crime mais negro, desde que o assassino acredite sinceramente que o sangue do seu “Redentor” o salvou no último minuto – o que é isto, exceto fé cega e não filosófica? Emocionalismo não é filosofia, e Buda devotou a sua longa vida de auto-sacrifício para afastar as pessoas precisamente desta superstição, que produz o mal. Porque falar do Buda agora? A doutrina da salvação por mérito pessoal e auto-esquecimento é a pedra angular do ensinamento do Senhor Buda. Os dois autores devem ter “buscado deuses estranhos”, mas estes não eram os nossos MESTRES. Eles “o negaram por três vezes” e agora propõem “com os pés sangrando e o espírito prostrado” rogando para que Ele (Jesus) os tome de volta uma vez mais sob as suas asas”, etc. O “Mestre Nazareno” irá até este ponto. Mas mesmo assim eles continuarão a “viver de migalhas”, além da “fé cega”. Quanto a isto eles são os melhores juizes; ninguém tem o direito de interferir com as suas crenças pessoais nesta nossa Sociedade, e pedimos aos céus que eles não se transformem, um dia, devido à sua decepção recente, nos nossos piores inimigos. Para os teosofistas que estão desapontados com
a Sociedade em geral, temos a afirmar que ninguém nunca lhes fez
nenhuma promessa avassaladora. E mais do que isto, nem a Sociedade nem
os seus fundadores alguma vez ofereceram os seus “Mestres”
como prêmio para os mais bem comportados. Há anos
é dito aos novos membros que nada lhes é prometido,
mas que tem tudo o que esperar somente dos seus méritos pessoais.
O teosofista é deixado livre e desembaraçado nas suas ações.
Sempre que estiver descontente – alia tentanda via est**
– não há mal algum em tentar um outro caminho –
a menos que ele tenha se oferecido e esteja decidido a obter a ajuda dos
Mestres. Para estes, especificamente, eu me dirijo, e pergunto: Vocês
cumpriram as suas obrigações e promessas? Vocês,
que colocariam toda a culpa na Sociedade e nos Mestres – e estes
últimos são a corporificação da caridade,
da tolerância, da justiça e do amor universal – vocês
viveram a vida necessária, e as condições
requeridas daqueles que se tornam candidatos? Que aquele que sente no
seu coração que nunca falhou seriamente, que nunca duvidou
da Sabedoria do seu Mestre, nunca buscou outro Mestre ou Mestres
na sua impaciência de se tornar um Ocultista com poderes e nunca
traiu as suas obrigações teosóficas em pensamento
e ação – que ele se levante e proteste. Ele
pode fazer isto sem medo, não há qualquer penalidade que
decorra desta atitude, e não receberá nenhuma reprimenda,
muito menos será expulso da Sociedade – a mais ampla, a mais
liberal nos seus pontos de vista, a mais católica*** de todas as
sociedades conhecidas ou desconhecidas. Receio que o meu convite permaneça
sem resposta. [Volume VII – Collected Writings of H.P. Blavatsky, pp. 241-249] (*)
Ciência da Esquerda. A expressão significa “o caminho
do egoísmo”. (N.T.) Extraído
da revista Lucifer . Voltar para Círculo Blavatsky 2005 | Voltar para a página principal
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